GUSTAVO CASTAÑON: Eu acuso

Eu acuso o Partido dos Trabalhadores. Antes de tudo eu o acuso de ter traído todos os seus princípios e os sonhos de milhões de brasileiros. O acuso de ter um projeto mesquinho e fisiológico de poder e de ter a ele submetido o país. De ter se tornado o gestor do rentismo brasileiro dirimindo a desgraça dos miseráveis com as sobras do banquete.

Acuso o PT de ter rebaixado o discurso político a um moralismo rasteiro para chegar ao poder. Depois, de o ter reduzido a um personalismo messiânico imbecilizador e despolitizante. De ter ocultado do horizonte da esquerda o papel central do imperialismo nas mazelas de nosso país. De ter deixado nosso país indefeso mesmo após a descoberta do pré-sal e das novas formas de guerra híbrida, jogando as Forças Armadas no colo do bolsonarismo. O acuso de ter reduzido o governo a um incentivador de crédito para o consumo enquanto o desenvolvimento nacional ficou com as sobras. De ter rebaixado o que seria um governo de esquerda à inserção artificial e temporária da parcela mais pobre da população às franjas de um mercado de consumo enquanto a educação básica foi deixada em segundo plano.

Acuso o PT de ter implantado a tática imbecil que exterminou a esquerda no Brasil: praticar uma política econômica de centro-direita se escondendo atrás dos símbolos da esquerda, particularmente enfatizando pautas culturais cuspindo na cara da moralidade popular. De ter evitado a estratégia de fazer política pelo confronto e debate público e preferido um conciliacionismo que nunca foi senão rendição e aceitação da corrupção e fisiologismo para manter tudo como está, incluindo sua permanência no executivo.

Acuso o PT de ter jogado fora a maior chance que o Brasil teve em sua história. De ter pego anos de trabalho político e organizacional da esquerda para negociar acordos de rendição sem fim até a derrota final. O acuso de ter trabalhado para destruir os outros partidos de esquerda e corromper os sindicatos os subornando com cargos e migalhas de governo. De não ter feito nem uma reforma estrutural sequer em 13 anos, nem quando Lula ostentava 80% de aprovação. De ter salvo a mídia oligopolizada e golpista brasileira da falência, a enriquecido, não tendo nem a democratizado nem construído uma mídia alternativa. De ter mantido nosso sistema tributário regressivo e o Brasil o décimo país mais desigual do mundo. De ter rejeitado alterar a forma de financiamento privado da política porque passou a se refastelar nela. O acuso de a isso ter preferido arriscar o futuro e a reputação de nossas estatais estratégicas as mantendo como centrais de corrupção e moeda de troca com políticos criminosos.

Acuso o PT de ter sustentado o governo que nos atirou no desastre, o governo Dilma. De ter feito acordo com a banca nacional para não sofrer um golpe em 2015. De ter cometido o maior estelionato eleitoral já visto neste país. Acuso o PT de só neste ano ter aumentado 21% a dívida pública para cobrir a queda de arrecadação causada pela recessão de Levy e o pagamento de absurdamente imorais 496 bilhões de juros para os donos do país. De aplicar a agenda da austeridade em nome da esquerda e nos condenar a passar os próximos trinta anos tendo que explicar que foram as desonerações e o choque de juros que quebraram o país, e não o inchaço do Estado ou o desenvolvimentismo. Acuso o PT de praticar por quase todos os seus 13 anos de governo os juros reais mais altos do mundo e permitir o saque do Brasil.

Acuso o PT de ter se tornado um partido personalista, submetido ao projeto pessoal de poder de seu líder, Lula. A este, acuso de fabricar uma presidente fraca para o país só para manter seu poder intacto. De ter se acovardado diante de uma perseguição judiciária criminosa, preferindo se entregar a pedir asilo e denunciar o regime de exceção que se instalava. O acuso de, fracassadas todas as suas tentativas de acordo com as elites, ter levado à frente o plano de destruir a única candidatura progressista com chances, a de Ciro, somente para garantir seu papel de líder da oposição e hegemonia do PT no campo progressista. O acuso de ter lançado um candidato inviável, que tinha perdido uma reeleição para prefeitura com menos de vinte por cento dos votos e se sagrado o prefeito mais impopular do país há menos de dois anos, só para provar seu poder de transferência de votos. O acuso de ter feito isso para perder, conscientemente, sabotando com declarações em conjunto com Dirceu e Gleisi sua candidatura, destruindo o futuro de nossos filhos numa roleta russa com cinco balas no tambor.

Acuso o PT de ter insistido em disputar o poder central que sabia que não tinha mais condições políticas de exercer. De ter feito todas as escolhas mais importantes dos últimos cinco anos erradas. De, tendo a liderança e a hegemonia do campo progressista, ser responsável por o ter conduzido ao desastre através de uma sucessão patética de slogans vazios, covardia travestida de republicanismo e táticas malogradas.

Acuso o PT de ter se suicidado como alternativa de poder ou instrumento político no país, e conclamo todos aqueles que não querem se render ao neoliberalismo, como eles o fizeram, a construir um novo instrumento de ação política.

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