CHRISTIAN LYNCH: O jogo cifrado do General Mourão

O artigo do vice presidente Hamilton Mourão faz a defesa da centralização político-administrativa e do anti-judiciarismo típicas do militarismo de Floriano, Hermes e do regime militar. Curiosamente, citando clássicos liberais americanos e brasileiros, de tendência unionista e não estadualista (Madison e Amaro Cavalcanti).

Qual o sentido desse artigo?

Aparentemente ele defende o governo Bolsonaro. Mas por que o vice faria a defesa de um governo encalacrado e cambaleante? Ele não devia estar, ao contrário, acenando para o congresso?

Minha aposta é a de que se trata de um jogo cifrado. A lealdade dele, na verdade, não é a Bolsonaro, que sequer é citado. É aos generais conservadores do Planalto e do alto comando. Está dizendo o que eles querem ouvir, o mantra tradicional do exército como poder moderador da república e da centralização no executivo como guardião da ordem e da autoridade. Tudo isso, às vésperas da divulgação do vídeo da reunião ministerial que revelar as entranhas escandalosas do governo.

O movimento dele parece ser no sentido de dar segurança aos colegas militares, constrangidos em prestar depoimento como testemunhas em processos judiciais e na companhia de notórios arruaceiros, para uma eventual mudança na presidência. Ele não pode trair o governo como fez o Temer, e o partido dele é o Exército. O que Mourão parece dizer é que, na hora de desembarcarem do governo Bolsonaro, desembarcarão todos juntos, e que no governo dele, Mourão, prevalecerá um projeto conhecido e familiar de ordem nacional, de estilo ESG.

Nesse governo Mourão, a linha seria a mesma daquela que os generais querem, mas sem o ônus do bolsinarismo. Haveria espaço para acordos com o congresso, sem corrupção, e para um governo de ordem, sem o populismo insano e polarizador de Bolsonaro. Imagina que assim haveria condições de um governo nacional, respeitado e acatado pelo judiciário e pelos governadores. Bom lembrar que, em declaração anterior, ele já fez a defesa da costura de uma base parlamentar na câmara, de base programática. Cada general-presidente com sua ARENA…

Em suma, acho que Mourão anda acenando, não para o Bolsonaro, mas para os outros generais e para o congresso, de modo cifrado, estabelecendo as bases ideológicas e programáticas de um eventual governo dele. Menos Trump e mais Medici, menos Olavo e mais Golbery. Mourão como o verdadeiro Bonaparte do novo regime. Resta saber se o Congresso vai morder a isca, e se está havendo efetivas aproximações entre ele e as lideranças da Câmara, para viabilizar a mudança lá na frente.

Por Christian Edward Cyril Lynch

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4 Comentários

  • A direção da análise é correta. A intenção dos militares não é, necessariamente, preservar o governo ou Bolsonaro, mas o seu espírito e o seu programa militarista.
    Afinal, o governo é militar desde o seu início. Ou se não, desde o célebre twitter em rede nacional do Villas-Boas.

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  • Vejo da mesma forma. Li, reli e tresli o artigo de Mourão. Não vejo golpismo. Vejo uma sinalização clara de que deseja imprensa, justiça, parlamento e executivos estaduais sem atritos com o executivo federal e uma mensagem cifrada para as FFAA e demais entendedores (grande empresariado, players políticos): meu governo seguirá essa direção.

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  • Caramba!!
    Como uma pessoa consegue escrever e publicar tanta asneira em um único texto.
    Parece a mãe Dinah chutando para tudo que é lado.

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  • Penso o mesmo.
    1. Não vi golpismo no artigo. Há uma manifestação explícita contra os questionamentos de imprensa, judiciário, legislativo e executivos estaduais. Porém, nenhuma proposta de agir diretamente contra eles;
    2. Defender a concentração de poderes no governo central agrada aos militares. E, desacompanhada de medidas concretas, não significa afrontar a constituição;
    3. O mais importante de tudo: não há nenhuma sinalização de que imprensa, judiciário, legislativo ou executivos estaduais e municipais devam perder poderes para ampliar os de Bozo!
    4. Mourão está “falando para a tropa”. Ora, se as Forças Armadas são o grande fiador da permanência de Bolsonaro no cargo, tranquilizá-las é a atitude esperada de um general que deseja assumir a cadeira do presidente;
    5. As intenções do vice são opostas às de Bozo. Este espera a oportunidade de dar um golpe. Mourão aguarda que os players civis (políticos, empresários e mídia) encaminhem a remoção do presidente. Garantir a neutralidade da tropa é a maior contribuição que pode dar ao sucesso da empreitada.

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