Getúlio Vargas, por Juscelino Kubitschek

Desde que Getúlio Vargas retornara ao Rio, o Brasil viveu sob o impacto da crise militar que cada dia mais se agravava. Logo após o enterro do Major Vaz, seus companheiros de Armas, reunidos na Base Aérea do Galeão, tomaram a si a tarefa de investigar, sem limites de jurisdição e hierarquia, a autoria do crime da Toneleros. Localizado e preso o criminoso, ele tudo confessou, tornando evidentes as ligações do atentado com a guarda pessoal. Getúlio Vargas, numa demonstração de sobranceria, dissolveu aquele corpo estranho que se instalara no andar térreo do Catete e abriu as portas do palácio às buscas que se fizessem necessárias para o esclarecimento do crime. Os papéis encontrados nos arquivos de Gregório estarreceram a opinião pública. Os adeptos de Getúlio perceberam que o terreno lhes fugia sob os pés. Quem mais sentiu o impacto daquelas revelações foi, entretanto, o próprio presidente. Percebera, por fim, que os que o combatiam tinham razão, quando denunciavam à Nação os abusos praticados pela guarda pessoal.

A atitude dos oficiais da Aeronáutica refletiu-se na Marinha, impressionou as altas patentes do Exército e ecoou nas classes conservadoras. Depois de alguns dias, já ninguém mais tinha dúvidas de que a crise só terminaria com a deposição ou a renúncia do presidente. Mais tarde, em conversa com Café Filho, Osvaldo Aranha e Alzira Vargas do Amaral Peixoto, pude recompor algumas fases da crise, cujo desfecho iria abalar o país.

Getúlio Vargas, ao retornar de Belo Horizonte, mostrava-se acabrunhado. As rápidas horas de felicidade que eu lhe proporcionara na capital mineira haviam terminado justamente quando o avião levantara vôo. Os que o acompanhavam informaram que, durante todo o percurso, ele pouco falara. Conservara-se junto à vigia de bordo, olhando a paisagem. Café Filho fora visitá-lo, às 5 horas da tarde desse mesmo dia. Encontrou-o abatido, concentrado, visivelmente deprimido. Tão impressionado ficara com o aspecto do presidente que, ao deixar o gabinete, perguntara aos funcionários do palácio se tudo havia corrido bem em Belo Horizonte. A estranheza de Café Filho era justa. Entretanto, havia uma razão para que Getúlio Vargas se mostrasse desarvorado. Logo que retornara de Minas, chegara-lhe ao conhecimento uma informação que profundamente o magoara. Tratava-se de um documento, encontrado nos arquivos de Gregório e que continha referências a uma transação comercial, realizada entre o chefe da guarda pessoal e seu filho Maneco Vargas.

Ao inteirar-se do fato, o presidente, que era inflexível no que dizia respeito a tráfico de influência e que sempre se conduzira com a maior dignidade no exercício dos muitos cargos que ocupou, chamou sua filha Alzira e lhe pediu que providenciasse para que Maneco voltasse com urgência da Europa, onde se encontrava em lua-de-mel.

Alzira, com a vivacidade que lhe é característica, pôs-se ao telefone, ligando para as embaixadas na Europa, numa tentativa de localizar o irmão. Depois de algumas ligações infrutíferas, descobriu-o, por fim, em Londres. Contou-lhe o que estava ocorrendo e pediu-lhe que regressasse imediatamente. Maneco Vargas respondeu que, dentro de três dias, estaria no Rio. Quando Alzira transmitiu ao presidente o que o irmão lhe dissera, ele abaixou a cabeça e murmurou: “Ainda chegará a tempo para o meu enterro.” Surpreendida, Alzira gracejara: “Mas o que é isto, patrão?!”

Osvaldo Aranha, em conversa comigo, revelou pouco depois o que ocorrera por ocasião da chegada de Maneco Vargas. O presidente, após abraçá-lo e perguntar como se fora em sua viagem, tomou-o pelo braço e levou-o para o quarto, onde ficaram a sós. Nesse momento, houve a interpelação sobre a autenticidade do documento que lhe havia sido mostrado.

Maneco não negou o fato. Esclareceu que de fato havia tido um negócio com Gregório. Entretanto, nada censurável se passara entre os dois. Tratava-se apenas da venda de umas terras no Rio Grande do Sul. Como ia para o exterior, pedira a Gregório para servir de intermediário na transação. Getúlio Vargas ouviu tudo em silêncio e, em seguida, levando Maneco na direção da porta, disse-lhe, dando por encerrada a conversa: “Ainda não viste a tua irmã. Será bom falar-lhe, pois está com saudades tuas.”

Ficando só, o presidente deixou-se cair numa poltrona. Esticou as pernas e, reclinando a cabeça no espaldar, fixou os olhos no teto. Estava imóvel, respirando com suavidade, mas completamente ausente. Nessa posição, Benjamim Vargas, que chegara depois, foi encontrá-lo. Os dois irmãos trocaram idéias sobre o caso e, segundo me disse Osvaldo Aranha, Getúlio Vargas, sem poder controlar-se, deixou que duas lágrimas lhe corressem pelo rosto.

Até hoje, há quem especule sobre qual teria sido a causa decisiva que fez Getúlio Vargas tomar a decisão extrema de se matar. Não creio que esse incidente haja sido o motivo. As palavras que havia dito a Alzira Vargas, dias antes, já traíam seu estado de espírito. Aliás, é comum nos homens que dispuseram de grande poder e que, de súbito, se vêem acuados por urna crise que lhes parece incontrolável, a idéia de buscar uma saída através do sacrifício próprio. O exemplo de Napoleão é típico. Quando, alegando o gesto de Temístocles, foi buscar abrigo sob a bandeira dos ingleses, seus inimigos da véspera, julgara que sua fulgurante carreira militar tivera um desfecho digno de um herói grego. Entretanto, quando confrontado com a realidade do seu exílio em Santa Helena, durante vários dias acalentou a idéia do suicídio. Mais tarde em 1820 já como uma águia de asas cortadas no rochedo solitário do Atlântico, confessaria esse pensamento sombrio, do qual havia sido vítima, nos momentos iniciais do seu cativeiro.

Getúlio Vargas, segundo me contaram alguns dos seus íntimos, já em 1932 havia pensado em suicídio. Foi por ocasião da Revolução Constitucionalista de São Paulo. Quando percebeu que todo o Estado estava em armas e que possivelmente o movimento tinha ramificações em outras unidades da Federação, julgara que, a sofrer a desonra de uma derrota, com o conseqüente exílio, seria preferível o caminho da autodestruição. Nessas condições, a idéia já era antiga no seu espírito.

O crime da Rua Toneleros representou, de fato, a espoleta que faltava para a explosão desde muito esperada. Aberto o IPM pela FAB, sob a presidência do Coronel Adil de Oliveira, na Base Aérea do Galeão, para ali convergiram todas as atenções do país. Já o apelido que a Base Aérea adquiriu expressava, com eloqüência, a desenvoltura com que agia o IPM – República do Galeão. Getúlio Vargas teve a atitude que sua dignidade ditava. Nada ocultou e a ninguém protegeu. Enquanto já era grave a crise no setor político verificava-se, por outro lado, uma verdadeira mobilização psicológica contra ele nos círculos militares. A UDN, aproveitando o clima de indignação, contribuiu de forma decisiva para que o fogo fosse atiçado.

Na sua luta sem tréguas contra Getúlio Vargas, a UDN na realidade nunca se sentira tão bem colocada. Até então, ela havia sido vencida em todas as refregas. Entretanto, o atentado de 4 de agosto abrira a fenda de que ela necessitava para assaltar a muralha, que era o prestígio de Vargas junto ao povo. Nesse sentido, a providência prioritária era não permitir que a crise se dissipasse naturalmente. Esforços deveriam ser feitos, se não para agravá-la, ao menos para mantê-la em ebulição. A imprensa já abrira manchetes para o noticiário sensacionalista. No Congresso, os udenistas se revezavam na tribuna e, através de discursos candentes, mantinham a Nação em suspense.

Os militares, refletindo em parte o sentimento da opinião pública, entraram em franca agitação. Solidarizando-se com os da Aeronáutica, os oficias da Marinha se reuniram no Clube Naval para um veemente protesto. O nervosismo, que já havia empolgado os círculos políticos, contaminara, em seguida, certos setores das guarnições do Rio, ameaçando a unidade das Forças Armadas. Em face do agravamento da situação, o Alto Comando do Exército, após uma reunião no gabinete do ministro da Guerra, fez publicar um comunicado. Além de condenar o atentado da Rua Toneleros e de manifestar sua confiança no Governo, de que os criminosos seriam punidos, o Alto Comando exortava seus subordinados a que se mantivessem dentro da disciplina, que caracterizava a tradição das Forças Armadas.

Esse comunicado não surtiu efeito. A irritação era grande e já ameaçava a hierarquia militar. Em flagrante desafio à exortação do Alto Comando, o Clube Militar decidiu convocar urna reunião, na qual a situação do país seria debatida. Corno o grosso da tropa estava de prontidão, os que compareceram – aliás, em grande número – eram jovens oficiais das três Forças, na maioria com funções em gabinete e em escolas. Os debates foram acalorados e se orientaram no sentido do lançamento de um manifesto, no qual se exigisse a renúncia do presidente.

Essa moção deixou de ser votada por interferência de Juarez Távora, que presidia à reunião. O general julgava que os oficiais deveriam confiar nos líderes militares e não a eles se anteciparem, o que seria um ato de rebeldia. De acordo com essa sugestão, um outro documento foi aprovado pela Assembléia. Tratava-se de uma Moção de Solidariedade ao Clube da Aeronáutica. Apertava-se o cerco que se fizera a Getúlio Vargas. O Catete estava isolado. Era um rochedo de incerteza e apreensão, num mar revolto por um vendaval de ódio.

No dia 21 de agosto, Café Filho foi à presença do presidente. Tinha uma proposta a fazer para debelar a crise: ambos renunciariam, de forma a permitir que o Congresso, no prazo de trinta dias, elegesse quem pudesse concluir o mandato em curso. Tratava-se de urna proposta inspirada pela UDN e que atenderia simultaneamente a dois objetivos, ambos por ela sofregamente visados: o afastamento de Vargas da presidência, e, no fim de um mês, a entrega da chefia do Governo a um udenista.

Vargas, malicioso e sutil, passara a jogar a sua última partida com a UDN. Pediu dois dias para pensar. Antes de findo o prazo, porém, já tinha sua decisão. Preferira ser coerente consigo mesmo. Já havia dito que só morto sairia do Catete, e manter-se-ia fiel à palavra empenhada. O espectro da morte surgira, de novo, em seu espírito.

Café Filho, ciente de que Vargas não renunciaria, no dia 23 de agosto ocupou a tribuna do Senado. O que tinha em mente era traumatizar ainda mais a Nação, abrindo caminho para uma solução violenta da crise. Iria tentar, através de um discurso dramático, fazer prevalecer o ponto de vista udenista. Na realidade, o vice-presidente já havia passado, com armas e bagagens, para o campo adversário. Seduzido pelos udenistas, decidira segurar o punhal que, se vibrado com êxito, abriria à UDN as portas do poder.

O discurso se revestiu da encenação que se fazia necessária para gerar um impacto psicológico no país. Contou o teor da sua conversa com Vargas, para acrescentar: “Transmiti-lhe o que tinha ouvido dos chefes militares, especialmente dos ministros da Guerra e da Marinha. De nenhum desses líderes, tanto das forças políticas como das forças militares, recebi qualquer palavra de garantia ou segurança, já não digo sobre a possibilidade de ser mantida a atual situação, mas sobre a viabilidade de uma fórmula capaz de abrir caminho a uma recuperação da autoridade do Governo, tão duramente comprometida. A verdade é que de nenhum setor pode vir tal garantia ou segurança. Todos se mantêm dominados pela incerteza e conscientes dos perigos que rondam a Nação. Daí a decisão que assumi na tarde de sábado, dia 21, indo à presença do Excelentíssimo Senhor Doutor Getúlio Vargas, para oferecer a contribuição única que de mim dependia, com base na minha própria renúncia. Assim agi na convicção de estar cumprindo o meu dever para com a Nação. Sua Excelência, depois de ouvir-me, disse que precisava pensar e prometeu-me urna solução, que ontem me foi transmitida de modo negativo!”

Na noite de 23 para 24 de agosto, enquanto no Rio a situação se agravava, mantinha-me atento, observando a evolução dos acontecimentos. Um pouco antes da meia-noite, recebi a visita do General Lima Câmara, comandante da guarnição federal em Belo Horizonte. Trocamos impressões sobre a crise e combinamos algumas providências, já que, em face do caráter imprevisível do que ocorria, poderíamos ver-nos obrigados a tornar medidas enérgicas para manter a ordem em Minas e proteger sua população. No momento em que conversava com o general, o telefone tocou. Era José Maria Alkmim que me chamava do Rio. Relatou-me a evolução da crise e concluiu por me advertir que, naquela noite, segundo tudo fazia crer, fatos graves poderiam ocorrer.

Embora julgando que um imprevisto seria possível naquela emergência, não me impressionei com a advertência de Alkmim. Havia dois dias que só recebia notícias alarmantes e estas, em face de tantos rebates falsos, já tinham deixado de me sensibilizar. Transmiti ao general o teor da conversa telefônica e suas impressões coincidiram com as minhas. Entretanto, tendo em vista a possibilidade de qualquer surpresa, combinamos – quando ele se despediu – que um telefonaria ao outro durante a noite caso surgisse alguma notícia de relevância.

Depois que o General Lima Câmara havia deixado o palácio, refleti sobre a advertência de Alkmim. Conhecendo a sua acuidade política e a segurança de suas observações, julguei prudente realizar algumas sondagens, informando-me melhor sobre o que estava ocorrendo no Rio. Assim, quando me dirigia para o quarto e ao passar ao lado de um telefone que existia na varanda, decidi fazer uma ligação para o gabinete da Casa Civil da Presidência e falar com o Dr. Sete Câmara, que então ali trabalhava. Sete Câmara disse-me que dentro de poucos minutos teria lugar uma reunião do ministério e que havia grande preocupação no palácio sobre o que, nessa ocasião, poderia ser resolvido. Pedi-lhe que deixasse uma pessoa encarregada de me transmitir durante a noite qualquer notícia nova e, desistindo de me recolher, deliberei despachar, com dois auxiliares, o expediente atrasado. Ocupei uma mesa que existia naquela varanda e comecei a assinar os papéis que meus auxiliares me entregavam, aguardando que o telefone tocasse. E assim passei a noite. Elsie Lessa, do interior do Catete, transmitia-me as informações que me iam orientando.

A reunião do ministério prolongou-se além do que seria razoável esperar. O afastamento voluntário – e transitório – do presidente poderia ter a vantagem de tranqüilizar momentaneamente o país, mas não solucionaria a crise. Esta era profunda em excesso, e se Getúlio Vargas deixasse o Governo, naquela situação de exaltação de ânimos, ninguém poderia prever o que sucederia ao país. As notícias que recebia eram alarmantes e contraditórias. Falava-se que o presidente já havia concordado em licenciar-se, e, quase ao mesmo tempo, eu era informado de que estavam em curso preparativos de defesa do palácio, com trincheiras abertas pelo parque. As 4 e meia da manhã, o rádio anunciara que o presidente havia anuído em deixar pacificamente a chefia do Governo. A informação chegara como uma ducha fria sobre a população, que já se mostrava enervada por toda uma noite de noticiário exaltado. Entretanto, às 8 e meia da manhã o país foi sacudido pelo impacto da terrível notícia: revogando, com um gesto sem testemunhas, a renúncia forçada, Getúlio Vargas se suicidara com uma bala no coração.

Por: Juscelino Kubitschek.

Excerto de “A Escalada Política”, 2º volume da autobiografia “Meu caminho para Brasília”, publicada em 1976 pela Bloch Editores S.A.

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