O erro de culpar eleitores de Bolsonaro pelo desgoverno do país

Comete-se erro tático e estratégico, além de teórico-político, digamos assim, quem culpa os eleitores de Jair Bolsonaro pelos pífios 100 dias de governo. Assim também pela tentativa da destruição da previdência pública, pela falta de perspectiva futura do país e pela confusão do entra e sai de ministros, além da péssima imagem do presidente no Exterior. Um governo que demonstra claramente sua intenção de demolir o Estado e destruir direitos e garantias dos cidadãos sem qualquer sinal de ações voltadas para o desenvolvimento e o bem estar da maioria dos brasileiros.

Sugestão para começo de reflexão a ressentidos e arrependidos: os eleitores não podem ser culpados e demonizados. Voto não é cheque em branco – e difícil encontrar elemento consistente na teoria democrática contemporânea que o identifique também como uma espécie de “contrato” entre eleitores e agente político eleito.

O tema nos convida a pensarmos sobre a própria democracia e o que significa um dos seus principais instrumentos, qual seja, aquele que permite que o eleitor retire do poder na eleição seguinte o governante que não atendeu às suas expectativas ou traiu sua confiança. Ou faça com que o mesmo eleitor não escolha novos governantes que queiram continuar políticas daqueles que o frustraram.

Também os eleitores de Bolsonaro arrependidos não têm por que se calarem constrangidos, embora uma certa vergonha seja compreensível, tamanha foi a polarização entre bandeiras peremptórias da campanha eleitoral e agora essa confusão que está aí. Ora, três décadas de democracia nos fizeram viver situações de enganos, decepções e algumas perdas, mas também, muito mais de ganhos importantes numa trajetória em que não cabe mais mimimi depressivo de pós-parto eleitoral.

Ressentimento não cabe na política, mas sim ação estratégica. Não se faz política como se pratica uma religião nem como movimento de torcida organizada de futebol. Em política, faz parte até mudar de time pelo próprio caráter aberto e dinâmico da democracia. Observe-se ainda que nem sempre valores nobres e estratégias sofisticadas de programas de governo coincidem com certos pragmatismos de táticas eleitorais.

Se algumas pessoas de esquerda ficam agora vociferando nas redes sociais contra os eleitores de Bolsonaro, outras, a partir de pontos de vistas distintos, poderiam também culpar os eleitores do PT pela vitória do capitão com o argumento de que esses eleitores abdicaram da formação de uma ampla frente com Ciro Gomes para derrotar o candidato do PSL. Afinal – muitos afirmam – era notória certa rejeição eleitoral em relação ao PT, além da situação inédita, singular, esdrúxula e nazista como foi e é o episódio da prisão do Lula. As indagações poderiam ser na seguinte linha então: Bolsonaro foi eleito mais pela afirmação ou pela negação? Ou por ambas as posturas?

O cientista político Guilherme O’Donnell referia-se ao voto como uma espécie de “aposta institucionalizada”. Fazemos apostas, não contratos empresariais, religiosos ou esotéricos. E nesse jogo pagamos para ver o tempo todo. Além disso, blefes são a coisa mais comum na política em diferentes formações sociais desde sempre, não sendo, obviamente, uma jabuticaba brasileira. Blefe tanto do eleitor como do candidato e do político eleito. Exemplo de blefe do eleitor pode ser, por exemplo, em algumas situações, o voto nulo que se apresenta como “mais axiológico” e independente, mas sabendo que poderá contribuir para a eleição de um e a derrota de outro.

Da mesma forma, o voto como cheque em branco não faz sentido por conta daquilo que a teoria política contemporânea chama de “desconfiança institucionalizada”. Em política, temos que ser sempre desconfiados. Daí que críticas constantes e fiscalizações rotineiras são normais numa democracia, e não coisa de comunistas ou golpistas de direita. Não é porque apoio A em vez de B, e uma vez eleito A, vou depositar confiança total, com olhos vendados, nas ações do meu preferido.

Se existe algum “contrato social”, famosa expressão dessa quimera construída pela teoria política moderna de Hobbes, Locke, Rousseau e Montesquieu, só para citar talvez os principais, poderíamos dizer que o que poderia se aproximar da ideia de um “contrato” é a materialidade da Constituição e das normas consagradas em regras e leis. Em suma, as regras do jogo.

Voto, porém, não é contrato stricto senso, embora possa ser visto como um dos elementos (mas não cláusula) da tal espécie de contrato. Não seria extravagante usar até uma expressão famosa de Émile Durkheim: “elemento não contratual do contrato”. Golpes, como o que derrubou de forma descarada Dilma Rousseff em 2016, são a quebra das regras do jogo durante o jogo, uma delas a garantia dos resultados da aposta institucionalizada feita pelo eleitor.

Aqui, diga-se de passagem, pode parecer bizarra a comparação, mas o jogo do bicho ensina: vale o que está escrito. Se fosse para a democracia, quer dizer: vale o escrito e não as interpretações jurídicas casuísticas “ad hoc” de ideologias beletristas de “mutação constitucional”, usadas e manipuladas de forma cínica por políticos e juristas incensados por empresários para sacramentar a garantia de determinados interesses. Ou seja, a “mutação” que não muda o texto da Constituição, mas permite interpretações ditas inovadoras e capciosas para decidir sobre situações controversas.

Tanto é verdadeiro o caráter não contratualista do voto que, durante debate dentro da casa legislativa, o parlamentar eleito pode mudar seu pensamento sobre algo que ele prometera durante a campanha e surpreender ou frustrar seu eleitor. E o faz, legitimamente, persuadido por outros parlamentares que sejam mais convincentes ou “mais justos” nesse ou naquele tema. Ou, ilegitimamente, por motivos inconfessáveis.

Ao ser eleito, o político não assinou contrato algum com seu eleitor, podendo mudar de partido e de opinião. Com todas as críticas que se possa fazer a Schumpeter, ele tinha parcela de razão ao afirmar que a democracia é uma competição entre elites – e o grosso do povo vai a reboque apoiando aquele que for mais competente em termos de marketing, táticas e procedimentos eleitorais. Obviamente, pactos e articulações entre grupos contam, mas o caminho do inferno está cheio de boas intenções com tapinhas nas costas. E articulação de pactos entre grupos e marketing político são elementos indissociáveis.

O que dizer de um presidente que pouco participou dos debates para falar de suas intenções de políticas públicas durante a campanha eleitoral e acabou eleito? O que dizer de um povo que assiste à tentativa da destruição da previdência pública e ainda não foi para as ruas em massa para parar o Brasil? Cabe, portanto, mais indagações do que ressentimentos. Sabe-se lá por quais e complexos motivos, em suas diferentes posições de classe social, o eleitor votou ou acreditando que Bolsonaro, representando a “anti-política tradicional”, daria “um jeito” no Brasil, ou votou para impedir a eleição daqueles que ele achava que poderiam prejudicar sua vida, mesmo talvez nem pensando no país.

Seja o que for, há que se colocar a viola do voto no saco quando nosso candidato perde. Porém, assim mesmo, sacar, empunhar e engatilhar a arma da fiscalização, da cobrança e da crítica constante, além das articulações para a próxima eleição ou para impedir a demolição do Estado e dos nossos direitos consagrados em 1988. Em suma, a esquerda só tende a perder se continuar olhando para eventuais lideranças e para o eleitor de forma messiânica ou fetichista.

Por mais que o presidencialismo de coalizão obrigue os políticos a certo pragmatismo eleitoral e mesmo a um toma lá, dá cá para governar, um pouco de sensibilidade sociológica e marketing político só tendem a enriquecer tanto a ação imediata como a de longo prazo. Isso, para que os atores que queiram realmente conquistar o poder político não se limitem àquela política pedestre e rasteira de falar somente para os próprios pares, como acontece frequentemente nas discussões de centro acadêmico e nos encontros festivos de botequim.

1 Comentário

  • Bela reflexão da nossa realidade. Vejo as pessoa reclamando nas redes sociais, culpando a,b ou c. Mas ninguém vai a luta realmente pra defender seus direitos e convicções. Falta essa índole beligerante a nós brasileiros de forma geral. Se convocarem uma manifestação geral para defender os nossos direitos e na esquina após promoverem um show gratuito de música ou uma partida de futebol entre times rivais de massas com transmissão gratuita pela TV. Adeus direitos trabalhistas e cabresto nos trabalhadores. Estamos muito próximos que isto ocorra. Infelizmente.

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