JONES MANOEL: Sobre Hegel, democracia e geopolítica

Domenico Losurdo passou a vida defendendo a tese – já expressa em parte por Lênin – de que Hegel não era bem um idealista. Na visão do historiador-filosofo italiano, Hegel, na análise dos processos históricos, era bem mais “materialista” que vários contemporâneos e pensadores posteriores. Para Losurdo, Hegel, ao contrário de nomes como Alexis de Tocqueville, ao estudar os caminhos diferentes da Revolução Americana e Francesa, olhou para a geopolítica e as condições materiais [economia] e não para uma suposta diferença inata entre os povos.

Para Hegel, os Estados Unidos dispunham de uma espetacular segurança geopolítica. Não tinha grandes estados o cercando, eram protegidos por dois oceanos – numa época em que a força militar terrestre era o fator mais decisivo da guerra. Aliado a isso, os estadunidenses podiam contar com o colonialismo interno como forma de reduzir o conflitividade social. O antagonismo dentro da comunidade branca era diluído a partir da expropriação dos “peles vermelhas” e da escravidão instituindo uma comunidade mais ou menos igualitária e livre para a raça do “povo dos senhores”.

O antropólogo estadunidense Lawrence Krader, pesquisando a análise de Hegel sobre a Índia, chega a mesma conclusão que Domenico Losurdo.

Domenico avança ainda mais. Afirma que desde Hegel se estabeleceu uma tradição crítica incorporada pelo marxismo que considera impossível pensar a liberdade e a democracia de um país fora de uma situação de tranquilidade geopolítica.

Digamos, então, que existe uma certa lei da história: cercado, ameaçado militarmente, sem a “liberdade de não sentir medo”, nenhum país pode conhecer o florescimento da liberdade dado que a razão de Estado se impõe; a liberdade é sacrificada em nome da segurança.

Ou seja, quem pensa democracia fora de uma reflexão geopolítica está numa situação pré-Hegel.

Qual o motivo de escrever isso? Pensa nessa brisa comigo. Quem cobra uma democracia socialista perfeita ou próxima disso de países cercados e em permanente medo, como Cuba ou Coreia, está não só desprezando a análise hegeliana, como cometendo um idealismo que Hegel recusou. Ou como diria Fidel Castro “em uma fortaleza sitiada, toda dissidência é traição”.

Hegel era bom. Sejam mais “hegelianos” para serem marxistas rs.

Por Jones Manoel.

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