Grande dia!

Por Eduardo Papa – Depois de meses de reclusão, pela primeira vez coloquei calça comprida e saí do meu bairro, por um motivo meritório. Fui ao colégio em que leciono com o apoio do meu sindicato e com outros colegas que sofreram pesados descontos nos vencimentos, por não postar na plataforma Google material para o ensino à distância da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

Sou professor com 35 anos de exercício na rede estadual de ensino, decano em minha unidade administrativa. Tive o privilégio de trabalhar com o maior entusiasta e responsável pela implantação do EaD no Rio de Janeiro, o professor Darcy Ribeiro. Aprendi com ele que essa modalidade de ensino é uma ferramenta importante para adultos complementarem ou obterem uma formação tardia, mas jamais uma alternativa para crianças e jovens.

A pandemia trouxe um grave problema para a educação com a necessidade de isolamento, principalmente para a rede privada, que, para continuar amealhando as mensalidades escolares das famílias, correu às pressas para organizar seu atendimento remoto.

Na rede estadual, o secretário, em uma visível tentativa de mostrar serviço, chamou a plataforma Google, em uma parceria mais ou menos informal, sem um contrato firmado que estabelecesse as regras para a utilização de nossos dados (dos alunos também), sem nenhum trato quanto aos direitos autorais e de imagem dos envolvidos e muito menos qualquer segurança quanto à exposição de nosso trabalho nesses tempos de “escola sem partido”.

Alguns de nós, por não possuírem os equipamentos necessários, por deficiências técnicas ou por não aceitarem fazer o papel de blogueirinha do Witzel, não acessaram a plataforma. Como resultado, em plena pandemia, fomos penalizados com pesados descontos, em meu caso um terço do salário. O desconto veio em seco. Em nenhum momento fomos procurados para saber de nossas dificuldades ou restrições, nenhum acolhimento, nenhuma mão amiga, só o chicote.

Enquanto a corja vil, cheia de galas, enche o papo com aumentos, cargos comissionados e mamatas de toda a sorte, os educadores são tratados como lixo, espezinhados, sofrendo problemas para alimentar nossas famílias. Pouco podemos fazer além do esperneio. Nosso sindicato é nossa trincheira. Vamos ver o que podemos fazer junto ao poder judiciário, com poucas esperanças, pois como quem tem argúcia suficiente para observar, a justiça em nossa terra é igual a polícia: tem lado e partido, e não é o do povo pobre, dos trabalhadores.

Tem nada não. Nossos alunos reduzidos a fome nas comunidades pobres que atendemos, oprimidos por todo lado, agora inclusive por esse EaD excludente, sabem quem são os professores que estão de fato com eles, profissionais sérios que não compactuaram com essa palhaçada, que não tem outro objetivo além de mostrar serviço e servir de muleta para a rede particular, que perde alunos a cada dia e faz desse EaD tábua de salvação.

Fiquei um pouco mais pobre, vou passar uma temporada duro, é ruim, mas não é nenhuma novidade. Nesses últimos anos o poder tem sido cruel com os educadores. Mas como eu, do alto dos meus longos anos de experiência, falei aos mais novos: essa gente amanhã vai embora e nós vamos estar aqui, no chão da escola, educando o nosso povo para a liberdade e o progresso social.

Agora, bem que os eleitores cariocas e fluminenses podiam ajudar um pouquinho.

Por: Eduardo Papa, jornalista, professor e artista plástico.

1 Comentário

  • Interessante os mais pobres que mais sofre e mais sofreram com essa pandemia,nenhum Estado assumiu a responsabilidade de indenizar os desempregados por causa dessa lazarenta pandemia de covid19, virus esse de origem chinesa.Ate quando o ser humano ira servir de marionete ?para os poderosos governantes do planeta?

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