JONES MANOEL: História, poder e moral – o 06 de agosto de 1945.

Existe uma violentíssima luta de classes pela história e a memória. O genial Walter Benjamin, no seu indispensável “Teses sobre o conceito de história”, diz na tese 6 “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer”. A reflexão de Benjamin é muito útil para pensar o que aconteceu em 06 de agosto de 1945.

Nesse dia os Estados Unidos usaram pela primeira vez na história uma bomba atômica, atacando o Japão. Mais de 150 mil pessoas morreram de imediato com os ataques contra Hiroshima e Nagasaki. Milhares morreram dias e anos depois.

Esse acontecimento histórico é lido como um fato sem considerações morais, teóricas e políticas. Explico. Quando falamos dos grandes monstros do século XX, normalmente pela narrativa liberal colocando líderes nazifascistas e comunistas no mesmo plano, o nome de Harry S. Truman, presidente dos EUA responsável pela ordem de denotar as bombas atômicas, não é lembrado. O fato de Truman ser o líder responsável pela utilização da arma mais destrutiva até hoje não coloca ele no panteão dos monstros do século XX. Seu nome não é associado a barbárie, totalitarismo, terror.

Aliás, você sabia o nome do presidente que autorizou destruir Hiroshima e Nagasaki?

Para piorar, o fato de ser possível, dentro do sistema político dos EUA, o presidente ter poder para decidir unilateralmente o uso desse artefato de destruição em massa não deve levar a nenhuma reflexão teórica sobre o sistema político dos EUA. Mao Tsé-Tung sofreu dura oposição dentro do PCCh para a China participar da Guerra da Coreia. Truman decidiu sem passar pelo Congresso ou Suprema Corte dos EUA. O primeiro é chamado de totalitário, o segundo de democrata.

Até hoje, inclusive, esse ato de barbárie é considerado “humanitário” pois, supostamente, teria acelerado a rendição do Japão e poupado vidas. Matar milhões para salvar milhões. Essa é a lógica. O 06 agosto de 1945 também não é chamado de terrorismo ou genocídio. Palavras fortes para exclusão da comunidade humana dos praticantes desses atos. Na lógica da ideologia dominante, atacar uma população civil com armas atômica não é terrorismo. Mas os guerrilheiros comunistas pelo mundo, como na Índia e Filipinas, são.

Hiroshima e Nagasaki provocam uma reflexão moral de um processo sem sujeito. Não existem responsáveis por nomes ou representação de sistema político e econômico. A “Grande fome” na China ou a ocupação soviética na Hungria seriam provas incontestáveis do caráter totalitário e imoral do projeto comunista, mas a bomba atômica é um grande nada. É só um fato para lamentar e rezar para que nunca mais acontece. Sem condenação moral direcionada, precisa, politizada.

É assim que os dominantes escrevem a história e a memória. E, infelizmente, é assim também que muitos do nosso lado olham o século XX.

Por Jones Manoel.

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