In Glenn I trust: a perna curta da mentira Moro-Dallagnol

Somente algum tipo de embotamento cognitivo raro e singular (a ser estudado cientificamente) de diversas parcelas da sociedade pode explicar que setores ainda continuem acreditando na farsa da lavajato especificamente em relação à condenação de Lula. De saída, neste presente momento em que escrevo, a meu ver, nem estão em questão outras ações da força-tarefa que pegaram corruptos, muito menos o óbvio necessário do combate à corrupção – para o qual o fortalecimento das instituições republicanas ocorreu graças aos governos do PT. Não fazem parte do tema aqui as implicações da lava-jato para outras situações nacionais, que, por outro lado, evidentemente, têm a ver com o subtema prisão do ex-presidente.

Também só algum tipo de lesão gnosiológica ou perceptiva dessas parcelas pode explicar o seu bordão ridículo e pueril segundo o qual quem denuncia e critica os desvios de conduta de Moro e Dallagnol defende a corrupção ou o favorecimento de corruptos. Essas pessoas ignoram que, ao interpretar, por exemplo, casos concretos e polêmicos de ações de inconstitucionalidade, os ministros do STF não podem agir ao sabor de “achismos” ou voluntarismos impregnados de mimimi partidário. Têm que interpretar “conforme a Constituição”. Ou então, é o vale tudo da cambulhada.

Digo que pode ser algum tipo de lesão cognitiva porque parece refletir a bizarra situação do sim empurrando o não para o abismo da crença messiânica. Diante do indefensável e da tergiversação de dizer que o crime maior é a invasão de conversas “privadas” e não o seu conteúdo, bastou as autoridades implicadas começarem a questionar a tal “fidedignidade” dos diálogos flagrados, o “The Intercept Brasil” vem e faz assim: ah é? Então vejam a íntegra dos diálogos.

Emblemático e flagrante tanto mais porque logo após a primeira divulgação, no domingo, não se questionou de pronto a fidedignidade – tamanha a eloquência do impacto –, mas sim a invasão da privacidade de conversas de autoridades numa extensa nota oficial em tom grave e político. Em sequência, diante da repercussão escandalosa, com anuência explícita e descarada de setores importantes, reforçando a ênfase no vazamento e não no seu conteúdo, a questão passou a ser a “fidedignidade” deste último – perna curtíssima da mentira, conforme mostra agora o “The Intercept Brasil”.

Ou seja, certamente, no presente momento da publicação deste texto, novas revelações estão sendo preparadas para vir a público, envolvendo autoridades de outros setores. Sem dúvida alguma, os nomes de ministros do STF, por exemplo, vindo à tona e boiando na superfície da lama densa do impasse em que vivemos, pode ter um lado devastador com consequências imprevisíveis.

A situação não deixa de ser também um risco para a estratégia de marketing jornalístico do próprio “The Intercept” em termos temporais de oportunidade para mostrar as provas. Em outras palavras, as autoridades implicadas já estão fazendo de tudo – jurídica e midiaticamente – para aproveitar esse embotamento cognitivo dos diversos setores a fim de neutralizar o foco originário da denúncia jornalística. Em resumo, para virem com o possível argumento de que o “The Intercept” está a serviço de terroristas destinados a fazer ruir as instituições republicanas.

Obviamente, essa mentira só pode ser transformada em verdade graças ao embotamento cognitivo de parcelas diversas da sociedade – embotamento esse incentivado pela TV Globo, sócia estratégica da lava-jato. Porém, assim como os fatos não explicam por si só a realidade como um todo – a chuva sempre cai. Daí que o embotamento cognitivo dos messiânicos exige estudo científico rigoroso. O verbo cair para a chuva é um truísmo. No nosso caso, as nuvens anunciam tempestades para um país que nunca mais será o mesmo depois das revelações dos últimos dias. Entre as ilusões do embotamento, com sua histeria antipetista, e o que veio a público, “In Glenn I trust”.

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