GILBERTO MARINGONI: O Datafolha e o Databolha

O DATAFOLHA EVIDENCIA o que outras sondagens já mostravam: Bolsonaro conseguiu fidelizar e adensar um apoio entre significativa parcela da população – ao redor de 30% – , o que lhe permite governar e avançar nas reformas com relativa tranquilidade. Representantes do grande capital podem torcer o nariz, mas sabem que este governo fascistóide, autoritário e de péssimos hábitos cumprirá seu programa à risca. Não nos esqueçamos: Michel Temer chegou a ter apenas 7% de ótimo e bom e nem por isso seu governo caiu.

A manchete da Folha – “Reação da economia freia perda de popularidade de Bolsonaro, diz Datafolha” – ressalta que a recuperação econômica é o indicativo da melhoria na popularidade governamental em alguns itens. A meu ver, a recuperação microscópica ajuda, mas não é o principal.

Há a sensação geral de que a situação está ruim, mas parou de piorar. Alias, essa é a chave do entendimento da série histórica do Datafolha desde o início do ano. Se olharmos para a curva do desemprego – juntamente com saúde e educação as maiores fontes de descontentamento – ela se estabilizou em torno de 13% da população economicamente ativa.

O GRANDE SALTO – que representou um solavanco sério – se deu entre dezembro de 2014 (6%) e março de 2015 (11,6%). Essa elevação súbita do desemprego – índices piores que Macri legou à Argentina – resultou em acelerado descontentamento popular e possibilitou o avanço da demagogia da direita e da extrema direita e abriu caminho para o golpe e para a eleição de um aventureiro provocador à presidência. São as consequências dramáticas do “maior ajuste fiscal de nossa história”.

Com toda sua estupidez e boçalidade, Bolsonaro não comete estelionato eleitoral e entrega a mercadoria que financistas, classe média reacionária e parcela significativa da população esperava. Oi seja, entrega, privatizações, reformas pró capital e brutalizacao das relações sociais.

O DATAFOLHA TAMBÉM escancara a inviabilidade da consigna ‘Fora Bolsonaro’ ou ‘Impeachment já’. O combate é muito mais difícil. Deve se dar em cima de questões concretas da vida da população e não por slogans distantes da realidade e que só sensibilizam nossa bolha. Isso é detectado pela pesquisa, que aponta as áreas tidas pela população como as piores da gestão da extrema-direita: saúde (19%), educação (14%), segurança (13%) e desemprego (13%).

Miremos os exemplos do Chile e do Equador. Lá ninguém grita Fora Piñera ou Fora Moreno, mas ataca a alta das passagens de ônibus e metrô e o arrocho salarial, das aposentadorias etc. Ou seja, as pessoas se mobilizam e se levantam quando a vida se torna insuportável e não por demandas ainda abstratas fora de uma bolha dos setores progressistas e de esquerda.

Por Gilberto Maringoni

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