Haddad no Roda Viva: Um sonho de liberdade

O Roda Viva, tradicional programa de perguntas e debates da TV Cultura, teve como entrevistado o candidato do PT à presidência da república, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Esta coluna, através de DISPARADA termina hoje a cobertura de toda a série de entrevistas com os candidatos à presidência da República.

Fernando Haddad é um professor universitário. De fala mansa e serena, dá a todos um certo olhar professoral, sem soar arrogante. É um tecnocrata competentíssimo, com uma rapidez de raciocínio e formulação admiráveis. Não é um político do mesmo tamanho. Enquanto prefeito, isolou-se e saiu muito criticado inclusive por seus apoiadores, que mesmo satisfeitos com seu governo, criticavam a falta de interlocução com o prefeito. Hoje Haddad fez diferente. Mostrou-se mais compreensivo e aberto, inclusive com os apoios que não vieram explicitamente, como o do ex-presidente FHC, que segundo Haddad “ Não poderia apoiá-lo por questões partidárias, mesmo rechaçando a todo custo a candidatura de meu adversário (Bolsonaro)”. Também mostrou-se compreensivo com o distanciamento de Ciro Gomes da campanha no segundo turno, lembrando da boa relação de ambos e do apoio de Ciro ao PT durante os governos Lula e Dilma.

Na economia soube posicionar-se de forma coerente dentro de seu campo. Foi contra privatizações, explicando aos entrevistadores contrapontos e dificuldades de vender empresas estatais. Prometeu rearranjá-las para cortar o que não fosse necessário. Diferenciou seu programa da infrutífera “Nova Matriz econômica” de Dilma. Citou uma reforma bancária como diferencial no combate aos spreeds bancários e seus juros draconianos. Disse que irá subsidiar o gás de cozinha para que este custe no máximo R$46,00, explicando a metologia e apresentando os custos. Bola dentro.

Conseguiu acertar o discurso quanto ao suposto “segundo turno de extremos” que tomou a grande mídia nesta segunda etapa. Explicou pacientemente o que já é óbvio: O PT, com todos os seus erros, se construiu dentro do ambiente democrático e por ele sempre se guiou, inclusive em seus 4 governos. Também corrigiu umas trapalhadas que inicialmente estavam no programa do PT – como a tão falada “constituinte exclusiva”- que deram muita munição para seus adversários neste segundo turno. Citou um ditado meio mórbido, mas interessante: não se deve jogar a criança com a água do banho.

Pautou sua entrevista na contraposição de suas posturas democráticas com as de seu adversário. Citou o apoio de Bolsonaro à tortura, lembrou do inquérito que investiga o capitão por apologia ao estupro. Criticou a falta de apego democrático de Bolsonaro, seja no fechamento do STF ou nas afirmações fascistas de “exterminar os vermelhos”. Fez uma fala interessante quando disse que seu papel no segundo turno era “alertar o país para a ameaça do autoritarismo”, lembrou dos social-democratas alemães, que morreram por denunciar a falta de escrúpulos do cabo Adolf Hitler.

Seu pior momento foi quando questionado pela jornalista Vera Magalhães sobre a incongruência de críticas aos arbítrios do judiciário na Lava Jato e um tweet em que pregava a prisão sumária dos acusados de financiar as fakenews de Bolsonaro. Foi confuso, apesar de minimamente coerente. Era melhor não ter escrito.

Fernando Haddad é um democrata. Como bom uspiano, peca pelo excesso de moderação em certos momentos. Mas é um homem competente. Infelizmente foi rifado numa estratégia atabalhoada do PT, que contribuiu para o cenário de derrota que se encaminha no próximo domingo. É um quadro competente e leal. Falta-lhe um tato popular e simplista que sobra em seu adversário. No tradicional bate bola final, escolheu sabiamente como seu filme predileto o consagrado “Um sonho de Liberdade” protagonizado por Morgan Freeman.

Este espaço encerra sua cobertura das sabatinas com os presidenciáveis com a certeza de que o Brasil poderia ser muito maior do que será. Um sonho de liberdade ao invés de um pesadelo de autoritarismo.

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