Raízes de uma contradição nacional

A descoberta europeia dessas terras que atualmente atende por “Brasil” foi dotada de uma boa dose de contradição, informações desencontradas, mistérios, encantos, disputas. A literatura inicialmente produzida pelos primeiros viajantes observadores dava conta de descrever um povo a que se tinha verdadeira desconfiança, como os Tupinambás. Surgiam boatos de canibalismo, mas logicamente ninguém queria comprovar. Tais informações alertavam os europeus, donos de uma moral cristã absolutamente rigorosa. Por consequência, começaram a surgir indagações filosóficas e religiosas sobre a procedência desses gentios. Finalmente: eram pertencentes a linhagem de Adão e Eva ou possuíam um parentesco nefasto, com o próprio Diabo?

O fato é que a desconfiança em torno dessas “criaturas selvagens” se encaixou perfeitamente aos propósitos dos desbravadores dos oceanos. Justificava-se, portanto, o domínio daquele território, exterminando ou submetendo aquele povo desconhecido ao trabalho forçado na lavoura e na extração de matérias-primas transportadas posteriormente ao Velho Mundo. Não se tratava mais de um interesse puramente econômico, mas de uma “missão divina”, bem aos moldes das propagandas políticas contemporâneas. Esses não-humanos monstros, por assim dizer não eram capazes e muito menos dignos da posse de terras tão exuberantes e férteis que repousavam sob um clima bastante agradável. Na ótica em questão, só o povo do velho continente aproveitaria ao máximo aquele potencial, graças ao conhecimento técnico-empreendedor do homem branco europeu.

Dessa forma, os séculos XVI e XVII foram moldados pelo conhecimento dúbio em torno do Novo Mundo: de um lado, tinha-se um território de profunda beleza e diversidade natural; de outro, selvagens locais sem dignidade, sem leis, reis ou qualquer resquício de uma organização social que lhes pudessem colocar em rota de progresso junto à civilização europeia. Eram descritos como bestas-feras canibais, desprovidas de vergonhas, que alimentavam seus corpos de carne humana e suas almas de rituais de feitiçaria, considerados verdadeiros cultos ao demônio. Tal premissa foi cegamente defendida.

Ainda decidia-se o seu nome, se América Portuguesa, se Terra de Santa Cruz ou Brasil. Seja qual fosse, seus primeiros problemas trazidos da Europa eram traduzidos por essa dicotomia: Deus e Diabo, paraíso e inferno. Por um lado, local repleto de animais, florestas, frutas, rios, terras suntuosas e clima tropical favorável ao plantio; por outro, o próprio inferno, com povos selvagens, desnudos, canibais e praticantes de feitiçaria.  

Pero Magalhães Gândavo foi um dos observadores que ajudou a descrever o que supostamente via, formando uma rara literatura daquele lugar. Entre 1570 e 1576, escreveu dois livros: Tratado da Terra do Brasil e História da Província de Santa Cruz, onde se identificava justamente esses elementos anteriormente descritos. Ora excitação e exaltação dos aspectos naturais/territoriais, ora total inimizade para com os sujeitos que ali residiam precariamente, cruéis e sem qualquer tipo de civilidade, segundo o autor.

O sangrento processo de invasão dos países europeus neste território definitivamente circunscreveu na herança de sua minoria abastada códigos que seguem em contínua reprodução, que se dão de forma atualizada, mas não menos perversa. Apesar da incansável luta dos movimentos sociais que sustentam as mais diversas bandeiras, que clamam pelo respeito à diversidade e garantia dos Direitos Humanos, o país persiste na dualidade filosófica e religiosa, onde há uma indiscriminada perseguição aos “novos selvagens”, como provavelmente enxergam os brasileiros sentados no topo da hierarquia. Esses “novos selvagens” seriam os pobres e marginalizados, classes desprovidas dos direitos mais básicos. O cinismo faz com que esse “espírito colonizador” paire nas práticas sociais cotidianas, invisibilizado na maioria das vezes. Mas sua presença não escapa aos que possuem um mínimo conhecimento das estruturas da realidade e fizeram da educação embora sucateada um instrumento de libertação e transformação social. São estas pessoas, inseridas nos movimentos sociais, que resistem firmemente e denunciam os maus tratos.

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“Íyá” – 2016
Jefferson Medeiros

A imprensa que trabalha incansavelmente para sustentar os valores conservadores que movimentam a política nacional cumpre exatamente o mesmo papel de Pero Magalhães Gândavo, ou seja, demonizar os povos considerados estranhos, a quem não se reconhece traços mínimos de civilidade (pelo menos não a aceitável às classes mais favorecidas) e, além disso, divulgar a exuberância impecável da nação, suas riquezas e suas potencialidades, como um produto a ser vendido ao exterior. Segundo a imprensa de hoje e a literatura de ontem, esta nação só não atingiu as vias de fato da prosperidade por culpa dos pobres (“novos selvagens”) que impossibilitam o progresso.

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“Ígbá” – 2016
Jefferson Medeiros

No ano passado, sete terreiros de religiões de matrizes-africanas foram covardemente depredados em Nova Iguaçu em poucos meses, apenas para citar um exemplo de intolerância recente. Desde os rituais dos selvagens (que nada tinham de europeus) a perseguição se instituiu como uma violenta ferramenta para “lapidar” identidades desejadas. O contrário de Igreja Ortodoxa é rapidamente diminuído a culto ao demônio e essa perspectiva deturpada infestou e infesta a cultura brasileira, encontrando no senso comum seu principal canal de transmissão.  

O uso da demonização pela elite branca seguiu como espada afiada contra tudo o que não se encaixava em seus códigos primários de civilidade. Logo, subiu aos morros, formalizando uma estratégia do Estado em “acalmar” os “novos selvagens” e higienizar os cartões postais. Claro, pois é esta elite quem regozija escorada nos muros erguidos com sangue derramado nas favelas, bem como outrora o sangue dos indígena e dos escravos trazidos da África também pavimentaram a construção do território colonial que aqui se estabeleceu e se enraizou.

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Sem título – 2018 – Jefferson Medeiros

O fato mais atual e emblemático dessa circunscrição cultural se reflete ao caso de Marielle Franco, vereadora do PSOL, executada no dia 14 de março deste ano. Mulher, feminista, jovem de 38 anos, mãe, lésbica, negra, militante dos Direitos Humanos e cria da maré, Marielle foi brutalmente assassinada no bairro do Estácio após retornar de um evento na Lapa, Rio de Janeiro, intitulado “Jovens Negras Movendo as Estruturas”. Anderson Pedro Gomes, seu motorista, também foi morto. Passados mais de um mês do crime, a investigação em torno dos culpados segue sem um desfecho.

Imediatamente após os assassinatos, se criou a dualidade que persegue a nossa história: de um lado, aquele valor cristão que emula um pesar imediato pelo semelhante ceifado mas, por outro, uma acelerada tática de justificação para o crime cometido. Pois, para estes, selvagens não têm voz, nem valores concretos que podem ser aproveitados. Sobretudo, é incompreensível alguém que luta pelos direitos desses homens e mulheres sem os traços “comuns” do progresso e civilidade cristã-europeia que marcou a “racionalização” dessas terras tropicais ocupadas por estrangeiros. Uma barbárie de gênero e de raça se instaurou, emanando do interesse econômico de “prosperidade”, apenas visto como plenamente possível a partir da higienização cultural, da destruição de identidades culturais, políticas, religiosas e do silenciamento perpétuo.

O paradoxo constituído a partir da ideia de Deus e Diabo, paraíso e inferno, divino e pecado, marcou decisivamente nossa sociabilidade. Mas no Brasil de hoje, assim como na América Portuguesa de ontem, só um dos lado continua morrendo.

 

Imagens: https://www.jmedeirosarte.com/onile-1

 

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