A principiologia ideológica como doença infantil de certa esquerda

Verdadeiro desastre a declaração de Lula e repercute mal, muito mal. Ao mesmo tempo faz emergir mais uma vez, em setores que se consideram de esquerda, o que se pode chamar de uma tendência doentia de marcar posição ideológica em detrimento da luta política concreta.

Tudo é ideológico, claro, e quem luta por determinada causa não precisa ficar reafirmando seus valores referentes a diversas dimensões da vida social. A questão principal é não perceber o problema central do momento, que pode ter consequências terríveis e nefastas para o futuro. Tornou-se ocioso aprofundar detalhes por que nosso principal inimigo é Jair Bolsonaro.

Se temos vários inimigos, a verdade é que a política não se faz com bicho de pelúcia de estimação, tipo ninguém me tira o brinquedo, que ele é só meu! Política é feita de contradições e conflitos e não de uma equação ideológica de soma zero. Ocioso também acenar com exemplos na teoria e na prática.

Desnecessário lembrar que a política é feita de traições e golpe, como o 18 de Brumário de Luís Bonaparte, mas também outros notórios fatos históricos da contradição, como a derrota de Hitler por forças divergentes que se uniram numa determinada conjuntura. Ou então o próprio movimento em 1930 que destronou as oligarquias agrárias no Brasil.

A declaração de Lula de que não é maria vai com as outras para apoiar a frente que se forma contra Bolsonaro confirma algumas coisas pitorescas e outras terríveis. Corrobora talvez afirmação dada certa vez por Delfim Neto, para quem Lula e FHC são políticos do século passado. Exagero, claro, porque todos somos do século passado. Mas a ironia é sugestiva para usos diversos.

Confirma, a meu ver, o erro histórico que Lula cometeu nas últimas eleições ao não abrir mão de sua candidatura nas condições adversas criadas pelos golpistas. Lula poderia vencer Bolsonaro em condições normais, isso é certo, mas os elementos concretos misturados nos conflitos diversos envolvendo diferentes atores dificultaram.

Eu votei em Ciro Gomes no primeiro turno e, evidentemente, em Haddad, no segundo. Evidentemente, por quê? Afinal, por ter votado em Ciro deveria então anular meu voto no segundo? Por que eu posso votar no Haddad, mesmo acreditando que o PT estava cometendo um erro ao dividir as forças contra Bolsonaro? Então por ter votado em Ciro Gomes posso ser considerado de centro, moderado e não de esquerda?

Dilma Rousseff sofreu um golpe de salafrários em 2016. Muitos dos golpistas, não todos, vão ter que lutar conosco agora contra Bolsonaro. Quem não quer se misturar ou está com intenções inconfessadas ou não conhece os meandros da política (que não é o caso de Lula), meandros da vida partidária e dos conflitos e procedimentos dentro do aparato estatal, sem falar, claro, das forças exógenas à administração pública.

Quer dizer que Lula pode defender empreiteiros dizendo que a lei de licitações tem que ser mudada, como disse no passado, com ou sem razão, provavelmente até com razão. E agora não quer se misturar com joões e marias que vão com os outros e não com o PT? Momento de frente ampla é uma coisa. Momento eleitoral é outra, isso é certo. Porém, mesmo no momento eleitoral, temos que nos aliar a determinadas forças para derrotar o pior.

A luta política não se inicia ou se encerra nas urnas ou antes ou depois delas. Ela é permanente e feita de contradições, pântano, idas e vindas, pedregulhos, descidas e subidas. Luta política se faz com organização e pensando no futuro, não no passado. Uma merda quando ela se condensa somente na figura de líderes que se presumem ungidos eternamente pela democracia delegativa.

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1 Comentário

  • “Afinal, por ter votado em Ciro deveria então anular meu voto no segundo?”
    Sim, porque é o que os petistas teriam feito se o segundo turno tivesse sido Ciro x Bolsonaro.

    A melhor coisa que a esquerda nacionalista poderia fazer neste momento é abandonar de vez qualquer pretensão de conquistar o eleitorado petista “de porteira fechada”, e se aliar ao partido da lava-jato, que pelo menos defende a existência do estado e viabiliza a adesão de todo o funcionalismo público exceto os acadêmicos. Se estes querem briga dentro do seu próprio estamento, com certeza para retomar a política petista de 28% de reajuste real para universidades e institutos federais, e 7% para o resto do funcionalismo, assim seja. Os acadêmicos que não forem bestas-feras obcecadas com seus próprios ganhos vão acabar aderindo ao nacionalismo. Esclarecendo a posição de um estado intervencionista na economia, no sentido social-democrata, e absolutamente não-intervencionista na esfera privada e nos costumes, é possível costurar apoios até dentro dos segmentos evangélico e militar. A chave é se livrar de CUT, PT e Luladrão, e das ideologias de gênero ou raciais que os acadêmicos transtornados – verdadeiros bichinhos de estimação de certos banqueiros – tentam operacionalizar para manter seus privilégios.

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