O que a esquerda sectária tem feito para conter os danos causados pelo governo?

Por Snow do Sertão – No Brasil, a atuação da esquerda mais radical tem sido, basicamente, sedimentada num discurso de negação, na romantização da derrota, na marcação simbólica, abraçados no sectarismo em um naufrágio. São como os músicos do navio Titanic, na obra cinematográfica: resignados, pessimistas, apenas aguardando o momento.

Aconteceu recentemente: O PSOL decidiu sozinho, com apenas 10 parlamentares, lançar candidatura à Presidência da Câmara. O candidato do grupo de Rodrigo Maia (DEM), Baleia Rossi (MDB), com apoio dos outros partidos de esquerda (PDT, PC do B, PSB, PT e REDE), foi derrotado, após parlamentares do DEM se debandarem em apoio a Arthur Lira.

A ideia da aliança era juntar o máximo de parlamentares possíveis de oposição para derrotar Bolsonaro, ali, representado por Arthur Lira. Parte do PSOL optou por cruzar os braços e colocou Baleia Rossi e Arthur Lira como equivalentes. Ainda que um deles representasse o bolsonarismo, e o outro fosse mais aberto ao diálogo.

Aparentemente, a esquerda raiz prefere abrir mão do diálogo e da chance, mesmo que remota, de se conquistar algum espaço, de conter os danos em eventual vitória, a “sujar as mãos fazendo acordos com os liberais”.

Após vitória de Lira, rapidamente, o deputado federal Glauber Braga (PSOL) foi apontar que “estava certo” e que tudo não passou de uma “estratégia da direita liberal para isolar e fragmentar a esquerda”.

De fato, seria realmente interessante se a esquerda estivesse unida. No entanto, só serviria para sofrermos uma derrota mais bonita, já que os cerca de 137 deputados federais dos partidos de oposição não eram suficientes para vencermos. Nunca alcançaremos a maioria, principalmente se essa esquerda não sabe dialogar e adere ao discurso purista e sectário. Eis a romantização da derrota.

Outro assunto muito comentado na política atual é sobre a “frente ampla”, que seria nada mais que a união entre forças democráticas, independentemente de sua localização no espectro político, numa tentativa desesperada de conter o bolsonarismo que vem destruindo o país.

Seria eficaz? Não sabemos. Mas o que podemos fazer? O que pode ser feito, na prática, sem “armas” e sem revolução?

Sabemos exatamente o que não dá certo e o que pode não dar certo, e ninguém espera que essas alianças resolvam todos os problemas, mas permanecer inerte perante a tudo que está acontecendo com o nosso país, apenas vomitando teorias e mais teorias para convertidos, não me parece um caminho de sucesso.

Sabemos, ainda, que dificilmente essa frente sairá do papel se setores da burguesia não se voltarem contra o atual governo. Caberia à esquerda liderar este processo, dialogando com os trabalhadores e tentantando de alguma forma conciliar, fazer o povo, que não tem consciência de classe, pensar. Discursos como “eu odeio a classe média” também não me parecem um caminho de sucesso.

“Mas conciliação de classes não existe”.

O Brasil está passando pela pior crise de sua história desde 1930, são mais de 30 milhões de brasileiros no desemprego ou vivendo na informalidade, o país passa por um processo de desindustrialização. Tudo isso em meio a uma pandemia que gerou uma crise no sistema de saúde e que já matou mais de 220 mil brasileiros. Enquanto isso, vários representantes da esquerda estão mais preocupados em autoafirmação, em se portarem como “bastiões” de um purismo marxista, incapazes de se conectar com o povo.

Será que aqueles brasileiros desempregados, ou que estão passando fome estão interessados na discussão sobre quem é mais ou quem é menos de esquerda?

Diante de todas essas questões, o que o povo precisa é de respostas. Apontar, todo mundo aponta. Nosso povo está morrendo, não há tempo para preciosismos. Não é tempo de cruzar os braços e dizer que não aceita e que “não se conforma com o que está posto”, sem uma contraproposta que se mostre de fato mais eficiente e imediata.

A armadilha do sectarismo é esta: ele aprisiona seu adepto num universo paralelo, de negação, fazendo-o se sentir superior, e propenso a rejeitar tudo aquilo que não seguir tais delimitações.

O momento exige maturidade de nossos representantes e de todos aqueles que tenham um compromisso com a democracia. Se não conseguimos vencer, que tentemos então atenuar danos.

O pragmatismo se faz necessário nesses momentos, pois acaba atuando como um analgésico. Não cura a doença, não resolve todos os problemas, não entrega o resultado que a elite pensante de esquerda espera, do alto de um pedestal, mas atenua a dor de quem está aqui embaixo agonizando.

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Mas então, o que a esquerda sectária, ou esquerda “raiz”, tem feito para conter os danos causados pelo atual governo?

Parece um simples questionamento, mas foi motivo de uma discussão calorosa ao indagar um militante do PCB. Por mais que a pergunta tenha sido feita de forma ácida, houve desproporcionalidade na reação. Logo o militante culpou minha abordagem, me silenciou e, posteriormente, me bloqueou, inviabilizando qualquer discussão ou resposta para meu questionamento. Talvez um dos militantes mais influentes da esquerda revolucionária não saiba lidar com as redes, com o contraditório ou com a contestação. Sintomático.

Logo depois, o mesmo se referiu a mim, em texto recente publicado neste site, como “um desses fãs do Ciro Gomes”. Claro, não houve resposta para o que eu havia perguntado nem no texto publicado. Mas fica aí o questionamento.

Por Snow do Sertão, advogado, trabalhista e defensor de um projeto nacional de desenvolvimento.

O que a esquerda sectária tem feito para conter os danos causados pelo governo

1 Comentário

  • Jones Manoel e o PCB são tão irrelevantes que dispensariam os 3 últimos parágrafos do texto. Sugiro deixá-los falando sozinhos da próxima vez.

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