A imagem vencendo a palavra no conflito das redes sociais

Dentre diversas lições importantes fornecidas pelas últimas eleições, uma delas vai exigir um comportamento diferente, daqui para frente, das forças democráticas, sejam elas consideradas de esquerda, comunistas, socialistas, setores liberais e de centro, além das diversas entidades da sociedade civil organizada.

Trata-se da assunção de um novo e determinado comportamento digital e eletrônico com estudos, aprimoramentos e estratégias de ação.Não diz respeito só a táticas e estratégias de mera divulgação de mensagens bem elaboradas. Mas sim de uma nova maneira de ser.

Não há outro caminho daqui para frente – e por mais que digam que estou sendo óbvio na questão, não me parece óbvio, por outro lado, por que as forças do referido campo foram pegas de surpresa com o esquema sofisticado que veio à tona dos milicianos digitais.

Alguns acharam que a vitória de Bolsonaro resultou de táticas bem-sucedidas de “nerds” capitaneados pelos filhos do Bolsonaro, gente jovem e hábil no manuseio das novas tecnologias de informação e comunicação. Mas, provou-se que o esquema é grande, sofisticado e internacional, com apoio de empresários.

Sou insuspeitíssimo para falar do assunto, pois, além de praticamente ignorante, refratário até, em mídias digitais, como muitos que conheço da minha geração, resisti a entrar nas redes sociais durante muitos anos.

Achava que Facebook, Twuitter e, principalmente, aplicativos como whatsApp, além de superficiais para os debates relevantes por conta da celeridade e do caráter lacônico dos contatos, eram mais meios suplementares das tradicionais arenas da luta política, do que importantes “espaços” das contradições e sua guerra de símbolos na contemporaneidade.

Se se considera evidente, repito, o que estou falando, como diagnóstico de quem está chegando atrasado no contexto, a pergunta é: por que então as forças democráticas foram tão inábeis para contrapor (sem êxito algum, aliás) os absurdos e as mentiras disseminadas pelas redes sociais? Só recentemente apareceram ou se disseminaram plataformas de defesa e denúncia contra as fakenews.

Com a munheca jornalística adquirida pela experiência de muitos anos em jornal impresso e em assessorias de imprensa (no tempo em que não havia essa parafernália da internet), aprendi, por outro lado também, através da pesquisa acadêmica, a fazer mais perguntas do que afirmações apressadas e conclusivas.

Uma suposta inabilidade das forças democráticas teria suas causas no equívoco de acreditar mais na luta através das chamadas tradicionais arenas, como o noticiário dos grandes meios de comunicação, a exemplo dos jornais impressos e telejornais? Ou na ignorância das novas tendências de uso digital na política?

As forças democráticas representadas por partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos, entidades da sociedade civil, como ABI, ABAJI, OAB, CNBB, SBPC, ANPOCS, MST, entidades representantes de comunidades indígenas e diversas outras terão, daqui para frente, que se profissionalizar nessa área de comunicação digital, que, enfatize-se, não se resume à mera contratação de analistas de sistemas, jornalistas, assessores de imprensa ou pessoal de marketing e propaganda.

Na verdade, essas entidades terão que se estruturar numa espécie de rede, na medida do possível, com uma nova maneira de ser. Terão que ser mais contemporâneas do que já são. Isso significa lembrar que as próprias ferramentas de comunicação, em certo sentido, mais refletem a maneira do ator político e o conteúdo de seu ser do que apenas veículos de mensagens isoladas a serem divulgadas. É algo complexo no que se refere ao pensamento sobre forma e conteúdo.

Não se trata simplesmente de se adequar a novas formas e instrumentos de tecnologia (isso pode ser rápido pelas facilidades da própria tecnologia), mas a novos tipos de comportamento na luta política. Não se trata de adequar conteúdos previamente elaborados e prontos a tecnologias disponíveis para uso de qualquer um, como se assumíssemos o velho chavão segundo o qual as ferramentas são o que são – e podem servir para o bem ou para o mal, dependendo do uso que se faz delas. Não!

Trata-se, isto sim, de conceber, friso aqui, novas maneiras de ser e novos tipos de ações numa dinâmica complexa do ambiente comunicacional no qual a imagem tem vencido a palavra. A imagem tem prevalecido sobre a palavra, essa é a crua verdade. Obviamente, não se defende aqui que depreciemos ainda mais o uso da palavra em detrimento da imagem, que nunca valerá mais do que mil palavras, diferentemente do que defende o velho clichê ultrapassado.

Teremos que nos transformar para a criatividade da simbiose entre palavra, imagem e ação, incentivando conteúdos e o olhar crítico, seja através da leitura de textos, mas também através de jogos, como esses que viciam passageiros do metrô, as chamadas lives, cartilhas, programas em diferentes plataformas, símbolos e outras formas. Isso já vem acontecendo aqui e ali a partir de diferentes iniciativas. Não vamos poder dispensar os “gadgats”, por mais dificuldade que os mais velhos tenham com essas ferramentas.

Como jornalista, poeta e leitor voraz de livros não poderia deixar de manifestar preocupação com a hegemonia da imagem, por si só, sem o “treino” da ação e do pensamento pela palavra. Como apaixonado pela palavra escrita, não poderia deixar de me alarmar com talvez um fenômeno que possa ser o incentivo para a morte da imaginação e, por conseguinte, de certas sensibilidades. Os estudiosos no assunto, certamente, têm mais o que dizer, e de maneira melhor, a respeito.

O fato é que tudo, penso, é talvez uma questão também de algo que poderia ser simplificado como “treino”. Ser educado nas coisas é cultivar determinados hábitos, como por exemplo, treinar nossa imaginação indo ao cinema, assim como nos recolhendo para a leitura de um livro. Ou acostumarmo-nos a ver o noticiário da televisão simultaneamente ao que é disseminado nas redes sociais.

Treinar leitura de jornais escritos e receber ao mesmo tempo várias mensagens em um curto período de tempo pelo whatsApp. Enfim, treinar todos os sentidos da alma nesse ambiente vertiginoso de gigantesca quantidade de dados e informações misturadas, muitas vezes, de difícil compreensão.

Treinar, enfim, uma nova maneira de ser para uma filtragem cognitiva do que pode ser aproveitável para tomarmos decisões no dia a dia e na hora de escolhermos os governantes de quatro em quatro anos nas urnas. Afinal, de nada vale sabermos muito, termos muita informação, mas compreendermos pouco das coisas e sua dinâmica complexa.

A imagem vencendo a palavra no conflito das redes sociais

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