A ditadura militar entre a superação romântica e o constrangimento contra-hegemônico

A eleição de Jair Bolsonaro trouxe consigo a aparição mais latente do maior fantasma histórico nacional: a ditadura militar. O debate ressurgiu de tal maneira que extrapolou os limites jurídicos sobre o período por meio da Comissão da Verdade, dos debates acadêmicos realizados nas universidades e escolas. Principalmente após a declaração no mínimo pouco estratégica feita por Bolsonaro sobre o paradeiro do pai do atual presidente da OAB. A polarização sobre o período ditatorial ganhou voz nos grandes meios de comunicação. Chegou-se ao ponto de, até mesmo na Jovem Pan, uma rádio politicamente conservadora, ter um debate acalorado entre seus próprios jornalistas.

Além da polaridade em torno das discussões sobre a tortura na ditadura militar, a realidade presente relativiza, por força nostálgica e romântica sobre o período ditatorial, se de fato o ano de 1964 foi ou não um golpe. Alguns colegas se espantam com o fato de existir até mesmo um questionamento nos livros didáticos (“Golpe ou Revolução?”), partindo do pressuposto que a relativização sobre o período representa um retrocesso na “superação da ditadura militar”. Tese essa defendida, grosso modo, também pelo professor Vladimir Safatle.

Como disse para o professor Rodrigo Patto Sá Motta no ultimo seminário de História da Historiografia em Mariana (2018) ao questionar a tese de “superar a memória nostálgica da ditadura militar”: a ideia de superar é romântica. A memória histórica da ditadura faz parte do DNA nacional. É um marco histórico que produz um antagonismo inconciliável.

A única maneira de tirar essa nostalgia é retomar o debate sobre o período na esfera pública. Tirar o entorpecimento romântico enraizado do autoritarismo. Explicar o conceito de golpe, contextualizar o período novamente nos grandes meios de comunicação. Nesse sentido, ao se colocar em público, a nostalgia pode se constranger mais uma vez. Que a nostalgia do golpe de 1964 seja uma conversa de poucos. Assim se reordena uma contra hegemonia historiográfica.

É ótimo que livros didáticos ponderem a questão e ofereça as alternativas narrativas. Mais do que nunca, o professor terá a importante tarefa de elaborar essa orientação prática no tempo presente.

Os alemães lidam com a memória histórica do nazismo na base do constrangimento, chegando ao ponto de colocar até mesmo restrições jurídicas de manifestação. Mesmo assim, a memória histórica do nazismo move consciências e se organiza partidariamente, mesmo que de maneira clandestina.

A questão do autoritarismo diz respeito a todas as civilizações modernas e os usos de seu passado. Não se trata de uma mera “banalidade do mal”. Não cabe orientar o tempo histórico brasileiro dentro de fundamentações maniqueístas. Tratado dessa maneira, prevalece a tese, por exemplo, da luta contra o mal “comunista” representado por João Goulart.

O tempo atual solicita a suspensão do maniqueísmo. Ele solicita uma educação histórica cuja premissa se baseia na apresentação de polarizações, seja nos livros didáticos seja no ambiente escolar de maneira geral. Não se trata de “relativizar” o golpe ou qualquer coisa do tipo. Trata-se de compreender que as forças conservadoras conseguiram ganhar o senso comum. Com isso, conseguiram relativizar a ditadura militar de vinte um anos. A dura realidade brasileira é que ela é mais relativa do que parece.

Por André Luan Nunes Macedo- Doutorando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto.

Deixe uma resposta