O falso nacionalismo de Bolsonaro e a irritação da China

Na última quinta-feira (8) o ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, pai do atual presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), publicou no Twitter a foto de uma carta enviada pela Embaixada da República Popular da China no Brasil à Executiva Nacional dos Democratas.

A carta se referia, em tom crítico, à visita de uma comitiva parlamentar liderada pelo deputado federal Jair Bolsonaro a países asiáticos, incluindo Taiwan. A Embaixada manifestou sua preocupação e indignação com a presença do pré-candidato a presidência da República num país considerado “território inalienável” pelos chineses. De acordo com o texto, a visita afrontou a soberania e a integridade territorial da China.

Além disso, a viagem da comitiva parlamentar a Taiwan teria violado o princípio de “Uma Só China”. Com base nesse princípio, a China recusa estabelecer relações diplomáticas com qualquer país que mantiver relações com Taiwan.

A divisão entre República Popular da China e Taiwan é fruto da vitória da revolução de Mao Tsé-Tung em 1949. Após a derrota, as forças do Kuomintang que antes governava a China, fugiram e se estabeleceram em Taiwan, mas jamais foram reconhecidos pelos comunistas.

Trinta anos depois, os Estados Unidos fecharam sua embaixada em Taiwan num movimento de reconciliação com a República Popular da China que fez parte da estratégia de contenção da União Soviética.

No início de 2017, uma declaração do recém eleito presidente dos EUA Donald Trump gerou constrangimento para as autoridades chinesas. Trump havia insinuado que poderia não respeitar o princípio de ‘Uma Só China”, além de ter recebido uma ligação da presidente de Taiwan Tsai Ing-wen, parabenizando-o pela vitória nas eleições.

Pequim logo declarou que o princípio de “Uma Só China” não era negociável e que considerava Taiwan território inalienável da China (as mesmas palavras utilizadas na carta a respeito da visita de Bolsonaro), sem contar que Pequim não reconhece a legitimidade do governo de Taiwan.

A dura e aberta resposta chinesa fez os americanos se curvarem, e dois meses depois Trump voltou atrás a respeito das suas declarações iniciais. Encerrado o embate sobre essa questão basilar das relações sino-americanas, o conflito entre EUA e China adquiriu contornos comerciais e se arrastam até hoje, caracterizando a rivalidade cada vez mais concreta entre as duas potências.

A disputa geopolítica que envolve os americanos e os chineses é tão ampla que engloba a maioria dos temas da agenda internacional, desde o meio-ambiente, passando pela economia, pelos testes nucleares da Coréia do Norte e pela militarização do Mar do Sul da China. Não é a toa que muito outros países acabam se envolvendo, seja como partes das disputas ou como mediadores, e nesse sentido, é importante compreender a delicadeza da política internacional e o papel que o Brasil opera.

Em 15 de agosto de 1974 o Brasil estabeleceu relações diplomáticas com a China continental, e desde então os dois países têm se engajado crescentemente. A China não apenas é o maior parceiro comercial do Brasil, como desde 2012 as relações sino-brasileiras foram elevadas ao patamar de “Parceria Estratégica Global” e foi acordado um Plano Decenal de Cooperação.

Brasil e China dividem, também, o CBERS (China-Brazil Earth-Resources Satellite), um programa de cooperação tecnológica firmado em 1988  e responsável pelo lançamento dos satélites de sensoriamento remoto CBERS-1, 2, 2B, 3, e 4. O projeto significou uma verdadeira fratura nos obstáculos à transferência internacional de tecnologia, beneficiando a indústria e os programas espaciais de ambos os países, além de possibilitar um grande melhoramento nas atividades de monitoramento do nosso próprio território com tecnologia própria.

Vale lembrar que em 1974, ano de reencontro diplomático entre Brasil e China, o Brasil era governado pelo general Ernesto Geisel. A política externa do governo Geisel (1974-1979) era vinculada ao imperativo de desenvolvimento econômico do país e fortemente atrelada a uma visão nacional-desenvolvimentista. Sem protagonizar uma posição de conflito com os EUA, essa concepção de política externa compreendia que os objetivos brasileiros exigiam certo distanciamento da pressão das grandes potências, ou seja, uma busca pela autonomia às margens do discurso da Guerra-Fria. 

Ao contrário dessa visão autônoma do lugar do Brasil no mundo, o pré-candidato a presidência da República Jair Bolsonaro tem esboçado uma posição mais próxima da inserção projetada pelo governo do marechal Castelo Branco (1964-1967), de alinhamento automático aos Estados Unidos.

O período Castelo Branco, no entanto, é considerado pela literatura sobre política exterior do Brasil como um “passo fora da cadência”. Foi um período de quebra na continuidade da política externa brasileira, que logo depois seria retomada pelos governos militares nacionalistas.

Apesar de se afirmar como um nacionalista, Bolsonaro confunde as categorias e se apresenta cada vez mais como um herdeiro da visão debilitada de política externa do governo Castelo Branco. O objetivo desse período foi explicitamente desmantelar o nacionalismo da Política Externa Independente, adotada pelos governos Jânio Quadros e João Goulart, abandonar a Operação Pan-Americana de Juscelino Kubitschek e aceitar passivamente o papel secundário do Brasil na América Latina, diante da hegemonia dos Estados Unidos.

Na esteira do alinhamento automático aos Estados Unidos, Bolsonaro visitou Japão, Coréia do Sul e Taiwan, aliados conhecidos dos EUA na Ásia Oriental, e parte da estratégia americana de penetração no continente em oposição aos objetivos da China.

Recentemente, Bolsonaro também prestou continência à bandeira americana. Não bastasse isso, suas ideias econômicas liberais e os economistas que o cercam têm se apresentado como antítese do nacional-desenvolvimentismo, em plena concordância com a falsa retórica americana de que o livre-mercado é a melhor receita para o desenvolvimento.

Aqui cabe uma bela citação do economista norueguês Erik S. Reinert, quando diz:

(…) desde sua fundação, os Estados Unidos sempre estiveram divididos entre duas tradições, as políticas ativistas de Alexander Hamilton (1755-1804) e a máxima de Thomas Jefferson (1743-1826) segundo a qual ‘o governo que governa menos, governa melhor!’.

Com o tempo e o costumeiro pragmatismo americano, essa rivalidade foi resolvida com os seguidores de Jefferson encarregando-se da retórica e os seguidores de Hamilton cuidando da política.”

O Brasil acaba de ser prejudicado economicamente pela decisão do governo de Donald Trump de proteger o setor do aço, o que torna a posição liberal de Bolsonaro, se não ineficaz, no mínimo contraditória.

Quanto ao movimento de distanciar-nos da China, acenado por Bolsonaro, não se compreende ao certo o que ele espera com isso. Cabe apenas a pergunta: trocar o nosso maior parceiro comercial por Taiwan e pelo  simples apreço do gigante norte-americano que protege o seu próprio mercado…isso é nacionalismo?

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