A máquina por trás de Joe Biden que a Globo não mostra

Joe Biden é oficialmente o novo presidente dos Estados Unidos. Foi eleito com recorde de votos, votos esses que foram dados nas urnas, correios ou, acredite se quiser, por e-mails. Junto com Joe Biden, foram eleitos os novos deputados e senadores, inclusive teve até deputado eleito um mês após o seu falecimento. Após ter esse cenário em mente, vamos em frente.

Agora com os resultados já em mãos, vários brasileiros – até dos que se dizem anti-imperialistas – já se manifestaram fervorosos e alegres com a eleição de Joe Biden, alegando que o bom senso e a democracia venceram o fascismo, o ódio e a intolerância, adjetivos representados por Trump. De repente, a esquerda brasileira está de mãos dadas e partilhando a mesma opinião da Rede Globo, da CNN e do New York Times.

Seria muito leviano de minha parte também dizer que qualquer opinião progressista compartilhada com esses veículos são opiniões erradas. No mais, inclusive, muitas vezes é até tático oportunizar certas visões de mundo com o oligopólio de imprensa dentro do contexto da guerra de amplo espectro. Mas nesse fato em específico, o resultado das eleições estadunidenses, parece que realmente essas pessoas estão envoltas de um sentimento idealista que sublima a materialidade dos fatos. Parece que realmente acham que de alguma forma a extrema-direita foi derrotada e o bom senso venceu.

Para desconstruir a progressividade corrosiva sobre nosso imaginário e subconsciente coletivo, sobretudo no movimento trabalhista, que o monopólio midiático tem vendido, é necessário entender onde está a fronteira entre a realidade e a fantasia. Para isso, tratarei de alguns argumentos do senso comum do porque seria melhor um Governo Biden em relação ao Governo Trump.

Sei que o tema da imigração nos EUA é um assunto complexo, que envolve questões ligadas à regulação do mercado de trabalho interno deles, em que tanto imigrantes ilegais, que trabalham em condições precárias, quanto o fomento da imigração de mão de obra qualificada, cumprem uma função estratégica na economia estadunidense. Porém, neste texto, pretendo abordar o problema sob o ponto de vista humanitário e suas tragédias decorrentes.

Nesse sentindo, o primeiro argumento a ser iluminado para transparecer a realidade dos fatos será:

“Trump foi o mais ferrenho presidente com a questão da Imigração”

Crianças enjauladas, pessoas perseguidas nas fronteiras como se fossem animais, pessoas deportadas de volta para seus países como se fossem cargas desprovidas de humanidade e vários campos de concentração para imigrantes ilegais são cenas que o oligopólio midiático ocidental nos oferecem todos os dias como representação daquilo que é a política de imigração no Governo Trump. Todas essas informações não passam de ser a mais absoluta VERDADE. Sim, é inegável que os Estados Unidos promovem uma política de limpeza étnica pelos seus mecanismos de controle migratório e Trump reproduz essa lógica de forma horrenda e inescrupulosa. Mas a questão que quero levantar aqui é outra.

Por que esse mesmo oligopólio midiático ocidental não reproduziu essa mesma narrativa de terror para os dois Governos de Obama? Afinal, a situação dos imigrantes antes era uma maravilha e agora com Trump virou um inferno ou foi o oligopólio de mídia que do nada resolveu se sensibilizar com essa questão? Para responder essas questões são necessários dados e uma honesta narrativa contra-argumentativa.

O governo dos Estados Unidos faz frequentemente remoções de estrangeiros do país. Em verdade, deporta os indesejáveis. Um ano antes de Obama assumir o governo, no ano de 2008 o governo dos EUA removeu forçadamente do país um número de 359.795 pessoas. Com o passar dos anos, o “democrata” Obama aumentou exponencialmente o número de estrangeiros deportados, chegando ao pico de 432.228 de estrangeiros removidos forçadamente do país em 2013. Trump, em 2017 – seu primeiro ano de governo – deportou 287.793 estrangeiros e em 2019, o ano de seu mandato em que mais deportou, removeu forçadamente do país 359.885 pessoas, número semelhante ao que existia antes do Obama bater os recordes de deportação. Ou seja, a média anual de estrangeiros removidos forçadamente dos Estados Unidos no Governo Obama-Biden foi superior à média anual do Governo Trump em mais de 50 mil pessoas. (TABELA 1)

A máquina por trás de Joe Biden que a Globo não mostraTABELA 1 – Número de Estrangeiros removidos forçadamente dos Estados Unidos entre 2006 e 2019

Outro dado interessante para se analisar é o número de pessoas que foram naturalizadas e a comparação desses dados entre o governo Obama-Biden e o governo Trump. O número de pessoas que obtiveram o status de residente permanente legal nos Estados Unidos se manteve em taxas muito próximas na comparação entre o governo Trump e o governo Obama-Biden. No entanto, muito mais pessoas foram naturalizadas no Governo Trump que no governo Obama-Biden. Um ano antes de Obama assumir, em 2008, 1.046.539 foram naturalizadas nos EUA. Obama assumiu em 2009 e a partir desse ano as taxas de pessoas naturalizadas nos EUA vão caindo até a mínima histórica do ano de 2013, quando o governo Obama-Biden só naturalizou 653.416 pessoas. Trump, ao contrário, aumentou a taxa de pessoas naturalizadas nos EUA ano após ano durante seu governo. (TABELA 2)

trump Joe Biden que a GloboTABELA 2 – Número de pessoas naturalizadas nos Estados Unidos de 2008 até 2019

Para uma análise justa, aqui também é necessário considerar o número de imigrantes que foram detidos por situação de ilegalidade e nesse quesito o governo Trump é vencedor. Enquanto a média anual do governo Obama de imigrantes detidos foi de 397.483, a do Governo Trump foi de 410.297. No entanto, convém falar que a taxa de mortalidade das pessoas detidas no Governo Trump foi menor que a do governo Obama, talvez porque a condição dos centros de detenções melhoraram, talvez porque a idade dos imigrantes detidos diminuiu, ou então os dois.

Um outro ponto que devemos analisar é a monstruosidade da detenção de crianças praticada por Clinton, Bush, Obama e Trump. Não encontrei dados tão confiáveis para essa variável, no entanto é possível afirmar que a lei que permite separar crianças de seus pais e engaiolá-las como se fossem animais é da administração Bill Clinton.

Em verdade, todas as monstruosidades na questão de imigração nos EUA cometidas de formas legais, tem origem no governo do “Democrata” Bill Clinton quando em 1996 assinou a Lei de Reforma da Imigração Ilegal e Responsabilidade do Imigrante, que permite inescrupulosidades contra crianças,incentiva a deportação em massa e autoriza a detenção descontrolada de imigrantes em verdadeiros campos de horror e desumanidade.

Outro ponto interessante é o polêmico muro de Trump separando os Estados Unidos do México. Sem dúvidas um projeto horrendo e insensato, mas que também não foi iniciado por Trump. Na verdade, a construção desse muro foi aprovada durante o governo de Bush Pai e teve a maior parte de sua construção realizada durante o Governo de Bill Clinton.

Ou seja, agora com os dados em mãos, mais uma vez a pertinente pergunta: Se no governo Obama-Biden muitos menos estrangeiros foram naturalizados e muito mais imigrantes foram deportados que no governo Trump – que inclusive teve um ano de mínima histórica – por que o oligopólio midiático também não nos vendeu o governo Obama como um agressor dos direitos humanos dos imigrantes?

Somente reflita sobre essa questão. Em nenhum momento quero dizer que Trump é bom e Obama-Biden são ruins. Em verdade, ambos foram monstros, mas a máquina acessória de moer imigrantes – sobretudo latinos – foi implantada e executada com muito mais sucesso pelo grupo que segue agora em diante no comando dos EUA. Biden e Kamala representam intimamente esse arcabouço de poder e projeto, começado por Clinton e fortalecido por Obama, que agora encontra um novo meio de continuidade. Milhões de nossos irmãos latinos, pessoas que foram desesperadas para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor e todos os meses mandam um sustento para seus familiares na periferia do sistema, optaram por Trump. Nossos irmãos latinos deram o voto diferencial para que Trump fosse o grande vencedor na Flórida, inclusive vitória que Trump não conseguiu em um estado majoritariamente branco e conservador como a Geórgia. Reflexões como a que propus nesse texto devem nos fazer olhar com mais cuidado para o voto latino para entender o porque muitos deles têm tanto medo de um futuro Governo Democrata.

Trump, mesmo sem vencer as eleições, conseguiu feitos extraordinários. Ele fez que confiassem em si mais de 70 milhões de pessoas. Muitos podem alegar que Joe Biden conseguiu mais votos, porém não foram suas características personalistas e projetos que lhe deram mais votos, mas sim o sentimento anti-Trump enraizado nas populações, sobretudo, dos estados ricos e das populações das grandes cidades. Trump é o primeiro candidato Republicano em várias décadas a conseguir extrapolar seu apoio para além da “América Branca e conservadora”. Trump levou o voto de ⅕ dos homens negros, mais de ⅓ dos votos dos homens latinos, quase metade dos votos dos sindicalistas e quase ⅓ dos votos das pessoas LGBTs. Mas o mais surpreendente, Trump levou 42% dos votos das pessoas em situação de pobreza. Trump recebeu o maior apoio não-branco de qualquer candidato Republicano que concorreu à presidência desde 1960 e a porcentagem de mulheres negras e LGBTs que votaram em Trump em 2020 dobrou em relação a 2016.

Neste artigo tentei esclarecer o argumento midiático sobre a política de imigração nos EUA que tenta criar uma história de mocinhos e vilões, quando na verdade todos eles são inescrupulosos repressores dos Direitos Humanos de imigrantes. No próximo artigo dessa série, sobre a nova máquina de poder que volta à Casa Branca e a realidade por trás de suas máscaras “democráticas”, explicarei sobre as Relações Internacionais dessa máquina e sua política externa diplomática e repressiva.

REFERÊNCIAS

1. https://www.dhs.gov/immigration-statistics/yearbook/2019/table20

2. https://www.dhs.gov/immigration-statistics/yearbook/2019/table39

3. https://www.dhs.gov/immigration-statistics/yearbook/2019/table1

4. https://www.cato.org/blog/8-people-died-immigration-detention-2019-193-2004

5. https://hackinglawpractice.com/blog/20-year-law-signed-continues-to-harm-immigrant s/

1 Comentário

  • É pura ilusão achar que Norteamérica é uma democracia. Um país no qual dois partidos se alternam no poder desde a independência, sem dar a menor condição de outros partidos participarem da vida política, quando se sabe que lá existem mais de 100 partidos, não pode ser chamado de democrático. Democratas e republicanos são a face da mesma moeda, cada um lutando mais do que o outro para manter seus privilégios e afastar todo e qualquer outro que queira romper esta bolha. O mundo tem de lutar para dividir os Estados Unidos e desta forma diminuir sua nefasta influência no mundo.

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