GILBERTO MARINGONI: Prestes do Brasil

O que falar dos 123 anos de Luís Carlos Prestes (1898-1990) que já não tenha sido exaustivamente escrito, comentado e repetido? Dizer que foi um gigante, um herói ou outro superlativo qualquer equivale a pecar pela redundância. O Cavaleiro da Esperança já mereceu caudalosa bibliografia, composta de estudos, romances, poemas, discursos, crônicas, peças teatrais, filmes e vasto noticiário. Contra ou a favor, com raras nuances intermediárias.

Sua trajetória política mescla martírios e dores indizíveis com fibra, dureza e retidão pessoal, raríssimos em qualquer ser humano. Enfrentou duas ditaduras e viveu a formação do Estado brasileiro moderno. Foi esquerdista – no sentido do desvio isolacionista – em pelo menos duas oportunidades, 1935 e 1950 – e conciliador em outras duas – 1958 e 1964. Mostrou-se inábil e duro quando talvez valesse a pena negociar e negociou sempre colocando a Razão acima da emoção. Foi maioria e minoria em seu posto de comando e foi admirável a vida inteira.

Nunca se tornou um líder popular, mas se elegeu senador por três estados com relativa facilidade (1946), após sobreviver aos cárceres e torturas do Estado Novo (1936-45) e à indizível tristeza pela perda da companheira, Olga Benário. Elevou-se à condição de personagem-símbolo do que se denominava movimento comunista internacional e angariou admiração ao redor do mundo. Após o golpe de 1964, foi pela segunda vez na vida caçado como se demônio encarnasse.

Em entrevista dos anos 1980 afirmou: “Um militante nunca pode ficar na defensiva. Se fica, deve se esforçar para sair imediatamente dessa condição, para evitar uma derrota certa”. Numa visão unidimensional, foi derrotado em quase todas as batalhas que enfrentou, menos na Coluna, em 1925-27, e nas eleições de 1946. Talvez seja um dos perdedores mais reverenciados de nossa História, em companhia de Zumbi, Tiradentes e muitos outros e outras. No fim, em 1979, seus apoios internos se reduziram e perdeu o partido que ajudara a criar.

Santiago Carrillo (1915-2012), o ex-secretário-geral do PC Espanhol que acabou por renegar o marxismo, afirmou em suas memórias: “Minha geração de jovens comunistas [nos anos 1930] tinha duas referências maiores, Georgi Dmitrov (1882-1949) e Prestes”.

Em seus últimos anos, apesar do insulamento político, vivia um momento de grande prestígio pessoal e a possibilidade de circular por onde desejasse, sem ser molestado por forças de segurança.

Prestes não viveu a queda dos regimes do Leste Europeu e é possível que jamais tivesse imaginado a ascensão da China no plano global. Impossível especular sobre o que diria de um mundo em plena regressão neoliberal.
Arrolar fatos e feitos do Cavaleiro da Esperança é tarefa infindável.

Fiquemos com os versos finais do poema de Pablo Neruda, por ele lido no estádio do Pacaembu, em 15 de julho de 1945, diante de milhares de militantes comunistas e ativistas populares, pouco antes do então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro usar os microfones. Prestes rompia o silêncio imposto por uma década de brutal confinamento:

“Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas,
carregadas por estes anos entre a pele e a alma,
sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer
o poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.
Peço hoje um grande silêncio de vulcões e rios.
Um grande silêncio peço de terras e varões.
Peço silêncio à América da neve ao pampa.
Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.
Silêncio: que o Brasil falará por sua boca”.

Na foto, o capitão Luís Carlos Prestes reencontra Alberto de Souza (1908-92), soldado da Coluna, em Bauru, durante a campanha das Diretas, em março de 1984. A imagem é de Pedro Romualdo
Na foto, o capitão Luís Carlos Prestes reencontra Alberto de Souza (1908-92), soldado da Coluna, em Bauru, durante a campanha das Diretas, em março de 1984. A imagem é de Pedro Romualdo

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