Sobre evitar a cilada da cloroquina: O fio da lâmina, não o lenço!

O dao é uma das quatro principais armas da tradição marcial chinesa. Conhecido como facão chinês ou sabre chinês, é um instrumento de combate milenar, que difere da espada por ter apenas um fio cortante. Os combatentes manejam o dao com um lenço colorido atado ao cabo. Sua função? Distrair o adversário: olhando o movimento das cores, ele desviará a atenção da lâmina.

Não divagaremos sobre filmes de kung fu vistos na quarentena. O que segue é um alerta para a oposição a Bolsonaro: foquem no perigo real, não no elemento diversionista.

Com a chegada da Covid-19 ao Brasil, o presidente fez um pronunciamento em 06/03 e outro em 12/03. Foram falas anódinas, de quem não possuía nenhuma estratégia para combater a epidemia, mas tampouco pretendia subverter o mainstream sanitarista sobre distanciamento social.

Dia 24/03, à noite, seu Jair surpreendeu o país com o “pronunciamento da morte”. Atacou a imprensa, admoestou autoridades estaduais e municipais a abandonarem “o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento do comércio e o confinamento em massa”, questionou o fechamento de escolas e se referiu à doença como “gripezinha” e “resfriadinho”.

A guinada suscitou reações no mundo político. Na manhã de 25/03, o governador Ronaldo Caiado (GO/DEM), até então aliado de Bolsonaro, fustigou-o em coletiva à imprensa: “Todos nós sabemos que diante de uma crise dessa proporção teremos dificuldades econômicas e sociais. Mas não é tentar jogar a responsabilidade sobre os governadores […] Não posso admitir que venha agora um presidente da república lavar as mãos e responsabilizar outras pessoas por um colapso econômico ou uma falência de empregos que amanhã venham a acontecer.”[1]

A jogada do capitão era nítida. Antevendo a depressão da economia, tentou “vacinar” seu eleitorado, culpando as medidas de isolamento pela piora econômica e opondo-se a elas. Assim, quando o país quebrasse, governadores e prefeitos seriam os responsabilizados, não ele.

Ocorre que governadores, prefeitos, Ministério da Saúde, Congresso Nacional, STF e entidades médicas não encamparam a tese. E a maioria da população apoiou o isolamento social[2].

Face ao desgaste político, o presidente tentou outra cartada. Em 08/04, usou novamente a cadeia nacional de rádio e televisão. Dessa vez, porém, aprimorou o tom. Saíram de cena o paranoico acossado pela imprensa, o soberbo que zomba da pandemia e o insensível à morte de velhinhos. Entrou o espadachim, que concentra os ataques em pontos sensíveis (“Temos dois problemas a resolver, o vírus e o desemprego”, “Respeito a autonomia dos governadores e prefeitos. Medidas, de forma restritiva ou não, são de responsabilidade exclusiva dos mesmos”) e procura confundir o oponente.

Tratemos da intenção de confundir. Bolsonaro dedicou mais de 1/5 do tempo de pronunciamento ao tema da hidroxicloroquina. Praticamente, guindou-a à condição de “bala de prata” contra a Covid-19 (capaz de salvar “milhares de vidas no Brasil”). Subjacente à defesa do uso da medicação na fase inicial da doença – o que poderia (não há certeza) evitar muitas mortes – está o objetivo de trocar o isolamento horizontal pelo vertical. Ou seja, se já temos um remédio eficiente, que voltem ao trabalho todos aqueles que não pertencem aos grupos de risco.

Se existe um propósito oculto e outro aparente, cabe desconfiar de que o segundo visa eludir a percepção do primeiro, mormente se o argumento elusivo suscita polêmicas legítimas, capazes de atrair a atenção dos que deveriam cuidar daquilo que se está ocultando.

Sendo mais claro: a discussão acerca da hidroxicloroquina dividiu a comunidade médica e, além desta, capturou a atenção dos políticos brasileiros – incluindo os líderes da oposição.

A controvérsia no meio médico

As comunidades científica e médica analisam se é adequado utilizar hidroxicloroquina (HCQ) em pacientes com coronavírus, inclusive nas fases iniciais da doença.

A cloroquina é usada há décadas, contra malária, lúpus e artrite. Tem efeito imunomodulador (melhora a resposta imune), mas pode gerar danos colaterais (distúrbios de visão, fígado e rins, alterações cardiovasculares e neurológicas). A HCQ tem o mesmo princípio ativo da cloroquina (que na verdade se chama difosfato de cloroquina), mas produz menos efeitos colaterais.

O Ministério da Saúde recomenda o uso do fármaco para formas graves de Covid-19, com pacientes hospitalizados.[3] Há médicos defendendo o emprego já na fase inicial (reduziria as chances de o paciente desenvolver quadro grave).

Os argumentos favoráveis são:

– os estudos iniciais, mesmo que inconclusivos, são promissores;

– não há tempo para aguardar estudos conclusivos ou consenso[4];

– contraindicações, dosagens e efeitos colaterais são conhecidos – o risco não é tão alto[5];

– nessa situação excepcional, os riscos de efeitos colaterais são preferíveis à morte;

– os médicos discernirão quando a terapêutica poderá ser aplicada.

Os argumentos contrários são:

– os estudos divulgados têm falhas metodológicas (são necessários estudos controlados de intervenção para demonstrar efetividade e segurança de um medicamento);

– ainda não há evidências de que a HCQ possa limitar a evolução de fases iniciais para estágios mais graves;

– administrar HCQ largamente significa expor uma grande população aos riscos colaterais, sem nenhuma evidência de que o fármaco é eficaz contra Covid-19;

– conforme Hipócrates, primun non nocere (primeiro, não prejudicar): é dever do médico não causar dano ao paciente;

– os estudos clínicos de segurança e efetividade já estão em andamento – os resultados devem sair entre abril e maio.

Num confronto, o lutador habilidoso tenta atrair seus antagonistas para uma situação que lhes desfavoreça. Aos desafiantes, cumpre evitar a armadilha.

O que a oposição a Bolsonaro tem a ganhar se contrapondo ao uso da hidroxicloroquina? Se o assunto permanece sob apreciação de médicos e cientistas, por que os políticos deveriam escolher um lado? O presidente agarrou-se a um pólo. Parece que reunir seus opositores no outro é exatamente o que mais deseja.

No momento, a disputa de maior importância concerne ao distanciamento social. E neste ponto Bolsonaro está frágil, com minoria na opinião pública. Nunca demonstrou compromisso verdadeiro com reduzir a progressão da infecção através do distanciamento (tardou a liberar o auxílio emergencial e tentou sabotar os esforços de governadores, prefeitos e do próprio Ministério da Saúde para que a população ficasse em casa). E a oposição vacila criticando a HCQ…

É possível que a “bala de prata” do capitão não consiga matar nenhum lobisomem, vampiro ou membro da família coronaviridae. Como também é possível que, em algumas semanas, revele-se capaz de reduzir os óbitos por Covid-19. De todo modo, a HCQ é incapaz de prevenir o contágio (não é vacina) ou de eliminar o vírus. Portanto, focar na defesa do isolamento social significa atentar no fio da lâmina, não num lenço que esvoaça.

Por Gerri Araújo

Sobre evitar a cilada da cloroquina O fio da lâmina, não o lenço!

[1] Ver trechos da coletiva em: https://www.youtube.com/watch?v=VwmKGpuM7-U e https://www.youtube.com/watch?v=krudsL5kPSQ.

[2] Segundo pesquisa do Atlas Político, feita entre os dias 23 e 25 de março, 82% dos brasileiros apoiam medidas de isolamento para prevenir o coronavírus. Ver: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-26/crise-com-coronavirus-desgasta-bolsonaro-e-melhora-imagem-de-doria-favoravel-a-quarentena.html

[3] Ver Nota Informativa nº 5/2020-DAF/SCTIE/MS, de 27/03/2020 (disponível em: https://www.saude.gov.br/images/pdf/2020/marco/30/MS—0014167392—Nota-Informativa.pdf).

[4] Sobre o argumento da premência, ver “O coronavírus e a cloroquina: quando exigir consenso é um tremendo contrassenso” (disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/cientistas-brasileiros-pedem-liberacao-da-hidroxicloroquina-para-todos-com-coronavirus/).

[5] Sobre o risco de danos colaterais não ser tão alto, ver “Efeitos colaterais: O Saci-pererê da cloroquina” (disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/carta-aberta-cientistas-coronavirus-cloroquina-efeitos-colaterais/).

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