Jones Manoel e Marcos Nobre: críticas inteligentes e equivocadas a Ciro Gomes

Jones Manoel, militante do PCB, e Marcos Nobre, pesquisador do CEBRAP, empreenderam duas críticas autoproclamadas de esquerda à tática eleitoral de Ciro Gomes. Já são muito melhores do que o cinismo neo-sectário de Flávio Dino e que as alucinações fanáticas (igualmente cínicas) do lulismo, que sequer são dignas de comentários. As críticas de Jones são alegadamente pragmáticas e, portanto, mais simples de ser respondidas. Já as críticas de Marcos Nobre são de fundo teórico, mais complexas, mas igualmente equivocadas. Vejamos.

Jones Manoel e a crítica eleitoral

O youtuber comunista parte de um pressuposto correto. O programa de Ciro Gomes é nacional-desenvolvimentista e de esquerda, desse modo, não poderia obter o apoio da elite política de direita e financista. No entanto, falta profundidade teórica a essa crítica. Os arranjos político-ideológicos necessários para a execução de um governo de direita no Brasil extrapolam muito em complexidade a caricatura da direita neoliberal que prefere fascismo e colonialismo a desenvolvimento.

O programa de Ciro Gomes atende a diversas camadas da elite que não são neoliberais por convicção ideológica profunda, mas por estarem submetidas à hegemonia neoliberal das últimas três décadas. O neoliberalismo está em crise no mundo todo e no Brasil. Mesmo os arautos do financismo hoje reconhecem que não é possível apenas insistir no ajuste fiscal e no assistencialismo. Será preciso conter a sanha especulativa do setor financeiro e encontrar meios de financiar investimentos. Isso é discutido por agentes de vanguarda da política neoliberal, como ACM Neto e Rodrigo Maia do DEM, bem como por intelectuais e operadores diretos do capital, como Armínio Fraga, André Lara Resende etc. Em sua agenda estão, além da renegociação do Teto de Gastos e das reformas liberais com contrapartidas sociais (como a renda básica de cidadania), a ampliação do investimento público e a regulação contra a cartelização do sistema financeiro e seus escorchantes spreads bancários. Esses e outros rearranjos no discurso hegemônico respondem à profunda crise do capitalismo eclodida em 2008 e ainda em plena vigência.

Mas assumamos o pressuposto do comunista de que realmente é impossível uma alteração na correlação de forças econômicas e políticas do país no sentido de uma nova hegemonia desenvolvimentista ou neofordista, a despeito das transformações nessa direção indicadas por China, EUA e Europa. Analisemos, portanto, o argumento tático-pragmático mobilizado por ele.

Jones aponta que pragmaticamente a tática dos trabalhistas não pode ter sucesso porque o PSB não é confiável, a Rede é insignificante e Ciro não tem força eleitoral suficiente para chegar com boas expectativas de voto em 2022. Em outras ocasiões já destrinchamos o novo estado das relações entre PT, PDT e PSB. A visão de que a aliança PDT/PSB está cada vez mais consolidada não é uma miragem ingênua. Ela pode ser vista pelo resultado eleitoral: houve enfraquecimento brutal do PT, a cidadela trabalhista foi mantida no Ceará, ampliaram-se as alianças entre PDT e PSB em vários estados do nordeste, e especialmente em Recife, capital socialista dos Arraes e Campos, onde PT e PSB lutaram de modo fratricida e sem chance de reconciliação. Foi em Pernambuco que o PT impôs ao PSB a exigência de isolar Ciro Gomes em 2018. Esse cenário não existe mais. O prefeito eleito da capital pernambucana já declarou que o PT não terá nomeações em sua gestão e que o PSB tende a apoiar Ciro em 2022.

Quanto à Rede e ao PV, Jones tem razão: são pouco relevantes. Mas Marina Silva não é. Os votos dela de 2010 e 2014 já migraram para Ciro em 2018; ela entendeu isso e deve apoiá-lo, consolidando a posição do trabalhista em um naco ambientalista e intelectualizado da classe média e do meio artístico, importante por seu papel formador de opinião. Aliás, o establishment artístico de esquerda que se dividia entre Marina, o PT e o PSOL em 2010 e 2014, já fechou com Ciro em 2018 sob a liderança de Caetano Veloso, e o mesmo tende a acontecer em 2022.

Mas Jones insiste no fato de que Ciro não tem força popular para ser competitivo em 2022. Ora, a depender dos palpites de Jones sobre resultados eleitorais, Boulos teria sido eleito prefeito em vez de ter levado uma surra de 60% a 40%, Celso Russomano e Jilmar Tatto teriam ficado na frente de Márcio França no primeiro turno, Marília Arraes seria prefeita de Recife, Manuela D’Ávila seria prefeita de Porto Alegre etc. Jones faz seus desejos se passarem por análise. Nada contra. Wishful thinking é um método legítimo de militar, mas a massa da população brasileira tem se mostrado bem mais permeável ao discurso de Ciro do que as bolhas de esquerda que seguem o youtuber nas redes sociais. O Brasil real é mais complexo do que pensa a classe média de esquerda, principalmente no Ceará, onde Ciro parte de 60% dos votos. Ao contrário de um candidato como Boulos do PSOL, Ciro não tem uma base social pequeno burguesa, sua base social é o povo pobre do Ceará, que dá hegemonia aos Ferreira Gomes há 30 anos.

Além disso, as dificuldades que Jones aponta em seu texto já foram discutidas pelo próprio Ciro. Também abordei o assunto e em meu texto “O desafio de Ciro Gomes é rachar o Centrão com Doria e Bolsonaro”. É evidente que a centro-direita está fortemente submetida à hegemonia paulista de Doria, como também é evidente que o Centrão, o DEM, o PSD etc. negociam com Ciro para valorizar seus apoios aos tucanos. O que está longe de ser evidente é que a unidade do Centrão vai se repetir. Como tentei explicar em resposta a Ricardo Cappelli: a correlação de forças se alterou na esquerda em favor de Ciro e contra Lula, inviabilizando a repetição do papel crucial do petista para isolar o trabalhista em 2018.

Outra coisa que Jones não leva em conta é que as coligações seladas em São Paulo não se reproduzem automaticamente no Nordeste e nem em Minas Gerais, onde Ciro deve novamente partir de bom patamar de votação com o apoio de Alexandre Kalil, mesmo que este esteja formalmente coligado com Doria. A divisão de palanques regionais é a coisa mais normal do mundo no país continental chamado Brasil. Camilo Santana é filiado ao PT, Jones considera que o petismo governa o Ceará?

Respeito muito Jones como um jovem divulgador do que existe de melhor na tradição comunista e anti-imperialista. Mas um militante do PCB querer criticar a tática eleitoral do terceiro colocado nas eleições presidenciais fica um pouco esquisito. Tudo bem, eles são um partido revolucionário, e não eleitoral, mas como anda a tática revolucionária? Se apresentar ela em público, quem sabe possamos discuti-la, mas intuo que ele diria que ela é secreta e vai nos pegar de surpresa…

Marcos Nobre e a crítica estrutural

O pesquisador do CEBRAP participou de um debate no excelente Canal Transe. Ele discordou dos outros participantes da discussão, que acusaram Ciro de ser “errático”, pois a despeito de seu programa de esquerda e nacionalista, ele desejaria se aliar à centro-direita neoliberal, o que explicaria seus pesados e frequentes ataques ao PT.

Nobre parte do princípio de que Ciro deseja ser o candidato da centro-direita contra a extrema-direita, porque, segundo o cientista político, a direita tradicional sempre precisa “emprestar um quadro da esquerda para poder governar”, comparando-o com FHC. Inclusive, segundo Nobre, esse seria o projeto de Rodrigo Maia em 2018, que “quase conseguiu convencer o Centrão”. Já os apoios de Ciro à esquerda no segundo turno seriam meros cálculos pragmáticos sobre Fortaleza, do que não discordo.

Nobre alega que Ciro tenta repetir o sucesso de FHC como quadro de esquerda que governa com a direita. Também, que Doria não é viável, pois não é capaz de se nacionalizar, conta com enorme rejeição mesmo em São Paulo e nem sequer pode contar como sua a vitória de Bruno Covas na capital. Luciano Huck também seria inviável politicamente. Portanto, na ausência de candidatos, a candidatura da centro-direita pode cair no colo de Ciro, apesar da dificuldade que Maia teria para convencer o PSDB, MDB e outros partidos. Até aqui, concordo mais com Nobre do que com seus interlocutores no programa.

Mas, Nobre argumenta que o governo FHC foi um acordo entre desenvolvimentistas representados por José Serra, ministro do Planejamento, e monetaristas representados por Pedro Malan, ministro da Fazenda, e Gustavo Franco, presidente do Banco Central. É aqui que Nobre perde o fio da meada.

Nobre não considera que Ciro sempre esteve politicamente à esquerda de FHC e Serra. Para além dos desafetos pessoais resultantes de disputas pelo controle do PSDB, há uma nítida divergência de posição política. O PSDB surge na década de 1980 como um partido de esquerda da classe média intelectual, sendo complementar ao PT. Os dois partidos trocaram muitos quadros e fizeram muitas alianças em vários estados antes de se tornarem inimigos mortais devido à rivalidade em São Paulo. Ciro fundou o PSDB no Ceará e foi o primeiro governador eleito pelo partido, depois de apoiar Tasso Jereissati, ainda no MDB, em sua vitória contra as oligarquias cearenses de então. Por seu turno, os paulistas Serra e FHC a essa altura já haviam dado a guinada neoliberal, abandonando suas posições de esquerda de luta contra a ditadura. Serra renegou o pensamento cepalino do qual era tributário e FHC, verdade seja dita, nunca foi desenvolvimentista, mas um teórico marxista de direita, cuja grande obra, Dependência e Desenvolvimento na América Latina, é uma defesa muito precoce (1968) da globalização neoliberal como única alternativa para o Brasil.

Ciro apoia o governo de Itamar Franco, e ainda que eu concorde com críticas ao Plano Real, é um tanto forçada a caracterização de Ciro como neoliberal por ter apoiado um movimento mundial de estabilização monetária em todos os países subdesenvolvidos. É óbvio que as condições restritivas de juros altos do Plano Real foram uma imposição internacional. Havia a necessidade de atrair dólares para estabilizar o câmbio e de renegociar a dívida externa criada no Regime Militar, a fim de viabilizar a genial solução da URV, que por sua vez estancou a inércia inflacionária causada pela indexação de preços da economia – criada também pela ditadura – com a correção monetária. Feito isso, FHC é eleito com enorme popularidade, e Ciro recusa o cargo de ministro para romper com o então todo poderoso PSDB e ir para a oposição de esquerda. Veja, mesmo sendo o ministro da Fazenda que garantiu a transição, o que lhe daria condições de galgar uma boa posição, ele saiu do governo.

Portanto, é absurda a acusação de que Ciro é de direita, neoliberal ou qualquer coisa que o valha. Especialmente em comparação com FHC, ou mesmo com o PT, que seguiu à risca a política macroeconômica do antecessor. Mas a tese de Nobre vai além: Ciro seria o quadro de esquerda que permitiria a direita neoliberal ganhar a eleição – em suposta semelhança com FHC. Vamos supor que isso fosse possível politicamente e Ciro topasse esse papel.

O equívoco se demonstra na análise da crise do capitalismo. Nobre é um intelectual do CEBRAP que pensa a política a partir de uma combinação de métodos abstratos e empiristas. Seu trabalhos fornecem importantes insights para a análise política, como a tese do “pemedebismo” e do imobilismo como causas da crise política de junho de 2013, mas não é capaz de pensar o longo prazo do Brasil.

Como já dito na crítica à crítica de Jones Manoel, o Brasil e o mundo vivem uma transição, em sequência da crise de hegemonia do capital financeiro e do neoliberalismo em 2008.

FHC e toda a “esquerda” surgida após o colapso (comemorado pela USP) do populismo em 1964 assumem o poder no auge do neoliberalismo. Findava-se o socialismo real, vigorava o consenso de Washington, era decretado o Fim da História. Ernesto Laclau e Chantal Mouffe chamaram esse contexto de “pós-político”: esquerda e direita se unem para fazer ajuste fiscal do Orçamento e distribuir assistência social. Esse mundo morreu, mas o novo ainda não nasceu. Ciro não poderia, nem se quisesse, ser o FHC do século XXI.

O projeto nacional-desenvolvimentista de Ciro Gomes não é mera nostalgia do fordismo, mas uma possibilidade e um imperativo para um país periférico que teve sua industrialização interrompida. É evidente que o mundo fordista que permitia aos países desenvolver seu mercado interno com base em  substituição de importações e exportação de commodities não existe mais. É preciso que a industrialização avance para a substituição de exportações e para a inovação tecnológica de ponta, como fizeram a Coreia do Sul e a China. Esse projeto é plenamente viável, hoje mais do que nunca, com a potência das reservas cambiais obtidas por nosso pujante agronegócio, nosso já consolidado mercado interno, e o que resta de nossas estatais criadas no período anterior.

Uma crítica dependentista, seja a de esquerda de Ruy Mauro Marini, ou a de direita, de FHC, diria que isso é impossível, e que o desenvolvimento acabou para o Brasil. É esse o equívoco teórico subjacente de Nobre, mesmo que ele nem se dê conta.

A crise e a transição entre etapas do capitalismo abre nova brecha histórica para o desenvolvimentismo e o nacionalismo. A ascensão da China e sua guerra comercial com os EUA, o fim do monetarismo do FMI e do FED, a multipolaridade geopolítica com a retomada do soberanismo na Rússia de Putin, etc., criam um momento parecido com o dos anos 1930. Para quem não se lembra, foi naquela época, que um gaúcho chamado Getúlio Vargas venceu a oligarquia cafeeira paulista e iniciou a Revolução Nacional do Brasil. Em outros momentos, isso não seria possível, assim como não foi para José Bonifácio, Ruy Barbosa, ou para o Barão de Mauá, grandes líderes nacionais que defendiam a industrialização, pois as condições estruturais não estavam dadas; ao contrário dos EUA, de Alexander Hamilton e Abraham Lincoln, que conseguiu se industrializar após uma guerra com a Inglaterra por sua independência, e uma guerra civil contra a secessão e a escravidão. Nossa história é diferente, e foi no século XX, com Vargas e Juscelino Kubitschek, que logramos nos tornar uma nação industrial devido à crise interimperialista do entreguerras. E é nessa nova crise estrutural que temos nova chance.

O Brasil vai dar certo. Viva Getúlio Vargas e Ciro Gomes presidente em 2022.

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