Por que é tão difícil para a esquerda arejar seu discurso?

Desde 2014 a esquerda tem perdido absolutamente todas no que se refere às grandes disputas políticas. À debacle da esquerda tem se seguido um avanço extraordinário das forças conservadoras e sobretudo reacionárias. Não é um fenômeno porém que atinge só a esquerda e que é de toda sua responsabilidade. Basta observar que o centro e a centro-direita encontram igual dificuldade e estão absolutamente esvaziados — só existem em um clamor por vezes mais esperançoso que realista dos moderados.

Vivemos hoje um contexto em que a população rechaçou praticamente todos os pactos forjados a partir da redemocratização, o que chamamos de Nova República. Três são as maiores insatisfações populares em relação a esse período: a precariedade dos serviços públicos; a qualidade de vida nos grandes centros com uma urbanização caótica e índices absurdos de violência; e a corrupção generalizada que grassa na administração pública.

É salutar dizer, porém, que em todas essas áreas com exceção da segurança, uma vez que a violência passou a campear no País e só nos dois últimos anos viu uma redução longe de ser satisfatória no número de homicídios, o Brasil presenciou diversos avanços. O Brasil de 2020 é bastante melhor que o Brasil de 1988 quando o grande símbolo desse período foi proclamado: a Carta Magna, a Constituição Cidadã.

No entanto, para nosso desalento, os grandes atores dessas transformações não souberam defender os supracitados legados. Pior: alguns deles, tomados por um antipetismo raivoso, passaram a cuspir naquilo que eles ajudaram a construir. O resultado, como não poderia ser outro, foi a pavimentação do caminho para uma força antissistema. E como a esquerda não soube se apresentar como alternativa e nem tampouco deu oportunidade para novas lideranças que pudessem defender o legado da Nova República (e destaco duas, Marina Silva e Ciro Gomes), abraçando-se ao personalismo lulista, acabou dando à direita reacionária o monopólio do discurso que a população queria ouvir.

Outro aspecto disso tudo e que é importante salientar: os eleitores que votaram em Marina, em Ciro ou em Haddad acreditam bem mais no legado da Nova República que os eleitores de Bolsonaro, Amoêdo, Álvaro Dias etc. Tal fenômeno também tem caráter regionalizado: o Nordeste que presenciou significativa mudança social acaba sendo um defensor maior desses pactos de transformação gradual observados nos últimos 30 anos que a população do Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

Tal situação somada às bases sociais que tradicionalmente apoiam a esquerda, como o funcionalismo público, que impedem uma discussão mais racional no campo econômico (em 2019 uma parte significativa da esquerda engajada propugnava usando dados falsos que não haveria necessidade de reformar a Previdência e que ela não seria deficitária) dificultam a necessária renovação do discurso para atingir as massas. E como diz o cientista político americano Mark Lilla, o político deve ser como um garçom e entregar o que o seu cliente pede. No caso do eleitor brasileiro, os desejos são mais do que claros desde pelo menos Junho de 2013: melhores serviços públicos, mais segurança, mais empregos e menos corrupção.

2 Comentários

  • Se o petismo fizer autocrítica, terá se reconhecer que sua prática foi e promete continuar a ser social-liberal, ou seja, de centro direita, como prova o artigo do Haddad publicado na Folha no último domingo. Então, para manter a roupagem de esquerda, preferem não aprofundar a discussão.

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  • Antes de se falar em “renovação do discurso” ( lembrando que essa expressão pode ter n significados), é preciso pensar nas formas de concretizar canais que viabilizem o envio deste “discurso” para o interlocutor povo despolitizado e alienado. A esquerda (esse conceito também tem tido uma elasticidade impressionante, a ponto de incluir indivíduos e partidos que são, no máximo, expressões do social liberalismo) se encontra totalmente apartada do povo, enquanto a direita com ele se relaciona de múltiplas maneiras, para além de seu tradicional monopólio dos meios de comunicação social, com destaque para a manipulação vergonhosa dos sentimentos religiosos, instrumento eficiente de dominação política através da superstição, da construção no imaginário de homens simples de um mundo mítico pleno de recompensas após a morte, maniqueísta, em que a esquerda é apresentada, satanizada, como mensageira do mal. Esses milhões de indivíduos não serão jamais reconquistados por narrativas velhas ou recauchutadas da esquerda, mas somente em processos de proximidade tão íntima quanto a obtida pelos pastores vigaristas que roubam cotidianamente de homens comuns o dinheiro e a consciência de classe em processos de hipnose coletiva. A esquerda necessita reestabelecer renovadas relações de camaradagem cotidiana com o nosso povo, indo aonde o povo estat como quem se dispôs a conviver e lutar em seu meio.

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