Em defesa do voto Françoulos

Publiquei diversas colunas acusando o voto de Boulos de paulistocentrismo e de manter em um novo patamar ainda mais aprofundado as piores características do petismo dos anos 90, a UDN de macacão. O que define o candidato psolista é estética vazia e um radicalismo retórico profundamente reacionário. Agora venho aqui pedir para quem votou em Márcio França no primeiro turno vote neste domingo em Boulos.

No entanto, cada linha que escrevi continua verdadeira.

Ao ser o candidato da “esquerda cool” na Hong Kong brasileira, Boulos presta um desserviço à luta anti-imperialista no Brasil. Como argumentamos por diversas vezes, Márcio França era o candidato ideal, pois sua campanha era fruto em primeiro lugar de uma aliança nacional, ajudando a compor uma Frente verdadeiramente Ampla, patriótica e anti-financista. Era São Paulo servindo ao Brasil e não o inverso. Em segundo lugar, a campanha PDT-PSB era um salto qualitativo na plataforma da esquerda, afastando-a dos lugares comuns nocivos que a levaram a um profundo isolamento no eleitorado. O programa de governo de França era muito mais radical e à esquerda do de Boulos, por seu realismo e conexão com os anseios reais da periferia metropolitana por segurança, emprego e crédito facilitado, distante da visão romântica e abstrata que a “esquerda” da Santa Cecília faz do grosso da população da capital. A base de apoio de França, avessa aos interesses “modernos” dessa esquerda que odeia o próprio povo, garantia a consecução desses objetivos realistas, pavimentando o caminho para a reorganização do campo nacional-popular em 2022.

Infelizmente, Márcio França foi derrotado.

Nesse momento, é importante ressaltar que as duas alas do petucanismo implodiram – a pseudo polarização entre PT e PSDB que organizou a política brasileira por mais de 20 anos. Isto é, tanto o PT segue sua marcha de desidratação e possível balcanização como o PSDB permanece em franca guerra civil.

Covas mantém um certo grau de autonomia em relação a Dória, escalando inimigos internos do governador da LIDE em sua campanha à reeleição, como Alckmin e José Aníbal. Em certo sentido, o prefeito tenta manter uma “neutralidade” dentro da guerra civil na qual o Partido da Lava Jato precipitou o PSDB, ao menos na aparência. Bruno Covas foi longe a ponto de acolher inimigos de João Dória em sua gestão municipal na capital paulistana.

É interessante notar essa simetria entre Boulos e Covas. Assim como seu oponente, o psolista também mantém acesa a chama de uma certa ala do petismo que encontrou guarida em sua campanha. Mesmo antes do apoio formal do PT no segundo turno a Boulos, diversos quadros petistas manifestaram apoio implícito ou explícito ao psolista, em alguma medida devido a rejeição que o clã Tato provoca na militância daquele partido. A franca indisciplina partidária somada a mudança de Lula para a Bahia indicam que o PT pode estar a ponto de se balcanizar e o PSOL vira uma opção agradável para aqueles quadros petistas satisfeitos em reduzir a esquerda a um nicho de classe média iluminada – que em São Paulo, base dessa fração, é inchada em razão da alta renda da cidade, suficiente para garantir gabinetes e comissionados, bem como publicações de livros e afins.

Contrariando seus apoiadores, muitos dos quais românticos pequeno-burgueses que se seduzem facilmente por radicalismo retórico, Boulos não hesitou em abraçar o apoio do capital financeiro em sua campanha em plena Faria Lima. Errado o psolista não está: o apoio da burguesia ajuda na reta final do segundo turno e ainda pode viabilizar seu eventual governo. Como alertamos por diversas vezes, é questão de tempo para que Boulos “chame o Meirelles”. Caso ganhe, o psolista terá que enfrentar uma poderosa oposição na Câmara de Vereadores, o Tribunal de Contas do Município, o Ministério Público Estadual aparelhado por lava-jatistas, um Tribunal de Justiça reacionário e o governo do estado controlado pela mais abjeta fração da burguesia imperialista paulista. Como ele terá força para enfrentar esses poderosos inimigos? Com manifestação? Ou estão armando uma “comuna de São Paulo”, fadada a uma rápida derrota? É nítido que qualquer projeto de governo do PSOL para a capital passa pela recomposição da aliança de uma fração organizada dos trabalhadores paulistas e a burguesia dessa cidade. Não há outra alternativa: Boulos é, concreta e objetivamente, paulistocêntrico.

Posto tudo isso, por que votar em Boulos?

Em primeiro lugar, nesse segundo turno em São Paulo o campo nacional-popular estará escolhendo seu inimigo em 2022. Covas pode ser capaz de reestruturar parte do “PSDB raiz” e com isso atrair o centrão nos poucos meses que nos separam das eleições do bicentenário da Independência. Ou pior: pode estabelecer a ponte entre Dória e a política, implodida por causa da proximidade do chefe do LIDER com o Partido da Lava Jato. Ambas as alternativas podem atrapalhar a construção de nosso campo. Nesse sentido, o voto em Boulos é bastante pragmático, basicamente porque o psolista é o adversário mais fraco.

Em segundo lugar, ao atrair parte da ala financista da burguesia para seu entorno, Boulos prejudica as esperanças de Luciano Huck de se gabaritar como representante da fração progressista da burguesia paulistana, forçando a Globo a pelo menos negociar com uma força externa no lugar de ter essa parcela da elite diretamente sob seu guarda-chuva.

Em terceiro lugar, ainda que longe do ideal, a gestão moral da pobreza que Boulos pretende fazer na cidade de São Paulo é superior à de Covas e oferece um justo alívio para uma população massacrada pelo abandono durante a pandemia.

Por fim, em quarto lugar, não se pode desconsiderar o peso simbólico de uma derrota infligida na tentativa de se reestruturar o PSDB em pleno coração imperialista no Brasil. Isso pode dar uma lufada de esperança em uma militância cansada de acumular derrotas sobre derrotas desde o estelionato eleitoral de 2014.

Por essas razões e fiel às diretrizes emanadas pelos líderes do Trabalhismo, defendemos que quem votou em Márcio França vote em Boulos: o voto Françoulos.

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