Quando a farinha é pouca, o meu pirão vem primeiro

Alardeia-se por todo lado que a pandemia trouxe ao mundo uma onda de solidariedade humana, mas será mesmo? De fato não faltam exemplos de pessoas de boa vontade, que por toda a parte surgem para minorar a aflição de seus semelhantes, ajudando a alimentar e abrigar os menos favorecidos e até os animais abandonados nas ruas. Mas no mundo dos governos e das grandes corporações as coisas não funcionam bem assim. A escabrosa disputa entre os gigantes da indústria farmacêutica pela primazia na patente de uma vacina para o coronavírus, colocada a nu logo no início da pandemia. O sentimento é de que foi apenas uma ponta do iceberg a relação entre os governos do mundo. Conforme se agravam os problemas sanitários em seus países, parecem que se abalam sólidas e antigas alianças.

O recente e emblemático caso dos EUA enviando aviões para a China, atravessando na frente de compradores com contratos já firmados, carregando toneladas de insumos e equipamentos para atender a suas enormes necessidades, deixou claro que a propalada solidariedade internacional, na prática, não é lá isso tudo. O caso é obscuro e certamente envolve uma barganha que talvez jamais venhamos a saber qual foi. Não é crível que uma potência econômica como a China tenha rompido acordos já celebrados, para atender o seu maior rival no mundo por um punhado de dólares. O fato é que Trump deixou a ver navios (no caso aviões), não apenas seu sabujo aqui do Brasil, que aceitou a situação sem dar um pio, como um de seus principais aliados europeus, o conservador Macron. Este não fez por menos, chantageando explicitamente o governo de um de seus mais importantes vizinhos e parceiros, exigindo que a Suíça recebesse em seus hospitais doentes franceses, sob a ameaça de fechamento da fronteira entre os dois países, o que levaria ao colapso hospitais do país, que dependem de trabalhadores que moram na França para funcionar.

Noruega e Dinamarca parecem jogar duro para enquadrar a Suécia, sua tradicional parceira com sólidos vínculos históricos, para impor os mesmos limites de isolamento social que impuseram a seus povos. Putin envia equipes médicas e insumos a seus rivais da Otan, como a Itália por exemplo, com o claro intuito de enfraquecer a já combalida influência dos EUA na região. Cuba despacha para o mundo inteiro seus médicos como embaixadores, no esforço de romper o pesado bloqueio econômico imposto pelos EUA há mais de meio século, e que toma uma dimensão cruel, com os esforços do governo norte americano para impedir que a ilha caribenha receba ajuda humanitária para enfrentar a doença. Aliás, o governo de Donald Trump está levando seu país ao posto de candidato ao maior vilão mundial, utilizando uma legislação dos tempos da guerra fria para bloquear exportações de equipamentos médicos até para vizinhos e aliados como o Canadá.

Enfim, a falta de empatia e solidariedade parece não estar restrita aos bilionários e parte do empresariado brasileiro, que demonstram total insensibilidade, sem nenhuma intenção de colaborar com o povo pobre de nosso país, colocando seus interesses econômicos em primeiro lugar, mas como um rastilho de pólvora se espalha por toda parte. Infelizmente, a perspectiva é a de que o agravamento da gravidade e das dimensões trágicas da pandemia, ao invés de reforçar a solidariedade, traga a luz o que há de mais feio e desumano: o brutal egoísmo que caracteriza o sistema econômico que rege nossas vidas.

Por Eduardo Papa, professor, jornalista e artista plástico

 

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