A fragmentação da esquerda e o escândalo do personalismo excessivo

Não existe escândalo algum na divisão e fragmentação das forças democráticas, principalmente, as de esquerda, se é que alguma força democrática hoje não possa ser considerada de esquerda, mesmo que conjunturalmente “ad hoc”, frente ao potencial de caráter fascista. Classicamente falando, a esquerda nasceu e sempre foi dividida desde a I Internacional, na segunda metade do século XIX, onde o termo marxismo era uma tentativa pejorativa de demarcação de posição por parte de correntes de esquerda opositoras a Marx.

O que pode ser escandaloso, mas, mesmo assim, nem tanto, diante das contradições do indivíduo humano, é o personalismo excessivo blindando os desejos inconfessáveis de determinados líderes com a capa discursiva de quem se dispõe a falar em nome de uma causa de amplo espectro coletivo. Exemplo recente, sempre bom lembrar, de não apego a esse personalismo é o de Cristina Kirchner, que, após ter sido presidente do país, aceitou ser vice em outro momento, e deu certo, os caras venceram, numa conjuntura com novos elementos determinantes da correlação de forças.

A lição de Cristina é emblemática sobre um elemento ao mesmo tempo simples e complexo, qual seja, o do caráter errático de todo processo político. Errático porque feito de razão, emoção, apostas, cálculos, projetos, traições, emboscadas e pés descalços no trapézio das incógnitas. Errático porque tanto as boas como as más intenções formuladas hoje não garantem o resultado esperado no futuro. De qualquer forma, aposta-se dentro das condições possíveis presentes pensando no futuro, e não no passado.

Errático também porque bons princípios que acreditamos para nós e outros são duvidosos até para alguns que nos apoiam em determinados conjunturas. Errático porque há que se compor com forças diversas. Entretanto, os que duvidam de nós embarcam, assim mesmo, na esperança de algum resultado lá na frente do tempo, ganhando assim espaço dentro do possível concreto e não do ideal que julgamos sempre como a forma imutável que resolverá o presente e o futuro.

No estado capitalista, o fator tempo é primordial tanto nas relações de exploração entre capital e trabalho como nas deliberações políticas para se manter ou transformar determinado estado de coisas. O cerne da exploração do trabalho é o tempo roubado das pessoas. E aqui arrisco uma singela hipótese provisória, claro, e modificável por outras constatações e também pelas condições específicas de cada situação, sobre por que as forças de esquerda talvez tenham mais tendência a se fragmentar do que as forças da direita no jogo formal da democracia ocidental.

As da direita têm apenas um foco muito preciso, qual seja, manter os mecanismos de exploração através de uma única forma quando o cabo dos conflitos chega ao limite: a truculência das formas golpistas para aprovar leis, conchavos e acordos a fim de impedir o avanço e as conquistas das esquerdas, quando não o uso da força militar. Gostem ou não, ser de direita é ser a favor da exploração e acreditar que faz parte de uma suposta natureza humana imutável a existência de injustiças na relação entre ricos e pobres.

Já as da esquerda pretendem mudar o status quo através de diferentes maneiras que acabam se pulverizando ou em lutas políticas ou em lutas sindicais e econômicas, dentre outras, e sempre através dos mecanismos democráticos tanto na forma como no conteúdo. Isso, para não especificar detalhes e maneiras diversas de ações difusas relacionadas a gênero, cor de pele, movimentos culturais e outras lutas obviamente importantes.

Faço essa singela e óbvia reflexão apenas para um pequeno e crucial lembrete não tão evidente aos olhos de muitos. O cerne do processo de políticas públicas é a luta pelo poder e não por princípios ideais de moralidade ou de costumes do chamado ser social. Não também por uma moralidade abstrata do que seja exploração. Esta é muito concreta e visível e se aprofunda cada vez mais.

O que está em jogo no Brasil já não tem sido nem mais a luta por determinadas políticas em detrimento de outras porque a interdição do debate já foi instaurada desde quando Jair Bolsonaro assumiu o governo. Não tem havido nem a tal “democracia deliberativa” de que fala a teoria política contemporânea. Não é também é uma arrumação de princípios ou de costumes ou ainda de uma nova moral incorruptível de esquerda – mas sim a luta pelo poder contra o potencial fascista que tomou conta do aparato estatal.

Se a direita é unívoca nos seus princípios, ainda que divergente, por exemplo, nas lutas intercapitalistas de interesses entre corporações, ela tende a se unir para manter a exploração da maioria e a manutenção dos seus interesses particulares. A esquerda, por sua vez, tende a se dividir mais porque ela pressupõe liberdade e diversidade de opiniões, teses, visões de mundo. Ou seja, potencial fragmentário por conta de seu caráter democrático inerente à sua maneira de ser.

Daí que é fácil compreender por que o nazismo e o fascismo, embora derrotados na sua forma histórica específica, se urdiram como medula do próprio capitalismo e estão aí como essência concreta por trás da máscara democrática do ocidente. Há fissuras e rachaduras? Sim, é possível, Cristina Kirchner é um exemplo. E as derrotas históricas daqueles foram possíveis graças à união de forças divergentes.

A fragmentação da esquerda e o escândalo do personalismo excessivo

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