GUSTAVO CASTAÑON: A Hora Mais Escura

Em parte envolvidos pela vertigem da interminável enxurrada de notícias de crises criadas diariamente por Bolsonaro, em parte sobrecarregados com a quantidade inabsorvível e crescente de mortos diários, o Brasil não percebe o mais escuro momento de sua história que se aproxima.

Os meses de junho e julho de 2020 prometem ser os mais sombrios da história do Brasil. Na semana entre 12 e 19 de maio morreram 31,810 pessoas vítimas de Covid 19 em todo o mundo. Esse número representou um aumento de 10,8% no total de mortos. A curva começa a ceder num mundo que, praticamente todo, adotou confinamento severo.

Mas o contrário se deu no Brasil. A velocidade da expansão das mortes agora se torna aterrorizante. Enquanto elas cresceram 3,2% na Espanha, 4% na Itália, 8,1% no Reino Unido e 11,7% nos EUA, no Brasil cresceram aterrorizantes 45%.

Isso acontece precisamente porque, há cerca de vinte dias, o governo estava no auge da batalha contra o confinamento, derrubando as taxas de isolamento nas grandes cidades promovendo manifestações e carreatas da morte.

Hoje a conta chega com vários daqueles que saíram às ruas adoecendo e transmitindo a doença para os seus.

Ontem foram registradas no Brasil 1179 mortes. 1179 mães, pais, filhos, filhas, se foram. Nos EUA, foram 933 mortes. Ninguém percebeu, mas o Brasil já é o novo centro da pandemia no mundo.

E os EUA tem uma população que é mais de 3/2 da brasileira. A taxa de mortes por milhão no Brasil, portanto, já está mais alta.

Ainda temos que lembrar que esses são somente os números oficiais. Até agora, o Brasil realizou apenas 3.462 testes por milhão de habitantes. Isso não é só incompetência, mas política de Estado para subnotificar a tragédia e minimizar a doença. Os EUA, por exemplo, realizaram 37.188 testes por milhão de pessoas e a Espanha, 64.977.

Quando comparados ao registro de mortes por insuficiência respiratória e pneumonia do mesmo período do ano passado, os números atuais indicam que as mortes por COVID-19 no Brasil podem ser, no mínimo, o dobro do número atual. É importante que se trata aqui do número atualizado, levantado diretamente pelas secretarias de saúde e órgãos de imprensa, e não com o atraso de duas semanas do site da associação de donos de cartório usado pelos bolsonaristas.

Todos reclamam da falta de plano do governo para a pandemia. Mas se enganam. O plano do governo é o mais bruto neoliberalismo. Que o “mercado” se autorregule com liberdade para todos. Para o rico ficar em casa e o pobre pegar transporte público. Para pressionar pelo fim do isolamento, atrasa o auxílio emergencial, atrasa o auxílio financeiro às empresas e agora ameaça cortar o salário do funcionalismo.

O cálculo, como o presidente revelou em seu passeio de jet-ski, é deixar 70% da população pegar a doença o mais rápido possível para o brasileiro adquirir a hipotética “imunidade de rebanho” e a economia voltar o mais rápido possível a rodar com o que sobrar.

Considerando a taxa de mortalidade de 1,1% para a COVID-19 da Coréia do Sul, que testou a maior proporção da população (mas tem sistema de saúde que não deixou sem tratamento ou UTI nenhum doente), o Brasil teria, neste cenário, sem surgir nenhum antiviral novo que diminua a mortalidade, sem vacina, aproximadamente um milhão, seiscentos e trinta e um mil e setecentos mortos.

Ao invés de esperar pelo desenvolvimento de antivirais ou mesmo da vacina, para a qual o Brasil é o único país junto com os EUA que não assinou o tratado de cooperação com a OMS, o plano neoliberal do governo é esperar a autorregulação da pandemia.

E como todo plano neoliberal, vai resultar em catástrofe.

A normalidade no país mais desigual do mundo não mais voltará, como notou só agora o genocida que é proprietário da lanchonete Madero. Mesmo que se levantem as restrições pelo isolamento social, as pessoas, por um tempo que não temos condições ainda sequer de estimar, não mais se aglomerarão em restaurantes, em shoppings, em shows, em bares, não voltarão a hotéis, a pegar aviões, a viajar, mesmo porque, o mundo estará fechado para o centro da pandemia.

Nada mais será como antes.

A destruição do tecido econômico, das empresas, dos empregos, está sendo tão profundo e calamitoso, que teremos a maior quantidade de mortos do mundo, a maior queda do PIB do mundo, e de quebra, o caos social pelo qual Bolsonaro sonha a tanto tempo, na expectativa de dar um golpe de Estado e se tornar o Hitler brasileiro.

O Brasil entra em junho noite à dentro, na hora mais sombria de toda a sua história.

Permaneçam vivos.

Temos genocidas a prender e um país a reconstruir depois disso.

Talvez, uma democracia a reconquistar.

Devemos isso a nossos filhos.

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