Escândalo do Facebook diz respeito também a nós

As revelações recentes que surgiram na imprensa internacional sobre o escândalo do Facebook, que liberou dados sensíveis dos seus usuários para um pesquisador, o russo-americano Aleksandr Kogan, funcionário da Cambridge Analytica, a qual prestou consultoria política nas campanhas do Brexit e de Donald Trump, traz mais uma vez à tona o perigo da invasão de privacidade na era da informação e a instrumentalização disso para projetos político-ideológicos que corroem as democracias. Mais assustador do que constatar a existência dessas coisas, a amplitude que tomam e as graves implicações que geram, é notar relativa indiferença no Brasil ao tema, por autoridades e intelectuais.

Antes de continuar a versar sobre é necessário pontuar porém que as investigações a respeito do caso Facebook continuam e o que sabemos até aqui é que o Facebook não fez repasse direto do seu banco de dados à Cambridge Analytica, alegando que teria concedido o acesso aos dados dos seus usuários apenas para finalidade acadêmica para o referido pesquisador. Essa é a alegação do dono do site e do seu corpo jurídico. Seria muito mais grave se fosse ele, Facebook, que comercializasse diretamente com uma empresa dados importantes sem autorização daqueles que têm perfil ativo na supracitada rede social. Zuckerberg, na quarta-feira (11), na Câmara dos Deputados, e no dia anterior no Senado, acusou Kogan de ter burlado o acordo que visava apenas finalidade acadêmica e ter vendido não apenas para a Cambridge Analytica as informações que dispunha.

Outro aspecto importante que o fundador do Facebook fez questão de asseverar é que não vende ou repassa informações de quem frequenta a rede para empresas. Segundo ele, a forma de monetização é obtida por meio da propaganda direcionada: alguém paga para ter sua marca, empresa, produto etc. divulgado e o próprio Facebook, a partir do banco de dados que dispõe, direciona-o para o público mais indicado. A garantia de Mark Zuckerberg traz um pouco de tranquilidade aos usuários em um momento que muitos se questionam se a permanência no site ainda é uma opção segura. Resta saber, porém, se de fato é assim que funciona e até que ponto essa política de privacidade do site já não é bastante intrusiva ao coletar e guardar informações.

No entanto, mesmo que o tema já seja bastante grave por si só, aqui falamos da relação comercial do site e sua política de privacidade para com este segmento. É apenas um lado da coisa toda. E há outros. Em 2013, durante o rescaldo do escândalo revelado pelo analista de sistema Edward Snowden a respeito da NSA, Agência Nacional de Segurança estadunidense, que vigiava e coletava secretamente informações de civis e de autoridades, como a da presidente Dilma Rousseff, conforme revelou o jornalista Glenn Greenwald com obtenção de documentos secretos, muito se falou da possível colaboração de gigantes da área da informática direta e indiretamente com o sistema de espionagem estatal. Julian Assange, famoso ciberativista criador do WikiLeaks, vai além: para ele, gigantes como Google e Facebook perpetram eles próprios um capitalismo de vigilância e colaboram ativamente com o governo americano em sua política externa.

Porém, a fala de Assange não é fruto de uma inquietação nova. Nos anos 70 e 80 o famoso filósofo Noam Chomsky denunciava a relação umbilical das empresas surgidas no Vale do Silício, região da Califórnia onde se concentram alguns dos maiores grupos de alta tecnologia e informática do mundo, e o complexo militar e político norte-americano. E essa combinação, que é reafirmada nos dias atuais, é bastante deletéria para a democracia e a soberania dos povos. Os motivos são óbvios e ainda que seja muito difícil saber quantificar exatamente o impacto, afinal estamos lidando com assunto extremamente sensível e guardado a sete chaves cuja extensão é difícil captar, essa relação tem impactado de maneira aparentemente muito decisiva no cenário geopolítico e nas decisões que se pretendem democráticas. O fator novo aqui é que se está chegando a um ponto em que essa relação perigosa passou a afetar atores que dela só se beneficiavam, os países de capitalismo central.

É difícil ponderar também como transcorrerá o debate a respeito da vigilância de informações, o repasse para grupos privados e o uso político tanto da questão em si, dos vazamentos de dados, como da implicação do próprio tema como um todo na agenda política mundial. Nos EUA, o assunto se transformou em uma das principais preocupações diante dos acontecimentos recentes, a eleição de Trump, uma suposta interferência russa no pleito presidencial e agora o escândalo do Facebook. Aqui no Brasil, apesar da revelação de que algumas das nossas principais autoridades já foram grampeadas e vigiladas, pouco se fala a respeito. No máximo se repercute o que acontece nos EUA, como se toda a celeuma se restringisse às suas fronteiras, o que é bastante equivocado.

Se quisermos proteger nossa paupérrima democracia e desenvolvê-la, tais questões não podem ser negligenciadas sob o risco de não conseguirmos explicar o passado e ficarmos refém no presente daqueles que destruirão nosso futuro. Definitivamente não se trata aqui de um assunto de importância menor. Não mesmo.

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