Evangélicos, identitários e o progressismo brasileiro

Por Tiago Medeiros – Tratarei de duas forças morais, intelectuais e políticas que exercem grande influência no Brasil contemporâneo e que me parecem as mais incompatíveis uma com a outra: os evangélicos e os identitários. Elas possuem as suas próprias lideranças, os seus próprios projetos e as suas próprias agendas, no escopo das quais definem os seus programas e as suas éticas. Os evangélicos se cercam de templos religiosos, emissoras de rádio e canais de TV. Os identitários se apoiam em universidades, jornais de grande circulação e centros de promoção de cultura. No cenário político, ambas as forças hasteiam bandeira em um gesto simultâneo de autoafirmação e de ataque recíproco. Por desígnio de suas lideranças, costumam ser apressadamente associados aos espectros da direita e da esquerda, respectivamente. Na superfície, refletem uma divisão de prioridades, slogans e símbolos que é enganosa, porque revela caricaturas sem revelar mensagens.

Comecemos pela identificação social dos personagens. Quem são eles? Evangélicos aqui são os adeptos do cristianismo de massa. São tanto os pentecostais e neopentecostais, quanto os batistas e ainda os que assimilam o sincretismo de denominações cristãs chegando até aos ecléticos e às fatias mais engajadas do catolicismo carismático. Têm na Bíblia o manual de orientação espiritual e manifestam uma progressiva tendência de rejeição ao que lhes parece exterior ao mundo cristão.

Identitários são a militância organizada ou semi-organizada que se reúne nos contextos acadêmicos definindo o que predomina nas pautas de discussão universitária. São as conhecidas minorias que se articulam através de ideologias sedimentadas e intelectualmente complexas. Não possuem um livro de orientação, mas, como os evangélicos, tendem a exercitar uma performance coletiva de fechamento tribal que distingue e hierarquiza os bons dos maus pela posição relativa ao círculo de sua influência.

Além da conduta tribal, assemelham-se os evangélicos e os identitários por conservarem mútua intransigência sobre a assimilação das prioridades alheias. No primeiro impulso, o evangélico não está disposto a aceitar as bandeiras identitárias, que lhe parecem demoníacas; ao passo que os identitários repudiam veementemente os interesses emblemáticos dos evangélicos, que lhes soam retrógrados ou alienantes. Instrumentados pelos algoritmos das redes sociais, os grupos consumam um abismo inultrapassável na fronteira entre seus respectivos domínios.

No bojo de suas discordâncias, aceitam a designação política com a qual se etiquetam um ao outro. Os identitários são caluniados de esquerdistas pelos evangélicos; os evangélicos são amaldiçoados como direitistas pelos identitários. Nesse quesito, ambos repousam satisfeitos e confortáveis com as acusações. O problema é que os rótulos de direita e esquerda são menos esclarecedores do que as mensagens conservadora e progressista que estão por trás dessa gincana caluniatória. É que as mensagens menos se expressam nos discursos do que nas experiências. Sobre isso, convém uma palavra de inflexão.

O que diferencia um conservador de um progressista não é, primeiramente, a lista de assuntos e diretrizes de suas agremiações, mas um ímpeto anunciado e projetado como atitude, comportamento e conduta. Filosoficamente, pode-se dizer que, no coração conservador, bomba o quietismo, a integração com o presente, o desejo por imperturbabilidade, a constância e a imanência. Com isso, o conservador prescreve o respeito à tradição, à ancestralidade e a aversão à mudança. No coração progressista, por sua vez, prospera a mudança, a transcendência, a insatisfação, o futuro. Com isso, o progressista expressa um desejo pelo novo, simpatia e curiosidade pelo outro lado. Não é uma divisão georreferencial. É uma contenda entre ritmos.

Se lermos a conduta das massas evangélicas, para lá do rótulo de conservadorismo e de direitismo, veremos que a sua mensagem é a da emancipação. Caracteriza-a três elementos. Primeiro, a premissa de que, pela fé, todos são fortes. Segundo, a normatividade do soerguimento, segundo a qual todos podemos sair das circunstâncias de apequenamento do presente. Terceiro, o pano de fundo da moralização da vida: em todas as esferas em que operamos há uma batalha travada entre o bem e o mal e o indivíduo encontra-se permanentemente entre essas duas gravidades tendo de escolher a qual ceder.

Prostrados os brasileiros sob o regime permanente de humilhação e de restrições sociais e econômicas, o conteúdo dessa mensagem de emancipação anuncia que as pessoas não precisam ser como são, não precisam ser vítimas do destino social e econômico do mundo que as cerca. Há um contrafatalismo compartilhável pelos vínculos criados e reafirmados no escopo do exercício da fé. As igrejas são mais do que ambientes de comunicação com o divino, são centros de reabilitação social e trincheira em que são entoados os hinos que energizam as pessoas para a batalha da vida. Pululam os evangélicos nesses ambientes como se pudessem ser mobilizados pelas palavras de inspiração e de comunhão de um líder judeu: “cristãos do mundo, uni-vos!”

Do mesmo modo, se lermos os identitários sem o rótulo do esquerdismo, e atendo-nos à conduta dos coletivos de minoria, o que se revelerá é a mensagem da resistência. Caracteriza-a, também, três elementos. Primeiro, a premissa da separação da humanidade em grupos com identidades definidas. Segundo, a normatividade do reconhecimento e da preservação das identidades contra as investidas de cima ou de fora, dirigidas por agentes que atuam como se ambicionassem diluí-las ou sepultá-las. Terceiro, o pano de fundo da politização radical da vida: toda a diversidade da experiência humana encontra alguma expressão em conflitos de interesses incompatíveis traduzidos como contendas micropolíticas – exemplarmente ilustradas nas disputas sobre o uso correto das palavras na designação de pessoas, grupos e práticas.

Resistir é impedir que um outro liquide, quer no discurso quer na ação, uma identidade socialmente partilhada. Mas, por sua própria semântica, a mensagem da resistência pressupõe que as identidades já estejam sob o ataque das forças que as hostilizam – ou que se encontrem na iminência desses ataques. Por isso, elas precisam estar precavidas, armadas e preferencialmente unidas, vez que são todas igualmente vulneráveis, contra esses pesados investimentos, formando uma parceria de mônadas. O regime de solidariedade procedimental aqui criado antagoniza o mosaico identitário – colado pela mensagem da resistência – às ameaças igualmente coesas e poderosas que estão sediadas em um mesmo todo coerente no desempenho coercitivo, todo esse que constitui estruturas ou sistemas com um núcleo de propagação ideológica. Definidos os objetos de defesa e de ataque, a mensagem da resistência identitária é a de uma monadolologia anticêntrica (antilogocêntrica, antifalocêntrica, anti-eurocêntrica etc).

A divisão política entre a direita e a esquerda, contudo, não permite ver o que o contraste entre o progressismo e o conservadorismo torna explícito. Cotejadas as duas mensagens, o progressismo é desconcertantemente o que é praticado pelos evangélicos em busca da emancipação social. Conservadores são os identitários e sua agenda de resistência das mônadas. O problema circunstancial é que os políticos profissionais do ideário evangélico baixam a temperatura da mensagem emancipatória do cristianismo de massa, aproveitando o caráter de secessão com que a moral individual se avoluma contra os assuntos políticos no imaginário cristão desses milhões de fiéis[1]. Estimulam o nojo à política e gozam sobre o lombo das massas que lutam para salvar-se a si mesmas sem dominarem os caminhos da vida civil. Criam, então, o seu próprio jóquei clube de prósperos no ramo do pastorado, monopolizando na Terra o acesso ao céu.

Do outro lado, as lideranças identitárias operam nitidamente em dois níveis: o nível do poder institucional, através de cargos de representação política, e o nível do poder de opinião, que se manifesta de modo difuso, sob o protagonismo frequente de professores, intelectuais, influenciadores digitais e jornalistas, todos de tendência à esquerda. Há um contraste na atuação dessas lideranças. A liderança profissional, mesmo sendo combativa, é treinada em fazer as contraposições discursivas dialogarem através de técnicas democráticas de deliberação e tendo por horizonte a ideia de que o aprendizado coletivo é real e deve ser exercitado constantemente pela pedagogia da mensagem. A liderança difusa adere a um manual denuncista que não serve para orientar a institucionalização de suas pautas, padecendo de uma mácula dogmática incurável: é um discurso cujo imperativo é a fragmentação compulsiva, não a coesão negociada. Esse manual é mais compatível com o que estou chamando de monadologia anticênctrica.

Por isso, no ambiente das redes sociais, cada vez menos evitáveis, a performance da liderança identitária difusa tem prevalecido sobre a da liderança identitária profissional, e a convicção democrática norteada pela crença no aprendizado coletivo têm sido, a cada nova polêmica, reduzida à condição de eufemismo de quem “passa pano”. Com a intransigência do moralismo identitário, acoimar todos e qualquer um – oposicionistas, dissidentes e adeptos suspeitos – é a única ação que parece virtuosa a essas vanguardas. Na ausência da institucionalização dos interesses e sob o imperativo moralista de fragmentação compulsiva de agendas, em um movimento que estimula a hostilidade até a companheiros de jornada, o que resta ao identitarismo é a implosão. Há que se constatar isso sem celebrar; lamentando. Não há mensagem progressista possível sob o empuxo dessas premissas.

Por outro lado, as lideranças difusas evangélicas, aquém do jóquei clube do pastorado, têm forte penetração popular, mas baixa influência nos círculos de poder frequentados pelos magnatas da fé. Os pequenos e médios pastores são os seus principais protagonistas e constituem a vanguarda real da mensagem emancipatória. Porém, quando não se comportam como servos dos grandes pastores, eles atuam como se aspirassem ingressar no seleto grupo e adquirir o prestígio e a influência daqueles poucos homens de fé. Oscilam, portanto, entre a sujeição e a cupidez.

Nesse quadro de confusão entre mensagens, autoimagens e porta-vozes influentes, as lideranças evangélicas e identitárias do andar de cima proclamam qual é e dever ser o espectro político do seu público de adeptos, mas o ideário que move as massas de cada grupo é melhor representado pelas lideranças do andar intermediário (o que chamei de lideranças difusas). São elas que determinam, na prática, quem é progressista e quem é conservador. A esse respeito, vê-se que há um déficit de atuação das lideranças intermediárias do lado evangélico e um superávit do lado identitário. E isso cria um clima propício ao descrédito do progressismo: ele é vilipendiado nos discursos da elite evangélica, que se autoproclama de direita, sem se tornar factível na atuação identitária, que se quer de esquerda; ao passo que o conservadorismo é enaltecido como agenda moral dos evangélicos, sendo praticado, na forma ressentida da mensagem da resistência, pelos identitários.

Na condição de simpático ao ideário progressista, finalizo essa breve reflexão acenando para um rumo possível para a sua recuperação. Entendo que a consciência de emancipação precisa assumir slogans, símbolos e gestos que convençam os evangélicos do que eles realmente são. E isso começa pela difícil tarefa que cabe agora aos progressistas: reconhecer que são esses milhões de brasileiros, de maioria pobre e periférica, os agentes da transformação social, não os núcleos sediados nas universidades e nos centros de cultura, os ambientes da classe média esclarecida.

Em posse dessa consciência, o grande desafio é desvincular a mensagem evangélica de seus representantes principais no Congresso e na mídia cristã, emasculando o jóquei clube dos grandes pastores. Isso é possível se for aberto o caminho para que os pequenos e médios pastores, os verdadeiros portadores da mensagem emancipatória, obtenham dignidade no exercício do pastorado, sem que precisem se render às seduções do poder e do luxo disfarçadas na moralidade conservadora superficial. Que possam, com isso, figurar como alternativas democratizantes da fé dentro de seus respectivos segmentos religiosos, sem terem de optar entre acomodações servis e interesses cúpidos. E que o progressismo encontre o seu destino, agora totalmente inviável nos ambientes de pauta secular, no coração de um crente.

Por: Prof. Dr. Tiago Medeiros.
Instituto Federal da Bahia

 

Notas:

[1] O professor Roberto Mangabeira Unger foi quem cunhou a expressão “teologia da secessão” para designar a moral evangélica. A orientação mais contundente dessa teologia é a esquiva da vida política e a procura pela salvação na esfera privada.

2 Comentários

  • “reconhecer que são esses milhões de brasileiros, de maioria pobre e periférica, os agentes da transformação social, não os núcleos sediados nas universidades e nos centros de cultura, os ambientes da classe média esclarecida”

    Tarefa difícil não, amigo, tarefa IMPOSSÍVEL, a não ser que se mude o caráter de disputa por orçamento da política brasileira.

    Você sugere oferecer “dignidade” aos “pequenos e médios pastores” para dissuadi-los de se motivarem pela cupidez. Ora, que tal fazer a mesma oferta aos professores universitários e servidores públicos que compõem o núcleo desse alto clero do progressivismo que você mesmo identifica no texto, e do qual faz parte?

    Em vez de lutar apenas por aumentos salarais e vantagens para si mesmos, usando baixarias que levam à auto-contradição e erosão da imagem pública (como no recente caso do PT baiano que tentou minimizar a ofensa racial de uma sua filiada a um PM negro, sob a alegação estapafúrdia que chamar PM de macaco seria um legado histórico do cangaço), os servidores públicos e filiados de partidos de esquerda se contentariam com “dignidade”, deixariam de lutar por benefícios próprios, e passariam a lutar pela moralização tributária – para que o pagador de impostos obtenha retorno do imposto que paga, o que passa por moralizar o serviço público, impedindo por exemplo que professores abusem da estabilidade para transformar a educação em mera indústria de greves com o objetivo de extorquir aumento salarial dos governos. Estariam dispostos a apoiar a adoção de um sistema de vouchers na educação, para beneficiar o pagador de impostos em detrimento dos interesses do professor vagabundo, ao qual porém caberia uma recompensa em “dignidade”? (Que ainda precisaria ser definida, é claro; se “dignidade” é apenas outro nome para “dinheiro”, então a sua proposta para os pequenos pastores já se contradiz de saída.)

    A moralização tributária significaria menos dinheiro na mão de funcionários públicos, mas serviços públicos decentes para todos, barnabés ou não. Não se teria mais dinheiro para pagar plano de saúde, mas o SUS funcionaria, como é em qualquer país decente. Não valeria a pena lutar por isso? A única coisa que vale a pena é o meu carguinho e o meu acesso ao bolso do contribuinte? Vamos continuar mentindo para o povão na esperança que ele nos ajude a manter os nossos privilégios que saem do bolso dele, a despeito de todas as evidências (varridas para debaixo do tapete sob a pecha de mera “anti-política”, quando obviamente É uma política, de defesa do contribuinte perante os seus exploradores) de que o povão acordou, e não engole mais essa conversa fiada? É de lascar.

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  • Excepcional. Penso ser esse um dos debates mais urgentes e necessários agora. Graças a essa falta de compreensão da oposição (na esquerda e na direita), Bolsonaro tem sido o político mais inteligente e bem sucedido do Brasil hoje. Falar em “cristofobia” (na ONU), p ex, é fomentar no país a ideia se estar constantemente, na política, numa escolha do tipo “a favor ou contra Cristo” (que lembra o cenário do Apocalipse de João, tão caro aos nossos crentes). E essa é uma situação falsa. O Brasil profundo e a massa maior da nossa população não tem a ver com a política reacionária de Bolsonaro e nossos progressistas precisam mostrar isso para o Brasil, que a mensagem progressista é maioria no país e que Bolsonaro não a representa (tampouco Lula e o lulismo).

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