Frente Nacional Antirracista se reúne com autoridades, sindicatos e empresas

Desde o nascimento da Frente Nacional Antirracista, tivemos inúmeros questionamentos, quem são os integrantes? Quem é o líder? Quais pautas defendem? Onde estão localizados? Quem financia? Entre outras perguntas.

É importante destacarmos, é uma frente que nasce do somatório da experiência de mais de 600 entidades do movimento negro, sem filiação partidária, com a inexistência de líderes, sem financiamento público ou privado, contando com a solidariedade intelectual e financeira dos seus integrantes.

Após o assassinato do Sr. João Alberto no supermercado Carrefour, identificamos inúmeras demandas reprimidas na temática racial, e a necessidade de foco e disciplina na consolidação de uma pauta conjunta, respeitando o protagonismo das entidades e lideranças.

Neste sentido, direcionamos um recorte centrado ao racismo institucional nas empresas, descentralizando da discussão do racismo estrutural e individual, e canalizando a missão na necessidade de mudança na postura do setor produtivo da sociedade, construindo pilares que valorizem a diversidade racial, com viés interseccional, respeitando os conceitos de raça, gênero, orientação sexual, pessoas com deficiência e imigrantes de origem negra.

No primeiro momento a intervenção foi cirúrgica no Carrefour, tivemos um cenário de convulsão social, a discussão na sociedade foi ampla, desde o boicote a empresa.

No entanto, analisando o cenário atual, temos mais de 14 milhões de desempregados, começamos a estudar o que seria o Carrefour no Brasil, identificamos uma empresa com mais de 88 mil trabalhadores, presente em mais de 150 cidades, com inúmeros funcionários negros.

Desta forma, vislumbramos a necessidade de sermos pragmáticos, parafraseando com um versículo bíblico, “necessitávamos da morte do pecado e não do pecador”, e começamos a construir uma agenda propositiva, cobrando da empresa uma postura de correção de rota, frente a violência organizacional, que é estruturante das relações capitalistas.

Foram apresentados 28 pontos primordiais ao Carrefour, entre eles destaco dois principais que a empresa se comprometeu na reversão, o primeiro relacionado ao cancelamento da terceirização dos profissionais de segurança da rede, os quais serão funcionários próprios, treinados por empresas específicas, com foco antidiscriminatório, visando desconstruir o viés inconsciente, que impera no ambiente de segurança pública e privada, de identificar os corpos negros como inimigos, fruto de uma construção ideológica, e o segundo é a ampliação na contratação de profissionais negros, valorização interna de trabalhadores afrodescendentes e treinamentos específicos de diversidade.

Contudo, temos a compreensão que o Carrefour, não é o único com problemas estruturais de gestão, relacionados a temática racial, a fala do CEO brasileiro da empresa, Sr. Noel Prioux, de que desconhecia a realidade dos negros, foi demonstração plena da ausência da discussão racial nos conglomerados, e nas instituições, sejam privadas ou públicas.

Portanto, estruturamos um documento oficial, com demandas de integração racial e montamos uma caravana, procurando representantes do Estado e empresariais, inicialmente entregamos o documento ao presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, porque compreendemos a importância de interlocução com os representantes da população, independente da visão política ideológica, precisamos construir uma agenda, que desconstrua o ambiente autoritário imposto contra os movimentos sociais, sindicatos, e principalmente o movimento negro, na tentativa de espaços de consenso de ideias.

Na sequência fomos ao presidente do STF, ministro Luiz Fux, pois compreendemos a necessidade da suprema corte nas temáticas raciais, como na construção das cotas no ensino superior e no serviço público, com vagas reservadas para afrodescendentes, as quais foram questionadas por setores conservadores, mas foi no STF que conseguimos garantir sua aplicabilidade.

Frente Nacional Antirracista se reúne com autoridades, sindicatos e empresas

No segmento empresarial, fomos recebidos na Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), pelo seu presidente Paulo Skaf, um dos representantes de destaque do setor produtivo industrial, onde conquistamos o compromisso da construção de um comitê antirracista, voltado a criar políticas no setor industrial, tanto na Fiesp como também nas empresas do segmento, integrando principalmente trabalhadores negros internos, os quais sabem a realidade local, e irmãos negros das entidades que integram a Frente Nacional Antirracista, tendo em vista, que muitas vezes os funcionários, tem insegurança de mencionar atos discriminatórios diretamente ao comitê ou áreas internas de diversidade, a interação com membros externos, visa ampliar a integração e a representatividade.

Frente Nacional Antirracista se reúne com autoridades, sindicatos e empresas

Frente Nacional Antirracista se reúne com autoridades, sindicatos e empresas

Na seara do segmento sindical, convidamos todas as centrais sindicais, para dialogarmos referente a temática racial, nas relações de emprego e renda, e entregarmos nossas propostas, respeitando o planejamento de cada entidade, fomos recebidos pela CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros). Acreditamos na possibilidade de ampliação no debate, com a participação das demais centrais, neste tema tão importante aos trabalhadores, principalmente a população negra, que compõe 56% da população brasileira.

Frente Nacional Antirracista se reúne com autoridades, sindicatos e empresas
Frente Nacional Antirracista se reúne com sindicalistas

Nesta segunda-feira (14/12/2020), tivemos uma reunião com o Ministério Publico do Trabalho, Ministério Publico Federal e Ministério Publico Estadual, visando a construção de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), composto de três premissas: A primeira de reparação a família do João Alberto, a qual foi vitimada por este crime bárbaro, sabemos que infelizmente não terão mais um pai, um filho, um esposo, um amigo, mas é imprescindível, que a família seja indenizada, e tenha a perspectiva da construção de um memorial, o qual homenageie João Alberto e a comunidade negra local; Em segundo, é necessária a reparação a sociedade, principalmente do entorno, com políticas inclusivas de valorização com recorte racial, principalmente com contratações de jovens negros e treinamentos; Em terceiro, reparação a entidades do movimento negro, sem distinção, para que possam trabalhar conjuntamente em prol de políticas emancipatórias.

O entendimento da frente, é que houve um crime que não pode ficar impune, o alcance das ações necessita ser mais estruturante, precisamos mobilizar empresas, que não estão sensibilizadas com políticas antidiscriminatórias, criando uma cultura nacional antirracista, e a partir desta experiência formular novas narrativas, compreendendo que a mediação é importante, para que as pautas não se percam, procurando garantir uma empregabilidade negra mais qualificada.

O movimento negro não é composto apenas pelas entidades que integram a Frente Nacional Antirracista, são inúmeros irmãos e irmãs com expressiva capilaridade, seja nas religiões de matriz africana, nas religiões cristas, no samba, na capoeira, nos quilombos, nos movimentos estudantis, nos coletivos sindicais, nas lutas feministas, entre outros, os quais possibilitam a ampliação da luta local, o papel da frente é incorporar lutas coletivas, respeitando a luta dos nossos ancestrais, sem a criação de líderes personificados do movimento, o que seria o início do fim.

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