Farsa e Tragédia – 1989 e 2018

A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa, mas a farsa é sempre mais escatológica que a tragédia precursora.

Há 30 anos o povo brasileiro ia pela primeira vez às urnas escolher diretamente o presidente e em 2018 o mesmo exercício ocorreu. Depois de longos anos de um grupo corrupto, com momento de glórias na economia, aparente saúde estrutural, ter promovido o enfraquecimento de partidos em geral, concedido constantes derrotas aos seus opositores e ter fomentado aliados maquiados e satélites de seu projeto de poder hegemônico.

O povo brasileiro procurou quem aparentava ser o mais ‘anti-establishment’ e escolhemos o representante do que havia de mais antigo, mas que soava como o mais novo, pois dialogava com a bílis de uma insatisfação existente e um enfastiamento confuso fomentado e direcionado pelos principais meios de comunicação. O interlocutor político, entretanto, não estava desgastado na polarização anterior à sua chegada. A combinação de ‘isentão’ histórico mais bílis venceu. Mais concretamente, e independentemente de como se chegou a tal ponto, os principais personagens de 1989 e 2018 eram:

Presidente: Sarney | Temer – MDB, impopular, aprovação de 7%, a economia em desarranjo, desemprego em alta, recessão, inflação descontrolada.

Lula | Haddad: pelo PT, partido criado e fomentado pelo General Golbery para desmobilizar Brizola. Passou a campanha lutando contra Brizola pela hegemonia da esquerda.

Collor | Bolsonaro: através de um partido nanico PRN | PSL, se apresentou como o antissistema e não político, mas já tinha sido deputado, prefeito e governador | deputado por quase 30 anos e sua retórica e vida representava o que havia de rejeitável no Regime Militar e um Jânio-Quadrismo xucro.

Brizola | Ciro: pelo PDT. Passou a campanha apresentando uma proposta de viés nacionalista através de um Projeto de Desenvolvimento Nacional, denunciando os comportamentos fascistas e os moralistas de goela, sendo atacado e sabotado por todos, inclusive pelo partido progressista que sempre ajudou. Desta vez Ciro não fez a campanha pelo PT como Brizola fez em 89. O PDT aprendeu com a história e segue um caminho diferente. O PT continua atacando em busca de hegemonia na liderança.

Ulysses Guimarães | meio Meirelles meio Alckmin: pelo MDB, não quis associar sua imagem a Sarney | Temer. Aliás, ninguém quis. Maior máquina na mão e mais alianças não lhe conferiu expressividade na disputa, muito menos vitória.

Covas | meio Alckmin, meio Marina: pelo PSDB, fraco, sem graça, derreteram.

Maluf | meio Álvaro Dias meio Bolsonaro: pelo PDS, moralista de goela, e encantado por um estado policialesco, ladrão de carteirinha que pagava de bom moço.

Teve procura por outsiders de verdade: Silvio Santo | Luciano Hulk / Joaquim Barbosa, mas quem venceu mesmo, em ambos turnos, foi quem representava o que havia de mais antigo na política.

Não é profecia ou adivinhação, é a repetição, assim logo veremos, um PC Farias surgir, uma PF e MP que só persegue oposição, um governo entreguista com pouca resistência popular, contra o qual o povo só se rebelará quando a merda explodir no ventilador, pois irá. Os primeiros movimentos do novo presidente eleito é escolher ministros corruptos confessos e incompetentes. O PT tentará diversos golpes e dará entrada a pedidos de impeachment. A crise será mais profunda pois a farsa é sempre mais escatológica que a tragédia inicial.

Mas há uma diferença importante a ser considerada: O Brizola do momento alterou uma fundamental variável no 2º turno. Desacoplou a 3ª via do bonde petista. Por mais que eu pessoalmente tenha considerado um erro na forma, não o foi em conteúdo. Na forma, pois a posição contra qualquer postura fascistoide precisa ser defendido com virilidade, sempre. Não errou em conteúdo, pois a prática do Partido dos Trabalhadores historicamente tem sido a de dançar no precipício com o proto-neofascismo e de sabotar qualquer um que desponte como liderança contra os inimigos do Brasil – para assim manter-se como única solução possível, mesmo sem ter projeto de nação ou real vontade política para de fato ser solução. O conteúdo do novo Brizola é íntegro, sua caminhada séria e sua tentativa de mudança de forma é uma das poucas variáveis que não se repetem na farsa. Um novo paradigma está para ser estabelecido e uma nova história se escreve.

Por Esdras Sant’Ana

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