Guerra interna no PSOL, causada por Erundina, expõe as vísceras do partido

A deputada federal Luiza Erundina do PSOL abriu uma guerra interna em público no partido com uma postagem agressiva nas redes sociais. Os também deputados federais do partido, Fernanda Melchionna, David Miranda e Marcelo Freixo reagiram duramente. O motivo do esperneio de Erundina é o medo da humilhação de não ter sequer os 10 votos do PSOL na eleição para presidência da Câmara dos Deputados.

A deputada acusou os colegas de estarem vendendo o voto por “fisiologismo”, em troca de cargos em comissões e na mesa diretora da Câmara. A octagenária neoesquerdista radical foi lembrada de quando saiu do PT para ser ministra de Itamar Franco, vice de Collor que assumiu após o impeachment em 1992, dos muitos anos que passou no “burguês e fisiológico” PSB, tendo como candidato a vice-prefeito ninguém menos do que Michel Temer do MDB contra Marta Suplicy em 2004.

Por outro lado, os partidários dos deputados trotskistas que são contra a candidatura própria do PSOL para “marcar posição” na Câmara também foram lembrados pelo outro lado de quando apoiaram as ofensivas golpistas da direita e das corporações judiciais na tentativa de derrubar Lula na crise do Mensalão em 2005 e Dilma na Lava-Jato em 2015.

O fato é que Erundina é eleita em São Paulo, de onde é comandada a APS de Ivan Valente, corrente majoritária do PSOL. De São Paulo, o PSOL não consegue negociar praticamente nada na Câmara dos Deputados, nem emendas parlamentares, nem posições estratégicas em comissões e etc, devido à brutal hegemonia do PSDB e DEM de um lado e PT do outro.

Já no Rio Grande do Sul, de onde é comandado o MES de Luciana Genro e Fernanda Melchionna, segunda maior corrente interna do partido, o PSOL é até mais forte que o PT, e as bancadas da direita são menos hegemonizadas pelo governador tucano, o que abre espaço para negociações pragmáticas para os partidos menores.

Esse é o mesmo caso do Rio de Janeiro, onde está Marcelo Freixo e David Miranda (este também do MES). Freixo como líder do ativismo de direitos humanos e os trotskistas engajados nas pautas identitárias da classe média ocuparam a maior parte do espaço da esquerda no Rio de Janeiro, e estão acostumados a acordos desse tipo na ALERJ. Não à toa, Freixo ficou famoso como presidente da Comissão de Direitos Humanos na assembleia estatual, além de ter conduzido CPIs importantes contra milícias e etc.

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Essa disputa APS e Erundina vrs. MES e Freixo expõe as hipocrisias e táticas pseudo-esquerdistas do partido. Na verdade, a APS é até mais pragmática que os trotskistas historicamente, no entanto, devido a uma particularidade regional, a “ala direita” do partido partiu para o “radicalismo” oportunista e a “ala esquerda” foi empurrada para a impopular posição (perante a classe média de esquerda) de defender acordos pragmáticos com a direita para ocupar espaços. No fundo, é disso que se trata para os dois campos, ocupar espaços, não importa como.

O voluntarismo de Erundina, que responde apenas aos interesses do próprio mandato em busca de reeleição, é apoiado pelo radicalismo de ocasião da APS, e por outros deputados que também não tem compromisso com nenhuma estrutura partidária como Glauber Braga. O ex-PSB, assim como Erundina, herdeiro político e filho da ex-prefeita de Nova Friburgo, onde tem seu reduto eleitoral, entra em conflito político inclusive com sua namorada, a deputada Sâmia Bonfim, que apesar de ser de São Paulo, de onde o partido é controlado pela APS, é uma fiel trotskista do MES, e deixa de lado qualquer radicalismo lavajatista para apoiar Baleia Rossi do MDB.

As performances radicais na retórica moralista e as contradições do movimento real da política são um problema sério para partidos como o PSOL, assim como o foram para o PT no passado. O PSOL como dissidência petista é apenas criatura farsesca do PT dos anos 80 e 90 contra o “neoPT” pós-chegada ao poder. Permanece no PSOL o pior do petismo, o moralismo da antipolítica e a ausência de projeto nacional para negociar com o Brasil profundo e real representado no parlamento pelo Centrão e os grandes partidos do interior.

Mas, ao contrário do criador, o PSOL não possui poderosas estruturas sindicais, tampouco conseguiu se apoderar de aparelhos estatais através do voto como o PT conseguiu nos rincões do Brasil. Boulos tenta emular, sem sucesso, o populismo lulista, que só foi possível após a chegada ao poder negociando e atraindo o centro. Enquanto o PT existir, e Lula liderar os aparelhos mobilizadores de massa em torno de seu prestígio popular, o PSOL continuará sendo apenas uma linha auxiliar que atua como “reserva moralista” do petismo, liberando o PT para realizar seus acordos pragmáticos sem os incômodos internos mais graves causados pela retórica pseudo-esquerdista.

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7 Comentários

  • Quando estava sendo criado o PSOL, uma pessoa, que estava colhendo assinaturas para a formação do mesmo. veio pedir para que eu assinasse; disse-lhe que não podia, por ser filiado ao PDT (faz 40 anos que sou pedetista); aí ele disse que havia problema; disse ao mesmo que para mim tinha, pois, sendo filiado em um partidou, como iria assinar pela criação de outro; alguns dias depois ele estava conversando com um companheiro trabalhista; era época do mensalão; aí eu disse que o PSOL já tinha começado tal qual o PT, e ele ficou irado, achando que eu estava falando em corrupção; nada disto, eu estava falando que o partido já tinha começado com várias correntes, tal qual o PT.

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  • MÉTODO COERENTE
    1. Eu, cá com os meus borbotões, acho que o PSOL errou na decisão que tomou a respeito da eleição para a renovação da Mesa Diretora da Câmara de Deputados.
    2. O erro, a meu ver, foi sobretudo quanto ao método empregado para a tomada de decisão. O método deve sempre guardar relação com a importância da decisão a ser tomada.
    3. No caso, o único método coerente com a importância da questão em tela seria o “cara ou coroa”. O “palitinho” também valeria…
    4. A discussão que vem sendo travada a respeito nas hostes psolistas me lembra a orquestra do Titanic.
    5. Muito calor e nenhuma luz. E o deserto avançando… Em que país essa gente vive?

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  • A decisão mais simples da história do PSOL…
    Lançar candidatura própria, marcar posição, talvez até sem ter os votos do partido, contribuir para a eleição do representante do fascismo bolsonarista…
    Ou manter sua posição anti-bolsonarista e fechar fileiras com a oposição das esquerdas para DERROTAR o candidato dos fascistas e ocupar espaços importantes na estrutura de decisão da Câmara dos deputados…
    ?????????

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  • […] Como já demonstrei em outro artigo, o maior partido supostamente radical do Brasil, o PSOL, se dividiu nessa batalha concreta travada na Câmara dos Deputados. Parte do partido entendeu que era melhor se aliar ao centro neoliberal para enfrentar Bolsonaro, no intuito de negociar posições na mesa e nas comissões da Câmara, enquanto Erundina buscou com sucesso realizar a agitação política para seu gabinete. No entanto, como acontece na história, a frente ampla foi derrotada pela extrema-direita, não porque a tática estava “teoricamente equivocada”, mas porque concretamente Bolsonaro conseguiu romper o seu próprio isolamento e deslocar o Centrão para dentro do governo com a utilização corriqueira do orçamento, exatamente como o PT, e o PSDB, e todos os governos democráticos fazem. […]

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