Irá a invasão dos bárbaros destruir o império da política?

Muitos analistas vêm atribuindo as bizarrices do primeiro escalão do governo a uma espécie de manobra diversionista, para tirar o foco das pessoas de medidas antidemocráticas e impopulares que pretendem impor a nação. Discordo completamente, pode ser até que, de tão estapafúrdias e extemporâneas, cheguem a cumprir esse papel em uma medida limitada, mas não é algo planejado, eles são toscos mesmos e se instalaram no poder como um rinoceronte na sala de visitas. Oriundos do submundo de suas áreas profissionais, a jornalista é plagiadora, o ator é pornô, os técnicos turbinam os currículos com doutorados que não possuem, os policiais são suspeitos de envolvimento com grupos de extermínio, uma verdadeira escória que chegou ao poder com uma arrogância desmedida, se arvorando a propor uma nova política, para justificar uma prática de desmonte e destruição de políticas públicas construídas ao longo de anos. Algo como os Hunos, Vândalos e as tribos de bárbaros adentrando ao Império Romano no início da Idade Média.

Duvido que um poço de vaidade como o Ministro da Justiça iria deliberadamente assassinar de forma continuada a língua portuguesa, para que seus grosseiros erros gramaticais chamem mais a atenção que o conteúdo de seu discurso. É inverossímil que o Presidente da República se apresente com a mediocridade que o levou a ser piada no planeta inteiro de caso pensado. Da mesma forma que o chanceler não sairia por aí falando disparates que demonstram total desconhecimento da história, se, com efeito, não acreditasse em tais estultices. São profundamente ignorantes mesmo, o que não diminui em nada sua virulência.Os nazistas também o eram, Hitler também consultava astrólogos, andaram pelo mundo atrás de relíquias com poder mítico, construíram narrativas históricas baseadas em artefatos arqueológicos falsificados, que faziam rir os pesquisadores do mundo civilizado. E foi em grande parte essa negação do conhecimento, que os permitiu justificar para seus seguidores e para eles próprios as atrocidades que cometeram.

Desde que pensadores gregos na antiguidade, notadamente Platão, desenvolveram o conceito do que é a política para nós humanos, ela vem sendo exercida pelos homens do poder e estudada pelos das letras há milênios. Qualquer estudioso sabe que não há uma política nova ou velha, verde ou vermelha, de alto nível ou rasteira. A política, desde a virtú de Maquiavel ao conceito de realpolitik da filosofia alemã, é como nos relacionamos, como construímos o nosso poder. Historicamente essa proposta de criar uma “nova política” vem de tolos ou farsantes, frequentemente de uma imbricação entre ambos os segmentos.

Em nosso caso, esse Exército de Brancaleone, reunindo uma coleção de neófitos e políticos tradicionais de baixa expressão, que se apresenta como portador de uma nova política, explorando o pavor causado pela violência urbana e ostentando de proa o surrado estandarte da luta contra a corrupção, consegue aglutinar grupos políticos ultraconservadores, neopentecostais, o latifúndio e milícias urbanas. Esses novos bárbaros não precisam de grandes demonstrações de coerência ou conhecimento, um ideário difuso, misturando preconceitos e concepções medievais, cai como uma luva para a implementação do projeto econômico ultra liberal dos “Chicago boys”, realmente impossível de se consubstanciar em uma conjuntura de normalidade e debate político democrático.

Assim como Trump, ao que parece, a despeito do insulto a inteligência do povo americano e desrespeito aos seus parceiros tradicionais da Europa, consegue preservar uma parte do apoio obtido com a máquina de comunicação eleitoral de Steve Bannon. A queda da popularidade o governo, ainda que precoce, não reflete o absurdo das ações da administração, cujo efeito não será sentido de imediato, pelo menos no limite da compreensão de seus seguidores. A baixa qualidade da educação oferecida às classes subalternas e mesmo a disponível para grande parte dos setores médios, o baixo nível de compreensão dos brasileiros sobre o que ocorre em sua própria sociedade (apontado seguidamente em pesquisas), torna relativamente fácil manter cativo o apoio de sua base através de um sólido e eficiente esquema de utilização das redes sociais, cristalizando um grupo social que vai construindo uma identidade conservadora assimilando e reforçando os preconceitos e concepções mais inusitadas. São milhões de cidadãos que usualmente tem sido identificados por um termo de origem pejorativa, mas que, de tão apropriado, acabará sendo incorporado como uma categoria sociológica a historiografia brasileira – os bolsominions.

A dúvida é se os novos bárbaros, em sua cruzada antiesquerdista, conseguirão destruir as conquistas da constituição cidadã de 1988, subvertendo pela intimidação e a violência a ordem democrática e varrer para o limbo as forças políticas tradicionais de centro esquerda e mesmo da direita civilizada, que imperam na vida política brasileira nessa nossa “Nova República.”

Por Eduardo Papa, jornalista, mestre em história e artista plástico.

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