GUSTAVO CASTAÑON: O Brasil em Transe

Há dez dias publiquei o artigo “A hora mais escura”, onde previa, sem grande originalidade, que os meses de junho e julho prometiam ser os mais sombrios da história da República.

Hoje, no último dia do mês de maio, o mau agouro parece começar a se concretizar. Entraremos em junho atingindo, no seu primeiro dia, a marca de 30 mil mortos por COVID em nosso país, exatamente o número de pessoas que Bolsonaro declarou que iria assassinar, lá nos idos dos anos 90, caso um dia fosse presidente.

Para se ter uma ideia da dimensão dessa tragédia, pode-se lembrar que isso já é mais da metade dos mortos, só do lado dos EUA, na guerra do Vietnã.

Somos o novo epicentro da pandemia.

Até os EUA, antigo epicentro, fecha fronteiras com o Brasil.

Nada é feito pelo governo a não ser incentivar a subnotificação e a velocidade da pandemia com aglomerações de rua.

Hoje estimam-se 200.000 mortos quando entrar agosto.

Enquanto isso, os apoiadores do governo, cada vez menores e mais desesperados, assumem símbolos neonazistas abertamente, atirando o Brasil na suprema infâmia e isolamento internacional.

Nossas pequenas empresas abrem falência aos milhares e o desemprego atinge mais duas milhões de pessoas.

O cenário é de caos galopante, pois em vez de presidente temos um sociopata agitador, ex-terrorista e retardado na presidência.

Retardado sim, mas com assessoria profissional e um plano.

E hoje, acredito que as forças democráticas caíram na armadilha para a qual Bolsonaro tem chamado desde que a pandemia começou. Foram para as ruas enfrentar os minguados fascistas que infestam a vida nacional, exatamente quando eles estavam se tornando pó.

Quando os 300 da neonazista se tornam 30. Quando a pandemia levanta voo no galope da morte.

As polícias militares se tornaram em grande parte fascistas, são o grupo social mais aderido ao Bolsonarismo. Tanto em São Paulo quanto no Rio atacaram as manifestações democráticas das torcidas para as acusar de vandalismo e desordem.

Era óbvio que esse sempre foi o script do golpe bolsonarista.

É para esse conflito nas ruas que ele tem chamado desde o início.

Contra ele podem convocar a força nacional, nas mãos do marido de Zambelli, as PMs e o Exército, com garantia da lei e da ordem.

Não repreendo aqueles que saíram às ruas depois de tanta desgraça e humilhação.

Mas peço àqueles poucos que me lerem a reflexão.

Se chamarmos às ruas agora para enfrentarmos meia dúzia de lunáticos eles voltarão a crescer, assim como as mortes por COVID.

Perderemos a força moral de estar do lado da ciência contra a pandemia.

E a ação da polícia sempre tentará nos pintar como baderneiros antidemocráticos.

Não é uma decisão fácil ou óbvia, muito menos uma questão de coragem ou covardia, mas de cálculo.

Ainda é uma guerra assimétrica.

E eles estão perdendo um pouco de terreno a cada dia, não nós.

Mas agora poderemos perder a bandeira da ciência, da vida e da ordem democrática todas ao mesmo tempo.

Isso enquanto no Planalto temos alguém que é um pastiche de Hitler descendo dos céus no meio de seus atos, mas que hoje, não juntam mais nem mil pessoas.

Perder o timing agora pode ser fatal.

A conta da pandemia ainda não chegou.

É o que humildemente peço para ser refletido.

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