Governo Bolsonaro e o papel da oposição

É preciso olhar para além das narrativas politiqueiras do PT.

Desde a vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno do pleito presidencial, no dia 28 de outubro do ano passado, portanto há quase três meses, quando amealhou mais de 57 milhões de votos e sagrou-se presidente do Brasil, parte dos progressistas ainda demonstra muita dificuldade em decodificar o que aconteceu, o que simbolizou essa vitória de um candidato com um discurso reacionário e conservador que deveras destoa do que se convencionou a ter ocupando cargos majoritários no período após a redemocratização, quando da instituição da Nova República, e qual o papel da oposição diante disso tudo. Ainda que algumas vozes e lideranças estejam a tentar mostrar o caminho, há certa relutância em ouvi-las, no que tem empobrecido o entendimento do cenário político atual e a compreensão do que esse importante momento histórico impõe ao campo progressista.

O fator essencial de partida é assimilar o que levou à vitória um candidato que até pouco tempo atrás era figura pouco representativa e pertencente ao baixo clero do Congresso Nacional. E a explicação é bastante clara: o antipetismo. Bolsonaro conseguiu se colar em três aspirações e sentimentos de grande parcela da população brasileira: o primeiro e mais basilar foi a rejeição ao PT em face aos seus notórios escândalos de corrupção e aos desastrados governos de Dilma, que legaram ao Brasil uma retumbante crise e 11 milhões de desempregados; o segundo foi uma busca por renovação – e é inegável que Bolsonaro logrou se vender como algo novo embora esteja na política há muito tempo; e por último trazer para o centro do debate a discussão da segurança pública, o que o bolsonarismo faz da pior forma, mas que aufere legitimidade pelos números assustadores de mais de 60 mil homicídios anualmente e pela ausência do devido enfoque do campo progressista nessa área.

Essas são as principais questões que explicam a vitória de Bolsonaro. No entanto, por mais óbvias que elas sejam, o PT e seus aparelhos utilizados para disseminação de suas narrativas, que ainda são assaz influentes e que têm por base blogs, páginas noticiosas e contam até com o benefício da simpatia de alguns famosos e jornalistas, com um ou outro sempre propenso a ressoar aquilo que o PT vende como verdade e a demonstrar estranha complacência com seus inúmeros erros, acabam por atrapalhar ao propor explicações que apenas têm por fim terceirizar suas responsabilidades e demonizar opositores, rachando ainda mais o País e jogando cortina de fumaça na contenda do campo progressista e no debate público de maneira geral. Alegar que o Bolsonaro ganhou por disparar notícias falsas no WhatsApp ou porque o brasileiro estaria fascistizado diante de um avanço conservador global, ignorando as temáticas locais e que são precípuas para o sucesso eleitoral do Bolsonaro, é faltar com a verdade, é omitir dados, é fazer análise parcial e ignorar a mensagem deixada pelos brasileiros nas urnas. E a principal delas foi um sonoro não queremos mais o PT.

E é impossível avançar se não nos descolarmos dessas artimanhas do PT e suas falaciosas narrativas que sempre desembocam em apenas uma única solução: o próprio PT. Enquanto o campo progressista continuar refém das obras de ficção do petismo, do seu discurso eleitoral terrorista e, por conseguinte, afastado de uma análise racional e fria dos fatos e dos fenômenos, continuará a patinar e a não ver aquilo que precisa ser enxergado. Um ponto premente é entender os motivos supracitados que levaram o capitão da reserva e seu grupo à Presidência. Um outro fundamental a partir daí é investigar como Bolsonaro montou seu governo, quais suas contradições e quais áreas em que seus discursos são mais ou menos populares, têm maior ou menor capilaridade. E aí está: para fazer isso é desde já necessário abandonarmos a lupa da narrativa ideológica petista, da tal classe média fascista e do discurso apocalíptico e simplista que teremos uma ditadura implantada a qualquer momento, e olhar para a única coisa que pode nos dar respostas: a realidade.

E se o fizermos, fica mais fácil interpretar o que se passa, mapear o governo e direcionar uma oposição para as complexidades da conjuntura brasileira. Há no Executivo três importantes núcleos: o econômico, que tem o ministro Paulo Guedes encabeçando; o da Justiça e Segurança e o dos militares, liderados por Moro e Mourão, respectivamente; e o que eu chamo de eixo diversionista voltado para a tal guerra cultural: Damares Alves, Ernesto Araújo, filhos do Bolsonaro, entre outros, todos calcados em um reacionarismo tosco de base religiosa e fortemente influenciados pelo filósofo conservador Olavo de Carvalho. Nesses três polos encontramos o tipo de desenho da gestão, a leitura que o governo faz dos problemas, dos desafios do País – e que serão muitos e ficam maiores pela inaptidão do homem que deveria comandar tudo isso, isto é, o presidente – e o dever que cabe à oposição

Na questão econômica há reformas de grande monta para serem aprovadas a partir das quais se concentra quase todo o capital político que o governo detém nas elites econômicas. A mais significativa delas é indubitavelmente a reforma da Previdência. Temos aqui já a primeira grave contradição: enquanto ela é conditio sine qua non para o mercado e grandes empresários, a alteração na idade de aposentadoria é impopular na classe trabalhadora. Não será tarefa fácil para a situação equacionar até mesmo a sua aprovação, ainda mais diante da peculiaridade de que está sendo concertada por neófitos que ou desconhecem completamente o funcionamento do Congresso ou por figuras como Onyx Lorenzoni, atual ministro-chefe da Casa Civil e que cuida da articulação do governo, que além de recorrentemente bater cabeça com colegas, tem relação complicada com importantes caciques entre deputados e senadores, como é o caso de Rodrigo Maia, seu inimigo declarado e que deve reeleger-se presidente da Câmara.

Já no núcleo comandado por Moro e Mourão existem cobranças práticas que envolvem a resolução ou ao menos a mitigação do problema da violência e da corrupção, o que não é tarefa nada fácil e simples, mas que o discurso calcado em golpes de frases prontas e moralismo de goela do Bolsonaro e seus asseclas acabou por gerar grande e eu diria irreal expectativa, sobretudo no seu eleitorado. Essa esperança, porém, em menos de um mês de governo já começa a frustrar-se com os escândalos que aparecem e se avolumam, como o de Queiroz, ex-assessor de Flavio Bolsonaro e que movimentou segundo o Coaf as cifras até aqui não explicadas de mais de sete milhões de reais, bocado desse dinheiro indo parar na conta do referido parlamentar. Também surgem no segmento dirigido pelo Vice-presidente fissuras de ordem corporativista e ideológica: há resistência na inclusão de militares na modificação previdenciária, o que deve causar urticária em Paulo Guedes, e a posição nacionalista do generalato da reserva, ou de alguns dos seus membros, em rejeitar as privatizações e a entrega do patrimônio do Estado ao estrangeiro. Outro considerável potencial de choque e de crise com o setor ultraliberal do ministro da Economia e que não pode ser negligenciado.

E por fim há a turma do diversionismo, que vai tentar a todo momento aparecer com opiniões esdrúxulas e colocar em evidência a peleja cultural em que Bolsonaro tem fluidez, na qual se construiu e se lançou nacionalmente, e que possui no bolsonarismo organicidade e capacidade para manobrar a reação pública a seu favor nos setores onde esse discurso engendra algum impacto – e que é um tanto fechado para mudar de opinião. Entrar nesse jogo é um equívoco e a eleição bem o demonstrou para quem ainda tinha alguma dúvida. Quanto mais o campo progressista se afastar dessa arenga de viés identitário e se concentrar na agenda que de fato importa para a maioria das pessoas, mais haverá chance de êxito. No entanto, para isso, é fundamental que a oposição se paute nas demandas do Brasil e não nas demandas do PT, que apenas reforçam a polarização estúpida que alimenta os extremos e impedem que se olhe o Brasil não a partir do desejo de alucinados de um lado ou de outro, mas das necessidades do nosso povo. E hoje nada mais distante daquilo que o Brasil e nossa gente realmente precisa que essas tolices evocadas por esses dois grupos altamente destrutivos. É preciso construir a oposição e o futuro do Brasil e para isso é indispensável olhar o Brasil para além do PT e do Bolsonaro.

2 Comentários

  • Concordo com o lance de se pautar no aspecto economico, mas julgo falacioso o argumento que ja ouvi do Ciro Gomes que foi o meu candidato nessas eleiçoes, de que o PT é que causou essa polarização. Se forem honestos e nao usarem essa estratégia de argumentação, vera que o antipetismo foi impulsionado pela mídia tradicional. E a partir de então, o Bolsonaro pôde surfar nessa onda com facilidade.
    Outro equivoco: Bolsonaro é uma ameaça sim à democracia. A oposição tem que estar unida em peso e todos os partido progressistas devem estar juntos nessa caminhada, por isso isolar o PT como querem o Ciro e o PDT pode ser um tiro no pé. Podem não gostar do PT, mas ainda é o maior partido de esquerda do país.

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