Quem é Julian Assange para o Brasil

Parecia o roteiro de um bom filme de espionagem, esses da pena de um John le Carré. Julian Assange, um hacker e cyberativista asilado na embaixada do Equador em Londres e procurado por vazar informações secretas dos Estados Unidos, é preso por supostas acusações de crimes sexuais na Suécia. Sua defesa, ativistas e especialistas do mundo inteiro temem sua extradição para os EUA, onde estaria à mercê da cólera do Império.

Julian Assange vem causando furor na internet desde jovem. Começou a hackear nos anos 80, em sua terra natal, a Austrália. Fundou com amigos um grupo chamado de Subversivos Internacionais, dedicado a compartilhar informações ocultas do conhecimento do público. No entanto, suas experiências de juventude guardam pouca relação com os eventos que o tornariam uma lenda do século XXI.

O ativista australiano ganhou notoriedade ao fundar em 2006 o portal WikiLeaks, cuja missão é “analisar e publicar grandes conjuntos de dados [datasets] de materiais oficiais censurados ou restritos envolvendo guerra, espionagem ou corrupção”.

Graças à coragem de whistleblowers (vazadores de informações) como Chealsea Manning e Edward Snowden, o WikiLeaks publicou imagens mostrando ataques de militares estadunidenses à civis iraquianos e evidências de prisões sem julgamento nos porões da tortura em Guantánamo.

A publicação dos documentos da National Security Agency, a famosa NSA, e os documentos dos chamados “cables” – telegramas sigilosos de consulados e embaixadas estadunidenses mundo a fora – revelaram as miudezas da gestão de um império mundial.

O que era dito do Brasil nos bastidores do imperialismo estadunidense

Em função de nosso colonialismo arraigado, temos o péssimo hábito de imaginar o Brasil como um pequeno detalhe marginal no teatro mundial. Contudo, os documentos publicados no WikiLeaks mostram um país no olho do furacão global, cuja política internacional mais altiva e o domínio tecnológico na vanguarda da exploração do petróleo ameaçavam o império estadunidense cada vez mais fragilizado.

Nelson Jobim e a Defesa brasileira

Um dos telegramas vazados relata o desentendimento do então ministro da defesa Nelson Jobim com oficiais do Itamaraty. Os burocratas do ministério das Relações Exteriores teriam tentado facilitar uma “entrevista” de um pesquisador do Centro Tecnológico do Exército por “especialistas” da Agência Internacional de Energia Atômica. Esses “técnicos internacionais” supostamente neutros estariam interessados em saber como um cientista brasileiro teria obtido as informações contidas em um livro chamado “A Física dos Explosivos Nucleares”.

Nelson Jobim era criticado no mesmo telegrama por ter sido um dos maiores opositores da adesão do país a um protocolo adicional do TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear) que submetia o Brasil a inspeções regulares de “técnicos internacionais neutros”. O então ministro argumentava que o Brasil não deveria aceitar nenhuma acréscimo de suas obrigações enquanto as potências nucleares não avançassem no seu desarmamento.

Por outro lado, nestes mesmos telegramas, Nelson Jobim é qualificado pelo então embaixador dos EUA para o Brasil, Clifford Sobel, como um dos “líderes mais confiáveis do Brasil”. Em um jantar com Sobel, Jobim teria desferido críticas à “inclinação anti americana” da diplomacia brasileira, tecendo comentários negativos a respeito do embaixador Samuel Pinheiros Guimarães Neto. Nelson Jobim também teria feito revelações estratégicas sobre o estado de saúde de Evo Morales, naquela época aliado do Brasil.

Clifford Sobel argumenta nestes telegramas que o melhor aparelhamento das Forças Armadas brasileiras poderia ser positivo, desde que nosso país colaborasse para o avanço dos interesses estadunidenses no mundo. Contudo, classifica o programa do submarino nuclear brasileiro como um “elefante branco”

Outro telegrama, oriundo da embaixada estadunidense em Paris, reporta com preocupação a respeito dos encontros entre Lula e Sarkozy. O motivo: naquela época, os EUA disputavam com a França e com a Suécia o privilégio de fornecer os caças para o reaparelhamento da Força Aérea do Brasil.  A autonomia da política externa brasileira incomodava o império.

Os tentáculos onipresentes da NSA na alta cúpula nacional

O alcance das arapongas imperialistas era impressionante. A lista de autoridades brasileiras espionadas pela NSA revelada por Edward Snowden era extremamente abrangente: Nelson Barbosa, então secretário executivo do ministério da Fazenda; Luiz Awazu Pereira da Silva, um dos diretores do Banco Central àquela época, o próprio Antônio Palocci, então ministro da Fazenda, além de dezenas de outras autoridades nacionais de alto escalão, incluindo os principais embaixadores do Brasil.

A própria Presidência da República foi objeto de uma espionagem intrusiva. O e-mail pessoal de Dilma Rousseff, quatro números de telefone do escritório da presidenta e até mesmo os telefones de sua secretária e de seu assessor pessoal foram grampeados. Nem mesmo o telefone por satélite do avião presidencial brasileiro escampou da espionagem estrangeira.

Dada a abrangência e o quilate das autoridades nacionais espionadas, não é absurdo presumir que muitas das informações de valor estratégico do país estariam nas mãos de tomadores de decisão estadunidenses. Mas a pergunta que cabe é a seguinte: qual seria a agenda do Império no Brasil? Vimos a questão da defesa discutida pelo embaixador Clifford Sobel. Haveria alguma outra?

A cobiça do Império pelo petróleo do Brasil

O WikiLeaks divulgou uma coleção de telegramas de 2009 envolvendo o então candidato pelo PSDB José Serra, a diretora de relações governamentais da Chevron Patrícia Padral e a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile. Em documento intitulado “a indústria do petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?”, os executivos das grandes petroleiras expressam descontentamento com o modelo de exploração das gigantes reservas nacionais proposto pelo governo federal da época e discutem possíveis caminhos para debandar a legislação brasileira.

Apesar das críticas ao modelo do pré-sal, o documento deixa claro que as petroleiras não tinham nenhum interesse de sair do Brasil. Também fica nítido que a presença chinesa cada vez mais marcante no mercado brasileiro incomodava as gigantes internacionais. Era quase uma premonição das ações de Bolsonaro uma década mais tarde.

Em documentos vazados em outro meio (pelo Intercept) a respeito do programa PRISM da NSA, mostram que a Petrobras constava em um papel de treinamento dos espiões do império. A arapongagem abarcava inclusive as decisões de cunho econômico e não parece difícil imaginar que também visava a tecnologia nacional de ponta, única capaz de extrair os óleos de águas profundas tal como do pré-sal.

O Império contra-ataca: o golpe no Brasil e a prisão de Assange

Qualquer grande predador quando acuado se torna muito mais perigoso.

Os Estados Unidos é um império decadente. Uma geração inteira de jovens vegeta no desemprego causado pela desindustrialização sob o peso do endividamento estudantil. As crises financeiras enfileiram-se uma após a outra em uma economia cada vez mais fragilizada e distanciada da realidade. É uma potência mundial entre a cruz do déficit público crescente e a espada do desemprego.

Esse império enfraquecido, mas ainda muito poderoso, não dispõe mais de espaço para tolerar desafios a sua hegemonia decadente. É por isso que a ameaça representada pelo Brasil – ainda que tímida e hesitante sob o liberalismo petista – com sua tecnologia de ponta na área da defesa e da cadeia de óleo e gás, teve de ser destruída.

Rafael Correa entendeu o papel contra hegemônico desempenhado por Julian Assange e deu abrigo ao ativista. O hacker australiano trouxe à luz do debate público um assunto que foi ridicularizado pela grande mídia brasileira: o papel da espionagem estrangeira no Brasil e os interesses imperialistas que procuram nos submeter.

Desde 2013 é nítido o papel desestabilizador de movimentos com fortes vínculos com os EUA, como Vem Pra Rua e MBL. Tal fenômeno não é estranho na literatura especializada sobre Inteligência, abarcado no conceito de Guerra Híbrida. As eleições de 2018 foram marcadas pela interferência estrangeira em redes sociais cuja tecnologia foge ao alcance do Brasil.

Não se pode separar a prisão de Julian Assange deste recrudescimento do imperialismo estadunidense. É crescente a relevância da espionagem na manutenção da hegemonia dos Estados Unidos. O golpe de 2016 no Brasil e as eleições de 2018, ambos eventos com indeléveis traços de guerra híbrida, explicitam a importância das pequenas frestas que nos permitem enxergar o aparelho de arapongagem mundial usado para submeter nosso país. Este é Julian Assange para o Brasil.

A prisão de Assange não é o roteiro de um filme de espionagem de John le Carré. A realidade é muito pior.

Referências:

https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO689_a.html

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po0901201105.htm

https://wikileaks.org/Nos-bastidores-o-lobby-pelo-pre.html

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/WikiLeaks-NSA-espionou-assistente-pessoal-de-Dilma-e-aviao-presidencial/6/33915

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Wikileaks-expoe-diplomacia-dos-EUA-e-chamusca-Jobim/6/16374

https://www.camara.leg.br/sileg/integras/1458252.pdf

https://www.fup.org.br/ultimas-noticias/item/21987-isencao-trilionaria-e-a-cereja-do-bolo-da-entrega-do-pre-sal

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/09/130908_eua_snowden_petrobras_dilma_mm

https://theintercept.com/2015/06/29/brazilian-president-dilma-rousseffs-flip-flop-nsa-spying/

https://wikileaks.org/nsa-brazil/selectors.html

https://wikileaks.org/nsa-brazil/press.br-pt.html

https://www.nsa.gov/Portals/70/documents/news-features/declassified-documents/cryptologic-spectrum/early_history_nsa.pdf

https://www.conversaafiada.com.br/mundo/2010/11/30/escandalo-jobim-e-ministro-da-defesa-dos-eua

https://wikileaks.org/wiki/PRISM_(military)https://www.dw.com/pt-br/interesse-dos-eua-na-petrobras-iria-al%C3%A9m-da-tecnologia/a-17100897

 

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