Teorema de um triângulo não-amoroso: As esquerdas, a grande mídia e o bolsonarismo

Desde a eleição de Fernando Collor, o vínculo entre as corporações midiáticas e os partidos políticos foi insistentemente denunciado pelas esquerdas, em especial, pelo mais emblemático de seus porta-vozes, o Partido dos Trabalhadores. A reeleição de FHC, pouco depois, costurada com a venalidade das coalisões partidárias, não poderia ter sido possível sem a criptocampanha da Rede Globo, e todas as tentativas protagonizadas pelo PT de frustrá-la se viram rapidamente pisoteadas. Não tendo tido êxito no teatro do poder, a hostilidade das esquerdas contra o que elas chamavam de “grande mídia” espalhou-se no imaginário popular pela via universitária – alcançando em consequência a escola secundária – e pela militância de artistas engajados. A guerra deflagrada aqui ocorria em dois planos distintos: em um, só a grande mídia vencia; em outro, só as esquerdas.

Contudo, uma vez no poder, o PT não adotou uma performance combativa à imprensa, salvo através de tímidas intenções de regulação. Em vez disso, incentivou a criação de plataformas de comunicação alternativas e apostou atabalhoadamente na cooptação: acamaradou-se de empresários que monopolizavam o horário nobre e refinou os canais de transferência de recursos públicos ao setor de telecomunicações. Ostentando bons números na economia, arrancou constrangidos e inconvincentes elogios de William Bonner, nos idos de 2004. Mas essa trégua só durou até a crise do mensalão, em 2005, quando a Rede Globo, de forma contundente e empolgada, passou a novelizar os escândalos de compra de votos, e a revista Veja entrou em despudorada excitação com a possibilidade de arrancar do Congresso o impeachment do presidente petista.

O PT foi, novamente, hábil no manuseio da tecnologia da cooptação. Conseguiu a promessa do volumoso PMDB de não levar o impedimento adiante, acordando uma chapa eleitoral para o certame de 2006; conseguiu titubear a consciência de Severino Cavalcanti, promovido da insignificância à presidência da Câmara para receber e encaminhar o processo contra Lula; conseguiu emplacar um improbabilíssimo referendo sobre a proibição do comércio de armas que redefiniu o debate nacional, ainda em 2005, abafando o mensalão; e contou com a sorte de o PSDB abrir mão da candidatura de José Serra para apostar Alckmin – que mal conseguia vender a sua imagem de Geraldo à nação.  Geraldo. O refrão “Deixa o homem trabalhar!” e as propagandas de obras do setor de construção civil deram fácil vitória ao partido. Lula se sentiu como o craque Vampeta dando cambalhotas na rampa do Planalto, enquanto a Globo e a Veja tiveram de adiar os planos de um novo tucanato.

A revanche da grande mídia veio apenas no Governo Dilma. Lembremos alguns eventos importantes: em 2012, o julgamento da ação 470, aguerridamente relatado por Joaquim Barbosa, um ex-petista indicado por Lula ao STF que tornara-se primeiro juiz-estrela da TV nacional; a aguda incapacidade de articulação política da presidente Dilma sobretudo com o Congresso; as manifestações de junho de 2013 e a eclosão de movimentos sociais liberais e conservadores; e a prestigiada operação Lava Jato, que escancarou os esquemas de corrupção do PT com as grandes construtoras nacionais e alcançou ápice em 2014, revelando um outro juiz-estrela para o horário nobre, Sérgio Moro. Esses fatores deram conteúdo suficiente para que a grande mídia organizasse uma mensagem global de antipetismo e a dirigisse à imensa classe média que iniciava uma trajetória de declínio econômico. Desde então, a Globo ecoou as vaias do Maracanã contra uma presidente que se apequenava e que logo veio sofrer um desfecho pior do que um 7 a 1.

Teorema de um triângulo não-amoroso As esquerdas, a grande mídia e o bolsonarismo

Mas a grande mídia não foi hábil em perceber que o vácuo deixado pelo lulopetismo no poder não seria preenchido por um PSDB encabeçado por Aécio Neves, cuja votação expressiva na campanha de 2014 mais decorria dos abundantes vícios de seus contendores do que de suas minguadas virtudes. Ademais, a mídia não conseguiria acompanhar a popularização desenfreada das redes sociais, o ambiente no qual a mensagem antipetista parcialmente sistematizada por ela se espalhou e adquiriu mutações imprevisíveis. Um erro de cálculo e uma reconfiguração do cenário foram aqui fatais.

Nas redes sociais em processo de expansiva adesão, o imaginário pulverizado pelas esquerdas desde os anos 90, no qual as corporações midiáticas figuravam como ilusionistas macabros, foi pouco a pouco entretecido à hostilidade às próprias esquerdas que eram absorvidas pelo o empuxo do antipetismo. A grande mídia e o PT, de repente – e a despeito de seus esforços –, estavam do mesmo lado. Na confusa terra das redes sociais, o revezamento paulista do poder entre tucanos e petistas foi assimilado como uma parceria de bastidor, mediada pela grande mídia – em especial, outra vez, pela Rede Globo. E, com isso, Willian Bonner, Lula e FHC figuraram como compadres.

Narrativas tão mais eloquentes quanto mais contra-factuais tornaram aqueles inimigos políticos cúmplices de um mesmo pacto “comunista” contra o povo, e reivindicaram um salvador-outsider para expurgá-los do poder e conduzir o Brasil a Canaã. O outsider escolhido não estava propriamente fora do jogo, mas era alheio aos seus protocolos e vestimentas – isso bastou.

Fazendo com que as massas interpretassem a existência dos partidos políticos, do Congresso, da imprensa, do Judiciário e da academia, como a composição coerente de um único establishment, a narrativa pró-Bolsonaro foi eficiente em incorporar a metáfora do messias a um homem mentalmente hibernado, que tinha em um pequeno número de slogans, como “bandido bom é bandido morto”, “acabar com o viés ideológico” e “tem que tirar isso daí”, não uma abreviação pedagógica de um ideário, mas o esgotamento de um repertório mental. A pretexto de ser antiestablishment, para ser o salvador, Bolsonaro tornou-se um presidente anti-institucional. Até aqui, a sua gestão tem mostrado vigor contra todas as instituições, em especial contra a imprensa. Uma perseguição fulminante a jornalistas e artistas da Globo, e a desqualificação moral de qualquer político ligado ao PT e às esquerdas, têm o respaldo de seguidores virtuais que parecem reconhecer apenas no revanchismo a legitimidade de um presidente. O espetáculo a que assistem perplexos aqueles adversários históricos, com o bolsonarismo, tornou adequada uma profecia oximórica de Dilma Rousseff: “nem quem ganhar, nem quem perder, vai ganhar ou perder; vai todo mundo perder.”.

A estratégia do presidente Bolsonaro em relação às comunicações é, em um sentido, similar à adotada pelo petismo, mas, em outro, é o seu contrário. É similar em patrocinar mídias e canais alternativos, como blogs chapa-branca, com uma tecnologia mais sofisticada de que o PT não dispunha, e que consiste em selecionar e alavancar, por suas redes, programas e comunicadores relativamente pequenos dentro de emissoras relativamente grandes, desde que sejam favoráveis ao presidente e críticos de quem o contraria – mesmo que se trate de alguém do próprio governo. O sentido oposto é de atacar em vez de cooptar a “grande mídia”. Essa performance é feita de recortes e montagens que simulam interesses cúpidos e partidários do que o bolsonarismo chamou de “extrema imprensa”, furos falsos de reportagem concedidos a jornalistas de renome, e ataques veementes aos profissionais da imprensa em seu exercício de cobertura da agenda presidencial simulados como reações justificadas. Ela avoluma o capital político nas redes sociais e renova o compromisso da massa de eleitores.

O bolsonarismo refez a disputa político-ideológica entre as esquerdas, cujo partido protagonista é o PT, e a grande mídia, representada pela Rede Globo, conseguindo realizar, pelas redes sociais, um ataque a ambas de inquestionável sucesso. A hipotenusa bolsonarista confere a esse cenário político e institucional o caráter de um teorema não-amoroso – e aliás, odioso – no qual ainda não está claro de que forma os catetos das esquerdas e da imprensa poderão contra-atacar com êxito, nem se será preciso que a história apresente uma outra forma geométrica para reequilibrar esse conflito em novas bases institucionais.

Por Tiago Medeiros, professor de Filosofia do Instituto Federal da Bahia, Campus Salvador; doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA e autor do livro Pragmatismo Romântico e Democracia: Roberto Mangabeira Unger e Richard Rorty (Edufba, 2016).

3 Comentários

  • “Narrativas tão mais eloquentes quanto mais contra-factuais tornaram aqueles inimigos políticos cúmplices de um mesmo pacto “comunista” contra o povo” (…)
    “[a narrativa pró-Bolsonaro] faz com que as massas interpretassem a existência dos partidos políticos, do Congresso, da imprensa, do Judiciário e da academia, como a composição coerente de um único establishment”

    Sem saber se vocês acadêmicos realmente não enxergam a realidade, ou se apenas escamoteiam na sua luta pelo poder e pelos aumentos salariais da época lulopetista, fica até difícil comentar. Será que o autor realmente não exerga que Bonner, Lula e FHC são sim comparsas no complô anti-povo chamado estado brasileiro, o qual extorque dinheiro do povo, feito “contribuinte”, para distribuir o butim entre os seus e dar o que sobrar para os miseráveis, na forma de bolsas-esmolas? Que o “conflito” entre essas partes se deve meramente ao fato de que cada uma quer ter o controle da máquina para roubar sozinha? E que as instituições citadas, somadas a elas os empresários amigos do rei, são todas cúmplices sim nessa milenar exploração do povo que realmente trabalha e produz?

    Se esse estado criminoso devolvesse ao contribuinte serviços públicos condizentes com o imposto que se paga, ninguém jamais teria ouvido falar em Bolsonaro. É essa a simples e clara teoria da anti-política, desde 2013 até a eleição e atual resiliência de Bolsonaro. Se vocês, do alto da torre de marfim, honestamente não conseguem enxergar essa simples verdade, é porque estão metidos nessa disputa para ver quem embolsa a maior quantidade do dinheiro roubado do contribuinte. Todos os que estão disputando o controle da máquina de cobrar impostos são inimigos do trabalhador que é espoliado para pagar a farra alheia.

    Qual a surpresa quando o trabalhador, final e surpreendentemente empoderado pelas redes sociais, resolve buscar impor os seus interesses? Por que a revolta com esse desenvolvimento, vinda de vocês que são tão metidos com os sindicatos que supostamente deveriam defender esse trabalhador? Não era hora de louvar as novas mídias e essa verdadeira primavera do trabalhador, que se vê finalmente com a perspectiva de botar limites na exploração que os chupinhadores do estado se acham no direito de fazer? É pedir demais que pelo menos os acadêmicos botem a mão na consciência e se coloquem no lado certo da história? Talvez em 2020 seja.

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