Fantasmas na Europa – Parte II

Na terceira coluna que escrevi neste site, há quase dois anos, tratei da situação da Europa sob a perspectiva das visões alemã e francesa sobre a integração regional. Ilustrei a disputa em torno desses diferentes projetos como uma monótona partida de xadrez entre dois fantasmas, o de Richelieu e o de Bismarck.

Argumentei que a integração europeia, desde o Tratado de Roma (1957), se deu sob o signo do ordoliberalismo alemão, uma fórmula de concorrência econômica organizada, anti-inflacionária e que visava construir uma economia de mercado europeia. Distante disso, sob a influência de Charles De Gaulle, o projeto francês representava a construção política da Europa, buscando fazer do continente uma confederação.

Essa diferença nada sutil opunha um sentido político da integração a um sentido econômico, e a saída encontrada – a alemã -, resultou na subordinação da política à economia de mercado europeia.

Os franceses jamais se contentaram com esse desfecho, encarando a Europa como um processo em andamento, inacabado. Algumas conquistas secundárias foram obtidas ao longo do tempo, mas o reinado do concorrencialismo permaneceu.

Para a França, assim como para toda a Europa, o ordoliberalismo revelou-se mera expressão da dominação econômica alemã. Metade das exportações da Alemanha, afinal, são destinadas à “periferia” europeia. Não poderia ser diferente.

No pós-guerra, com a divisão da Alemanha e a Cortina de Ferro, o lado ocidental se viu privado de seus antigos mercados de exportação no Leste Europeu, que além de comprarem manufaturas alemãs também forneciam alimentos e matéria-prima para a indústria alemã.

A integração europeia, portanto, exigia que países como a França e a Itália, por exemplo, dedicassem boa parte de suas vidas econômicas à produção agrícola para o centro manufatureiro alemão. Com a solidificação do concorrencialismo, essa divisão do trabalho intra-europeu naturalmente consolidou a economia alemã como dominante, como ocorre com qualquer economia industrial em relação a economias agrárias.

Países como Itália, Grécia, Portugal, desvalorizavam suas moedas para estancar os déficits com o comércio alemão. Após a implementação do euro como moeda do bloco, a periferia europeia perdeu a capacidade de cobrir os balanços negativos. Não por outro motivo, bancos alemães passaram a fornecer pilhas de crédito a esses países, situação que se tornou insustentável depois dos eventos da crise de 2008.

A crise chacoalhou a União Europeia. A austeridade imposta pelo Banco Central europeu, na prática um braço do Banco Central da Alemanha (Deutsche Bundesbank) sobre os países endividados – a Grécia foi o exemplo mais dramático, com sucessivos “resgates” impagáveis – suscitou o retorno do nacionalismo Europa afora, ameaçando a própria estabilidade do bloco.

Com o Brexit e a iminente saída do Reino Unido da União Europeia, o equilíbrio voltou a orbitar em torno da queda de braço entre Alemanha e França. Por baixo da cooperação entre Angela Merkel e Emmanuel Macron, sempre houve a tensão natural entre os diferentes projetos dos dois países para a região.

Por motivos geopolíticos e econômicos, os franceses compreendem que apenas o aprofundamento da integração política salvará a Europa, e portanto a própria França. Estilhaçada a União, o Estado francês se veria de joelhos entre uma Alemanha mais forte econômica e demograficamente, e líderes britânicos ávidos por retomarem a relevância de tempos passados.

Novos fatores, no entanto, levam a líder alemã Angela Merkel, prestes a deixar a liderança política de seu país, a ver na alternativa francesa o fôlego necessário para a sobrevivência também do Estado alemão: num mundo de crescente tensões geopolíticas envoltas em turbulências econômicas, apenas uma Europa unida será capaz de opor seus interesses à Estados Unidos, Rússia, China e Israel.

Que força militar, por exemplo, possui hoje a Alemanha em comparação com qualquer uma dessas potências? É possível confiar na continuidade da OTAN sobre pressão dos Estados Unidos de Donald Trump?

É por isso que Macron tornou-se o escolhido de Merkel para liderar a Europa nos próximos anos, tarefa que não será nada fácil diante de tantos riscos e incertezas. Não estranha, portanto, que o presidente francês esteja articulando novas alianças: com o aval de Merkel, Macron se aproximou de Putin e garantiu a volta da Rússia ao G7.

Em 2014, após a anexação da Crimeia, a Rússia foi expulsa do G8. Com o retorno dos russos, a França ganha um novo interlocutor no cenário internacional, um de muito peso por sinal.

Para a Rússia, é importantíssimo voltar a ser aceita nos círculos das grandes potências. Não apenas beneficia sua economia, possivelmente reduzindo obstáculos para suas exportações, como lhe dá alternativas à agenda única com a China.

Não podemos nos enganar. Ainda que hajam convergências de primeira linha entre os chineses e os russos, principalmente no que diz respeito ao antagonismo com os EUA, China e Rússia foram rivais no passado e podem voltar a ser no futuro. Nada indica que a Rússia pretenda se subordinar à China.

Nesta quarta-feira um acontecimento importante deve ter deixado Macron aliviado. Formou-se um novo governo na Itália, entre centro-direita e centro-esquerda, que isolou o líder de extrema-direita Matteo Salvini. Salvini tensionava para o agendamento de eleições antecipadas em outubro, e se chegasse ao poder seria um golpe fortíssimo na agenda da integração europeia.

Em 31 de outubro, por fim, está marcada a data limite para a saída do Reino Unido da União Europeia. Hoje mesmo, Boris Johnson, o primeiro-ministro britânico, sofreu uma derrota importante ao ver aprovado pelo Parlamento uma proibição ao Brexit sem acordo.

Um Brexit sem acordo geraria danos imprevisíveis para a União Europeia, assim como para o Reino Unido. Seria, porém, uma tamanha expressão de nacionalismo britânico que exaltaria os ânimos nacionalistas em outros cantos da Europa.

Considerando os últimos desdobramentos, a partida de xadrez entre Richelieu e Bismarck aparenta estar em suspenso. Os fantasmas, pelo visto, deixaram as torres e os cavalos de lado para conversar.

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