Greve ou Locaute?

Estamos no 6° dia de mobilização dos caminhoneiros, o Portal Disparada vem acompanhando os acontecimentos. No entanto, uma questão que muitos estão levantando é: trata-se de greve ou locaute? Importante fazer a diferenciação de uma e outra para podermos prosseguir.

Greve é a suspensão do trabalho por vontade dos trabalhadores, desta maneira, reivindicam melhorias que julgam necessárias. Esta definição é singela e busca não se socorrer por definições jurídicas, uma vez que a greve deve ser buscada fora do âmbito jurídico para ser realmente uma greve.

Por outro lado, temos o locaute (ou lockout), este se caracteriza quando a classe patronal forja uma greve ou ela própria impede com que os trabalhadores cheguem aos meios de produção, isto é, fecham as portas das empresas.

Tais definições restringem o entendimento do que se pode entender por greve ou locaute. Já que tais movimentações assumem vários níveis de reinvindicações, não só trabalhistas, mas sociais, políticas e econômicas.

Depois destas definições, podemos atingir o ponto essencial, o que importa realmente se é greve ou locaute? Não podemos nos esquecer que toda efervescência social é contraditória, nada se realiza no plano ideal. E a mobilização dos caminhoneiros demonstra realmente o caráter contraditório e conflitivo da sociedade, saindo da lógica binária, é isto ou é aquilo.

Devemos nos recorrer a história, mas para o texto não se ampliar, esta não é a intenção, vale citar uma única situação, os momentos que antecederam a revolução russa (por favor, não entendam como um comparativo entre estes distintos cenários, tal comparativo apenas serve de ilustração para verem como os acontecimentos sociais são paradoxais). Em 1904, na Rússia governada por Czar Nicolau II, estavam acontecendo greves com apoio estudantil, manifestações que exigiam reformas no campo social etc. Como tentativa de contornar essa situação, o Czar concedeu algumas das reinvindicações, como, por exemplo, tolerância religiosa, liberdade de imprensa etc., todavia, o que ele havia concedido era muito pouco, assim, este contorno não perdurou por muito tempo, e a insatisfação só foi aumentando, até chegar em 1905 em um episódio fatídico e determinante para aumentar o grau de revolta da população e a luta se radicalizar: o ‘domingo sangrento’1

Observem, não havia nada assertivo que indicasse uma revolução comunista ou qualquer coisa do tipo. E o que isso pode nos mostrar? Que na história estamos em um campo aberto, onde podemos desembocar em qualquer lugar, ou seja, socialismo, barbárie, ditadura, ‘democracia’, qualquer lugar.

As condições se apresentam, estão dadas, o que realmente importa, é o que será feito. Em outras palavras, não havia campo para uma revolução comunista, o povo russo não era comunista, mas abriu-se a possibilidade e existiam grupos dispostos a levar a revolução para o caminho comunista.

Em nossa situação, o que podemos dizer? Não importa se é greve ou locaute, importa o que será feito com isso. A esquerda avocará para si e chamará uma greve geral? Ou a direita trará para si e dará condições para uma intervenção militar? Ou abrirá margem para mais privatizações?

Usando termos maquiavélicos, importa a virtude, isto é, os grupos sociais saberão dominar os eventos e realizarem o que pretendem?  Quais grupos dominarão este evento? Lembremo-nos que os meios de comunicação são poderosos em nosso país, quem os domina, tem grande margem de vantagem.

Notas de Rodapé

  1. Foi um massacre que ocorreu no ano de 1905 na Rússia. Manifestantes protestavam contra Czar Nicolau II indo em direção ao Palácio de inverno, Czar permitiu que a guarda imperial disparasse, matando diversas pessoas. Este evento foi importantíssimo para a radicalização da luta e para a Revolução

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