Fazendas Aqui, Florestas Lá: Espectro que assombra tanto a esquerda quanto a direita

Os sistemáticos ataques do governo Bolsonaro aos órgãos de fiscalização, gestão e pesquisa responsáveis pela manutenção dos recursos socioambientais chamaram a atenção do mundo. Uma convergência se destacou entre os discursos e debates advindos do amplo espectro político em que se fragmenta a sociedade brasileira. Tanto os conservadores, ala “Bolsonarista”, quanto personalidades à esquerda, adotaram uma linha de defesa da soberania nacional contra, o que consideram, interesses nos recursos socioambientais hospedados pela Amazônia. Os discursos são extremamente parecidos e, apesar de partirem de pontos distintos, convergem em suas conclusões. Em ambos, há uma ausência de legitimidade dos países centrais ao adotarem posturas de cobrança e fiscalização para com países periféricos, tanto por suas trágicas histórias de dilapidação dos recursos naturais, quanto pelos constantes desrespeitos aos compromissos ambientais assumidos. A fala em que o presidente francês Macron questiona o status de soberania da Amazônia ratifica o radicalismo e o temor das posições de muitos atores políticos sobre os interesses de governos e ONGs. Ao abordar o avanço nas taxas de desmatamento e queimadas, Macron recentemente afirmou:

“Associações, ONGs e também certos atores jurídicos internacionais levantaram a questão de saber se é possível definir um status internacional da Amazônia. Não é o caso de nossa iniciativa, hoje, mas é um verdadeiro caso que se coloca se um Estado soberano tomasse de maneira clara e concreta medidas que se opõem ao interesse de todo o planeta. Há todo um trabalho jurídico e político a ser feito”.

A fala de Macron reviveu um polêmico e revelador relatório publicado nos idos de 2010 por Shari Friedman, ex-funcionária da Agência de Proteção Ambiental Americana, financiado pela “Associação Nacional de Fazendeiros” e pela organização não-governamental “Parceiros contra o Desmatamento” intitulado “Fazendas Aqui, Florestas Lá”. O relatório traz dados que demonstram que a expansão da fronteira agrícola por sobre as florestas tropicais expandiu a produção de commodities com impacto na competitividade na produção norte americana. O incentivo à preservação das florestas localizadas em países subdesenvolvidos poderia gerar um aumento substancial da lucratividade do agronegócio estadunidense na ordem de US$100 bilhões. As principais conclusões do relatório foram resumidas nos seguintes pontos:

1) Operações agrícolas e madeireiras ilegais e insustentáveis no exterior estão destruindo as florestas tropicais do mundo, produzindo mais poluição de carbono que todos os carros, caminhões, tratores e equipamentos agrícolas juntos;

2) Os produtos agrícolas e madeireiros do desmatamento tropical estão deprimindo os preços das commodities, “sub-cotando” os produtos americanos e tornando mais difícil para os agricultores, pecuaristas e produtores de madeira dos EUA manterem suas terras e empregos;

3) A proteção das florestas tropicais por meio da política climática aumentará a renda dos agricultores e produtores de madeira dos EUA em US$ 196 bilhões e US$ 267 bilhões até 2030;

4) Os principais beneficiários da conservação da floresta tropical incluem produtores de carne bovina, madeira, soja e óleo vegetal nos EUA;

5) A proteção das florestas tropicais através da política climática também reduzirá as preocupações com o impacto ambiental dos biocombustíveis.

Imbuídos em evidências históricas e nos significativos interesses econômicos na manutenção dos limites da fronteira agrícola brasileira, atores de campos políticos opostos — sejam sustentados por um anseio desenvolvimentista, sejam contra um suposto “globalismo” — dão as mãos em torno da crítica à ingerência internacional e na defesa do atual modelo de desenvolvimento econômico para a região. Por razões distintas, entrincheiram-se em prol do agronegócio na Amazônia.

Não há dúvidas que existem fortes interesses econômicos no controle da produção de commodities do mercado internacional. Também não existem questionamentos sobre os interesses nas reservas minerais, de água doce e no estoque de biodiversidade da Amazônia. Entretanto, setores do campo progressista não podem defender a estratégia “curtoprazista” de derrubada de floresta para pastagem. Além das limitadas vantagens econômicas, o processo também é suicida. Suicida porque a matriz de produção brasileira está, toda ela, assentada em um processo dependente dos serviços ambientais oferecidos pela floresta. Basta dizer que o grosso da geração de energia nacional é hidráulica. E todo o ciclo hídrico do país é fortemente dependente das taxas de transpiração, ou melhor, do colossal volume de humidade jogada na atmosfera pela Amazônia. Portanto, a afirmação da soberania nacional não deve ir de, mas, ao encontro dos avanços civilizatórios pelos quais passou a humanidade. Avanços perfeitamente compatíveis e desejáveis para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento. A solução para a Amazônia não é se tornar um laboratório natural para conservacionistas e ONGs de países centrais, a exemplo da Costa Rica. Tão pouco deve seguir uma lógica predatória e não sustentável; suporte a uma matriz de produção primarizada que caracteriza países periféricos.

A floresta só tem valor se estiver em pé, preservada e apta a oferecer seus serviços ambientais. Portanto, assim como os Americanos transformaram o Vale do Silício em uma referência para produção de tecnologia, devemos ambicionar que a Amazônia se torne referência internacional em biotecnologia, energias sustentáveis e medicina tropical. A Amazônia pode ser o passaporte brasileiro à “economia verde”. Cooperativas e o extrativismo dos recursos naturais continuarão a ser a base de sustento para populações tradicionais e para o suprimento e manutenção de culturas locais, entretanto, somente incentivos a um processo de industrialização será capaz de casar “desenvolvimento econômico” com “preservação ambiental” nesta região tão cara ao país e ao mundo. Sem indústria não há floresta.

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