IGOR FUSER: O conflito na Venezuela já ultrapassou o ponto de não-retorno

O conflito na Venezuela já ultrapassou o ponto de não-retorno.

Salvo algum fato interno que altere o curso dos acontecimentos, o próximo passo da ofensiva dos EUA é suspender as importações de petróleo venezuelano, fechando o cerco econômico e agravando uma situação que já é desesperadora.

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A China e a Rússia — aliadas de Maduro — dificilmente irão além dos atuais níveis de apoio econômico e diplomático.

O caminho do diálogo, na sensata sugestão dos governos mexicano e uruguaio, se encontra bloqueado pelo veto dos EUA e dos opositores, que não enxergam motivo para qualquer concessão.

O governo legítimo venezuelano se vê, assim, sob um crescente isolamento internacional, acompanhado pelo que parece ser uma erosão da capacidade de exercer o poder efetivo no território.

As opções à vista são três:

1. Rendição do governo Maduro, seja de modo incondicional, como parecem pretender os EUA e o setor da oposição que se expressa por Guaidó; seja por meio da busca de uma saída supostamente “honrosa” por meio da convocação de eleições nos termos impositivos apresentados pelo governo espanhol (que deu a Maduro um prazo de oito dias, sob pena de aderir ao reconhecimento de Guaidó);

2. Intervenção das Forças Armadas para depor Maduro, com a instalação de um governo provisório (militar, civil ou misto) ou a entrega do poder diretamente ao imperialismo e à oposição empresarial-direitista, ou seja, à Assembleia Nacional “em desacato”;

3. Guerra civil, com o envolvimento direto ou indireto de forças militares estrangeiras. Várias ações podem servir de estopim para o conflito armado e a intervenção externa:

a) reação a alguma iniciativa drástica do governo, como a tentativa de prisão de Guaidó e seu grupo, dissolução da AN ou tomada do prédio da embaixada dos EUA;

b) sublevação de setores insubordinados das Forças Armadas;

c) ocupação de território para instalação de um governo paralelo controlado a partir de Washington;

d) uma provocação opositora de grande porte dentro do país (confronto de rua com derramamento de sangue, assassinato político, um atentado ou ato de sabotagem espetacular) ou na fronteira, envolvendo forças paramilitares e, eventualmente, tropas estrangeiras.

O fator crítico, que torna o atual contexto qualitativamente distinto de todas as anteriores ofensivas golpistas, é a passividade dos setores populares, a verdadeira base de apoio do chavismo. Hoje o “povo chavista” se mostra de um modo geral imóvel, apático, descrente na liderança governamental e exausto após cinco anos de penúria, frustrações e falta de perspectivas.

O desenlace pode ser rápido ou se arrastar ainda por longas semanas de desgaste governamental, colapso na economia e nos serviços públicos, e confrontos de rua cada vez mais violentos.

Novas manifestações opositoras, marcadas para esta semana, devem reunir multidões, debilitando ainda mais o governo.

A única forma de equilibrar o jogo será uma mobilização contundente das classes populares (a maioria) contra o golpe da direita e do imperialismo, em defesa da legalidade e das conquistas da Revolução Bolivariana, mas apostar nisso, a esta altura, parece bastante incerto.

Por Igor Fuser

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