Estamos em guerra: a crise é uma guerra generalizada

Segundo o dicionário Aurélio da língua portuguesa, crise é “mudança súbita ou agravamento que sobrevém no curso de uma doença aguda; manifestação súbita de um estado emocional ou nervoso; conjuntura ou momento perigoso, difícil ou decisivo; falta de alguma coisa considerada importante; embaraço na marcha regular dos negócios; desacordo ou perturbação que obriga instituição ou organismo a recompor-se ou a demitir-se”. A crise é o que é. A crise é um instante súbito em que a dobra da fita de Möebius nos remete para o fora.

No entanto, desde que um conjunto de anarquistas anônimos escreveu “Aos nossos amigos: crise e insurreição”1, sabemos que o capitalismo cognitivo administrou esse instante súbito transformando-o em técnica de governo. E o que se faz é isso: produz-se artificialmente crises políticas e econômicas para que se possa mexer livremente no campo de jogo, transformando tudo e todos em exceção permanente.

Estamos assistindo, talvez, ao maior experimento do biopoder de toda a história: a produção da crise a nível continental, isto é, por toda América Latina. Todos os que sonham estão boquiabertos, em choque, sentados à beira do rio no exílio e “sobre os salgueiros que há no meio, penduramos as nossas harpas”2

Pegaram Lula, um conciliador de reformismo fraco, que pouco ou nada transformou estruturalmente e o lançaram às feras com tudo o que simbolicamente isso significa. Em pouco menos de 2 (dois) anos, uma avalanche reacionária comandada por Michel Temer desmontou item a item as conquistas sociais, e um medo agudo tomou conta de todo o campo progressista. Às vésperas de um julgamento de Habeas Corpus de Lula, um instituto jurídico basilar do Estado democrático de direito, (re)conquistado a duras penas pela OAB durante a sanguinária Ditadura Civil Militar brasileira, o próprio comandante-geral do Exército brasileiro se pronuncia ameaçando implicitamente o Supremo Tribunal Federal.

No interior da crise, o medo se torna técnica fundamental de controle. O medo, como nos diria Adorno e Horkheimer, advém da incapacidade de compreensão do mundo,3 de uma incapacidade cognitiva que a meu ver é também produzida. Em outras palavras, a crise como técnica de governo exerce controle através do medo; desse medo trazido pela burrice generalizada, pelo apagão geral do pensamento, pela diarreia crônica produzida pelos milhares de ânus digitais expostos nas redes sociais.

Para além disso, a crise produzida pelo biopoder é também uma guerra. Uma terrível guerra generalizada que põe em marcha conjuntamente uma grande operação de abafamento da própria guerra. Essa guerra de extermínio é feita nas camadas mais escondidas da pele.

Peter Pál Pelbart denunciou essa guerra:

“Estamos em guerra. Guerra contra os pobres, contra os negros, contra as mulheres, contra os indígenas, contra os craqueiros, contra a esquerda, contra a cultura, contra a informação, contra o Brasil. A guerra é econômica, política, jurídica, militar, midiática. É uma guerra aberta, embora denegada; é uma guerra total, embora camuflada; é uma guerra sem trégua e sem regra, ilimitada, embora queiram nos fazer acreditar que tudo está sob a mais estrita e pacífica normalidade institucional, social, jurídica, econômica” 4

Querem nos fazer crer que tudo ocorre dentro da normalidade, quando na verdade a pacificação é feita com muita bala, com muito sangue, com muita violência. Na lógica do poder exercido contra os morros, paz e guerra se confundem. Vivemos guerra em tempos de paz da mesma forma com que a normalidade institucional está posicionada no interior de um imenso estado de exceção.

Como Maurizzio Lazzarato e Eric Alliez já nos ensinaram em Guerres et Capital,

O capitalismo e o liberalismo carregam as guerras em seu interior, assim como as nuvens carregam a tempestade. Se as finanças de fins do século XIX e inícios do século XX resultam na guerra total e na Revolução Russa, na crise de 1929 e nas guerras civis europeias, as finanças atuais orientam a guerra civil global regendo todas as suas polarizações.5

Na guerra civil generalizada produzida pelo capitalismo para “virar a mesa”, a lógica contra os morros, as favelas e as periferias (que é uma lógica de extermínio) é ampliada.  Essa mesma lógica explodiu recentemente contra Marielle Franco e o motorista Anderson no Rio de Janeiro e a qualquer instante pode explodir contra nós (…) contra qualquer um de nós.

A guerra muda o cenário das coisas. Diante da ameaça, o capitalismo põe em marcha sua máquina teratológica sem nenhum pudor. Ao contrário do que se diz, o neoliberalismo não deixa de governar nesse instante de crise, muito pelo contrário, é aí que ele passa a governar até os mínimos detalhes. É por isso que a guerra que se move contra as minorias não é apenas uma guerra de posição, é uma guerra de extermínio. O neoliberalismo converte em seu interior a luta de classes numa guerra assimétrica, segundo o princípio do maior governo pelo menor esforço, ao mesmo tempo em que desarticula a relação capital-trabalho e a indústria como centro de reconstituição e concentração política.

E para que serve a guerra? Ora, para o capitalista, a guerra nunca é desperdício, já que ela cumpre um propósito econômico e serve para alterar o diagrama.

Quebrados os muros da fábrica, o desafio do capital é controlar a sociedade sem muros: é o controle online e via wifi. A modulação das mentes na frequência neoliberal se dá pelo espetáculo e pelo simulacro. À medida em que o capitalismo ingressa no financismo contra a produção fabril, a guerra fascista contra as diferenças aos poucos deixa de ser  uma guerra dos quarteis, dos tanques e do rifle, embora ainda se utilize desses instrumentos (…) para se tornar uma guerrilha soft completamente disseminada e pretensamente dissimulada.

Na esteira de Foucault, Agamben e do próprio Lazzarato, é possível entrever que a política é a continuação da guerra por outros meios.  A globalização não consegue esconder as milhares de guerras movidas pelo capital contra nós: a guerra contra os pobres, contra os pretos, contra os muçulmanos, a guerra contra os mexicanos, contra os imigrantes, contra os venezuelanos, contra os índios (…) a guerra contra os gays, contra os gregos, contra os comunistas, contra as mulheres… A guerra contra os petistas, contra os artistas, contra os vagabundos, contra os nóias e traficantes. A guerra é movida em todo lugar e por todos os lados. E nunca é demais lembrar o poder de desertificação do capitalismo contemporâneo: Afeganistão, Iraque, Síria e a Cracolândia no centro de São Paulo.

Enquanto os senhores de toga, sentados em suas poltronas confortáveis brincam de Estado de Direito, o estado de exceção graceja, produzindo um amplo e terrível campo de concentração a céu aberto, onde cada um torna-se um potencial soldado de Himmler. E é aí que reside um ponto muito específico: há um elemento geralmente negligenciado no estudo dos totalitarismos do século XX, isto é, a adesão consensual do indivíduo que quebrava a lojinha do judeu, que cuspia na cara da criança judia, que espancava o mendigo na rua, que atirava nas janelas da casa do vizinho, que enforcava com as próprias mãos a cigana na praça, pensando ser parte da grande Alemanha ou da nova Itália nos discursos ensandecidos de Hitler ou de Mussolini… aquele indivíduo aparentemente isolado, o pequeno fascista lá no fim da fila que gozava de tesão pela morte, pelo extermínio – é ele um microcosmos, é desse fascismo em cadeia que falamos. Nem tanto das ameaças de golpe de um general frustrado com a pequenez de suas tropas no mundo mas principalmente pelo discurso disseminado.

A questão é que as decisões das grandes arenas jurídico-políticas, numa época como a nossa (na sociedade do espetáculo) funcionam como uma sinapse neuronal inicial nesse grande cérebro em rede que é o social. É um sinal claro que passa a ser re-transmitido por toda a cadeia micropolítica. Quando se condena uma determinada pessoa, o que se está condenando não é propriamente uma pessoa física, mas um conjunto de ideias (…) um conjunto de desejos, um conjunto de imaginários. Por isso, a meu ver, precisamos resgatar o que há de melhor na tradição de defesa da sociedade, e reerguer a dinâmica da sociedade contra o Estado.

Parece-me muito claro que numa situação de emergência, de lei marcial,  apegar-se ao discurso dos institucionalismos é no mínimo algo sem sentido, para não dizer pouco inteligente. A própria dimensão de reformas empalideceu. A coisa se mostra tão estrutural que não faz nenhum sentido apegar-se ao pacto de 1988 como se ele já não tivesse afundado. Pacto, aliás, que como dizia Florestan Fernandes “é um embuste gigantesco, infelizmente com muitos precedentes em nossa história de conciliações e reformas6

Diante disso, o que me espanta não é a crise. A crise é uma grande brecha, uma grande fresta… O que me espanta terrivelmente é a inércia de quem tem por dever propor a insurreição, a revolta, a rebelião contra o status quo, a reinvenção revolucionária e criativa das coisas. Essa inércia, quase uma dormência dos progressistas, é um sinal claro de medo, ou seja, é um sinal claro da incapacidade de compreender o mundo.

Como disse Peter Pelbart

“Se a cada dia parecemos mais vencidos, a derrota tem ao menos esta vantagem: ela nos força a pensar — e a pensar de outra maneira. É preciso fazer valer tal ocasião. (…)É preciso fazer proliferar uma outra sensibilidade micropolítica, macropolítica, biopolítica, ecopolítica, cosmopolítica, dar nome aos bois, romper um consenso que nos quer abduzir a capacidade de pensar. Sim, fazer do pensamento uma conspiração cotidiana, uma insurgência indomável.” 7

Não há dúvidas de que nossa tarefa imediata é remover a corja de bandidos que se instalou no Estado, mas penso que essa tarefa é apenas a ponta do iceberg. O que está em causa, em meio à guerra, é um reposicionamento de forças em que o campo progressista precisará escolher de vez se realmente quer transformar as coisas ou apenas remendar os cacos, se agarrar ao que já caducou e manter os cuidados paliativos ad infinitum. Essa decisão partirá de um confronto inevitável com a mudança de paradigma do nosso tempo, já que a sociedade está esgotada de tudo, dos mecanismos de exploração e extração da vida de cada um e de todos ao mesmo tempo.

Byung-Chul Han caracteriza o início desse século como um “início neuronal” na paisagem patológica de uma sociedade do cansaço e do esgotamento8, e em tal perspectiva, ao contrário do que alguns apregoam, as coisas não estão bem resolvidas: os últimos 24 meses nos mostram claramente que nem tudo está tão seguro ou resguardado…e que por incrível que pareça, Auschwitz não está tão longe no tempo histórico para que possamos dormir.

Com medo, cansados, esgotados e em meio a guerra sem fim, essa é a nossa chance de reinventar o corpo político e dos farrapos, (re)erguer resistência, nos moldes de Primo Levi: sem medo da transgressão possível.

Notas de Rodapé

  1. COMITÊ INVISÍVEL. Aos nossos amigos: crise e insurreição. Coordenação Editorial: Peter Pál Pelbart e Ricardo Muniz Fernandes. N-1 edições, São Paulo, 2016
  2. BÍBLIA SAGRADA, Salmo 137
  3. Adorno e Horkheimer, Dialética do esclarecimento, Rio de Janeiro, J. Zahar Editor, 1985
  4. PELBART, Peter Pal. Estamos em guerra, artigo publicado no site Outras Palavras, disponível em: https://outraspalavras.net/brasil/peter-pal-pelbart-estamos-em-guerra/ Acesso em 04.Abril.2018.
  5. Referência utilizada também na entrevista de Lazzarato para Carlos Schilling, na íntegra em: http://www.ihu.unisinos.br/567799-o-capitalismo-nao-necessita-da-democracia-afirma-filosofo-maurizio-lazzarato Acesso em 04.Abril.2018.
  6. FERNANDES, Florestan. A Constituição Inacabada: vias históricas e significado político, São Paulo, Estação Liberdade, 1989, p.57
  7. PELBART, P. Op.Cit.
  8. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço, 2ª edição ampliada – Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

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