GUSTAVO CASTAÑON: Fascismo e anti-petismo

O anti-petismo na sociedade brasileira é real. Enquanto 14% ainda declaram preferência partidária pelo PT, segundo o Datafolha, 38% declaram que não votam no PT em nenhuma circunstância, segundo o Ibope.

Quando admite sua existência, o petismo defende que esse sentimento foi o fruto de uma violenta campanha midiática e nas redes sociais, quando o fascismo brasileiro, hoje representado por Bolsonaro, legou ao petista o lugar relativo ao judeu no discurso nazista.

Isso é parcialmente verdadeiro, embora veja esse lugar no “esquerdista” em geral, ou “esquerdopata” como eles gostam de dizer, que seriam “gayzistas”, “vagabundos” e “marxistas”. O petista seria uma subcategoria pior de esquerdista, pois segundo eles também “amantes da corrupção”.

Mas há uma diferença fundamental entre o discurso nazista contra os judeus e o discurso fascista contra o petista. Numa Alemanha em profunda crise social, moral, militar e econômica, Hitler atribuía aos judeus todas as suas desgraças, inclusive segundo ele a do comunismo. Mas isso era uma fantasia com praticamente nenhuma conexão com a realidade.

Já o bolsonarismo atribui todas as desgraças do Brasil atual ao PT, e embora isso seja uma distorção, ela tem conexão com a realidade. E é essa conexão, e não as mamadeiras de piroca, a força do discurso que impregnou a sociedade e que o petismo se nega a enfrentar. As pessoas estão propensas a acreditar em qualquer idiotice contra o PT, porque elas querem ter motivos para o ódio que sentem e não conseguem explicar. Mas ele tem explicação.

Podemos dizer com razão que o dano da corrupção no Brasil não chega a 0,5% do PIB, não começou nem terminará com o PT, e também que a verdadeira causa da ruína brasileira é o rentismo sem fim de nossas elites, assim como seu paraíso de impostos irrisórios (para os ricos) e sonegação, ou ainda que as políticas de “austeridade” (austeridade: cortar em investimento e salários para gastar irresponsavelmente com parasitas rentistas) é que tem destruído a economia, e não o falsamente alegado “inchaço do Estado”.

Na cultura, podemos dizer que o identitarismo no fim das contas é uma praga cultural e moral criada e financiada pelos EUA. Isso na verdade já é documental, pois os arquivos da CIA sobre a política acadêmica já começaram a fazer 50 anos e tem sido divulgados, assim como sabemos as fontes atuais principais de financiamento desse lixo: a Fundação Ford e o Fundo Soros.

Sim, tudo isso é verdade e a culpa não é do PT. Se por culpa só se entende o motor iniciador do movimento.

O que é culpa do PT é que ele tenha sido eleito com um discurso udenista de combate a corrupção e não só a tenha tolerado, como a adotado como prática e modo de subjugar a direita e a esquerda com a torneira do dinheiro (para abrir e para fechar). O que é culpa do PT é que ele tenha sido eleito para acabar com o rentismo e tenha praticado os juros reais mais altos do mundo durante seus 13 anos, se gabando de ter feito o governo no qual “os banqueiros nunca ganharam tanto”. O que é culpa do PT é que, sendo eleito para realizar justiça social através da justiça tributária, ele tenha mantido a estrutura de impostos brasileira, que tira do pobre para dar ao rico, totalmente inalterada. O que é culpa do PT é que, tendo sido eleito em 2014 fazendo um discurso expressamente contra as políticas de austeridade, tenha começado a as executar uma semana depois de abertas as urnas. O que é culpa do PT é que, para aplacar sua militância que o via fazer um governo de direita, tenha a compensado com políticas de natureza cultural ou identitária, que precisavam com o tempo serem cada vez mais ampliadas para gerar novidade até começarem a contrapor-se a moralidade popular.

Sim, isso tudo é culpa do PT.

Não adianta falar a esta altura das milhões de pessoas que deixaram a miséria e outras milhões que foram à classe média em seu governo. A melhoria da condição de vida dos mais pobres e crescimento do Nordeste é uma realidade insofismável e ainda hoje a grande base eleitoral de Lula e do partido. Ao contrário da fala preconceituosa sulista, o nordestino e o pobre sabem muito bem em quem votam e porquê.

Mas ainda assim esses milhões que deixaram a miséria absoluta em grande parte o fizeram só pelo bolsa família e os outros que “ascenderam à classe média” só o fizeram dentro das novas categorias fictícias inventadas pelo governo petista. Seriam pobres em qualquer lugar do mundo. Enquanto o Nordeste crescia, o Sul e o Sudeste cresciam vegetativamente, e a classe média pagou o preço da melhoria de vida dos pobres e da farra rentista dos super ricos, ficando estagnada principalmente nos anos Dilma.

O petismo reage a essas críticas óbvias com acusações de “fascismo” e “anti-petismo”. Mas por definição, anti-petismo se caracteriza como negação total ao PT, e não defesa de bandeiras históricas da esquerda. Anti-petismo não é o caso evidentemente do PDT ou de Ciro, já que o PDT declarou apoio a Haddad no segundo turno de 2018 e Ciro na primeira hora depois do primeiro turno declarou voto contrário a Bolsonaro, o que os petistas fazem questão de esquecer.

Nós que afirmamos que jamais voltaremos a apoiar o PT por esses motivos, portanto, não somos “fascistas”, o que quer que petistas entendam por isso, nem anti-petistas. Somos de esquerda, e não queremos nunca mais a volta do PT ao poder exatamente por isso.

Comparar aquilo que Getúlio fez nos seus três anos e meio democráticos e Jango no seu único ano como presidente efetivo com o que tentou fazer o PT em treze anos e meio de poder é ridículo. Diante das reformas estruturais e desenvolvimentistas de Getúlio e da tentativa de Reformas de Base de Jango o que o PT tentou fazer foi… nada. Rigorosamente sequer tentou qualquer reforma progressista.

Sabemos que o PT não fez nada para o qual foi criado mesmo com 87% de aprovação, no poder e controlando mais de dois terços do Congresso. Por que faria agora? Ou a resposta de Haddad em 2018 não foi uma nova carta aos brasileiros e a promessa de Marcos Lisboa na Fazenda?

Não aprenderam nada. Não esqueceram nada. É sua natureza.

Certamente estamos diante de um governo de vocação fascista no Brasil, que vive da mentira e de alimentar o ódio.

Mas diferentemente dos judeus da Alemanha de trinta, o PT do Brasil atual é o maior responsável político por nossa crise social e econômica, pois se vendendo como agente de transformação, foi o grande executor da conciliação de classes de um governo rentista e conservador, traindo quarenta anos de expectativa e trabalho pela volta da esquerda ao poder.

Quando nos livrarmos do fascismo, não podemos nos esquecer de não permitir também, nunca mais, que volte ao poder no Brasil este partido que rasgou todas as suas bandeiras e vendeu todo nosso trabalho e nossos sonhos por acordos malogrados e de ocasião.

Que com seus erros e omissões políticas deixou o Brasil chegar à maior crise política e econômica de nossa história.

O PT teve sua chance. Nos liderou por 14 anos, e nos desceu pela goela mais uma candidatura artificial nas últimas eleições.

Fracassou miseravelmente.

Não podemos mais deixar o PT ir ao segundo turno para perder para o fascismo.

Não podemos mais deixar o PT ir ao poder para governar pela direita e jogar o ônus do resultado para a esquerda.

Quem quiser chamar de anti-petismo que chame.

É hora dele sair da frente, ou de ser tirado dela.

E que nos ajudem nisso os que forem brasileiros progressistas.

4 Comentários

  • Exata a análise, mas não podemos excluir a força ainda existente do PT, sem deixá-lo, contudo, ser exclusivo na condução da reação popular ao fascismo e ao rentismo nacionais, tão predadores da nação brasileira.

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  • Excelente, Gustavo, como de costume.
    Estou muito agradecido pela síntese e organização dos fatos e das ideias.
    Quanto às proposta, sou levado, por temperamento, a não torcer para que o PT jamais volte a governar.
    Torço para que “esse PT” nunca mais volte a governar, mas que milhões de petistas consigam se libertar de sua “cúpula corrupta” e reconstruir a organização que adotam sobre bases sadias, se isso for possível.

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  • Já li e reli até duas três vezes o texto (Tá mais para TESTO) não tem explicação isso que ele fala a respeito do PT e dos petistas meu camarada, usando de subterfúgio fascista e de mídia paga para expor um partido que representa hoje a população de estados e até países. Eu existo camarada. Onde está o ônus da prova objetiva de tudo que você descreveu aqui?! Por essas e outras que a democracia brasileira está um caos. Lembrando que isso não é liberdade de expressão e sim compromisso com a falta a verdadeira História. Cada uma. Lembrando que não é no grito que Ciro Gomes chegará a 2022. E ainda prejudica 2020.

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  • Eis aí o Brasil pilantra! E do petismo que não pára com sua propaganda. Inclusive sexual.

    Desemprego; atraso; falta de envestimento. A carestia começou com a dilma…

    O PT sempre (ou melhor: já durante um bom tempo e bem longo) viveu de clichês publicitários, apenas e nada mais. O PT é de uma pobreza enorme sem os clichês e frasezinhas. . A entrevista não foi diferente. Ao estilo de:

    “Muito engana-me, que eu compro”

    Nós todos apreciamos consumir alguma coisa, com certa constância. Então isso é bom.

    Eis:
    Vive o PT© de clichês publicitários bem elaborados por marqueteiros.
    Nada espontâneo.
    Mas apenas um frio slogan (tal qual “Danoninho© Vale por Um Bifinho”/Ou: “Fiat® Touro: Brutalmente Lindo”). Não tem nada a ver com um projeto de Nação.
    Eis aqui a superficialidade do PETISMO:

    0.“Coração Valente©”
    1.“Pátria Educadora©” [Buá; Buá; Buá].
    2.“Haddad agora é verde-amarelo ®” [rsrsrs].
    3.“A Copa das Copas®”
    4.“Fica Querida©”
    5.“Impeachment Sem Crime é Golpe©” [lol lol lol]
    6.“Foi Golpe®”
    7.“Fora Temer©”
    8.“Ocupa Tudo®”
    9.“Lula Livre®”
    10.“®eleição sem Lula é fraude” [kuá!, kuá!, kuá!].
    11.“O Brasil Feliz de Novo®”
    12.“Lula é Haddad Haddad é Lula®” [kkkk]
    13.“Ele não®”.
    14.“Controle social da mídia” (hi! hi! hi!): desejo do petismo.
    15.“LUZ PARA TODOS©” (KKKKK).
    16. (…e agora…):
    “Ninguém Solta a Mão de Ninguém ©”

    17.
    “SKOL®: a Cerveja que desce RedondO”.

    PT© é vigarista e
    é Ersatz.

    PT Vive de ótimos e CALCULADOS mitos publicitários.
    É o tal de: “me engana que eu compro”.

    Produtos disfarçados, embalagens mascaradas e rótulos mentirosos. PT!

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