Kissinger, Spykman e a China: lições para o Brasil

No ano de 1920, um holandês de vinte e sete anos surgiu nos Estados Unidos. De trajetória misteriosa, este homem chamado Nicholas Spykman tinha passagem pelo Egito e pela Índia, havendo atuado como jornalista e agente secreto do governo holandês.

Em terras norte-americanas, logo tornou-se professor de relações internacionais na Universidade de Yale e naturalizou-se americano. De acordo com Perry Anderson, Spykman tinha a estatura intelectual de um Morgenthau ou Kelsen, outros europeus em solo estadunidense.

Pouco depois do ataque japonês a Pearl Harbor, Spykman publicou um livro chamado America’s Strategy in World Politics (A estratégia dos Estados Unidos na política mundial), no qual defendeu as ideias responsáveis por retirar os EUA de um certo “isolacionismo” que norteava sua postura diante das questões internacionais.

Nos anos iniciais do século XX, os Estados Unidos já haviam participado como fiel da balança na primeira grande guerra mundial (1914-1918) e testado uma iniciativa globalista a partir da disposição do presidente Woodrow Wilson de criar uma ordem econômica liberal liderada pelos Estados Unidos e tutelada por uma Liga das Nações, espécie de ensaio do que veio a ser a ONU três décadas mais tarde.

Mas a tentativa de Wilson falhou e, dois anos após o fim da I Guerra Mundial, Warren Harding impôs a maior derrota eleitoral da história moderna ao sucessor de Wilson, James Cox, que encabeçava uma chapa com o futuro presidente Franklin D. Roosevelt. Os EUA retornavam à “normalidade”.

O que Spykman alertou em seu livro é que, no sistema internacional, seria idealismo presumir que qualquer forma de equilíbrio se estabelecesse entre as nações. A realidade atestava que os Estados buscavam atingir equilíbrios somente em seu favor, ou seja, mantendo e ampliando suas fontes de poder. Assim, o objetivo da política externa deveria ser alcançar uma margem de poder sobre os Estados rivais por meio da persuasão, da compra, da troca e da coerção.

Um argumento importante para o isolacionismo era a posição satisfatória de liderança dos Estados Unidos na área das Américas. Spykman contrapôs a essa ideia a concepção de que o poder americano não se estenderia “naturalmente” sobre todas as nações: mais distantes do centro do poder, os países do ABC (Argentina, Brasil e Chile) seriam suficientemente capazes de rivalizar com os Estados Unidos a partir do Cone Sul.

Inclusive, a região do ABC só seria definitivamente subjugada por meio do conflito militar direto, de acordo com Spykman. Pretender organizar uma defesa hemisférica diante do resto do mundo, portanto, seria uma decisão sem fundamentos.

Espantosamente certeiro e contraintuitivo, dado o contexto de conflito aberto entre EUA e Japão, o autor chegou a afirmar que o objetivo americano depois da guerra deveria ser reconstruir o Japão, pois a verdadeira ameaça asiática se tornaria a China.

Passadas algumas décadas, o importante diplomata americano Henry Kissinger, compreendeu que a receita de Spykman estava correta, mas que a América do Sul poderia ser dominada também através de guerras internas, promovidas por setores das Forças Armadas de seus próprios países contra o nacionalismo e os projetos de integração regional*. O continente seria a primeira fronteira na defesa da hegemonia dos Estados Unidos.

LIÇÕES DE UM SÉCULO DEVASTADOR

O já aclamado livro Sobre a China de Henry Kissinger, ex-secretário de Estados dos Estados Unidos durante os mandatos dos presidentes Nixon e Ford, continua a ser um material rico em tempos de ascensão do poderio chinês e tensões geopolíticas mundo afora, envolvendo principalmente os EUA.

O papel de Henry Kissinger na política internacional da segunda metade do século XX é conhecido. Uma série de envolvimentos com as ditaduras militares na América do Sul acompanham sua trajetória de ator fundamental na reconciliação diplomática entre EUA e China, como estratégia dos Estados Unidos de antagonizar com a União Soviética durante a Guerra Fria.  

Em seu livro, Kissinger descreve como a China reagiu à profunda crise de soberania que a atingiu em meados do século XIX.

Desde fins do século XVIII, a Inglaterra, já consolidada como primeira e principal potência industrial do mundo, desejava obter a abertura do mercado chinês para os seus produtos. Como se sabe, todo o sistema de divisão internacional do trabalho do capitalismo moderno constituiu-se sob os impulsos das exportações de manufaturas inglesas, e parte nenhuma do planeta passou despercebida deste processo.

A China, que até então se considerava “Império do Meio”, ao redor do qual todos os outros povos “bárbaros” orbitavam e cujo Imperador governava “Tudo Sob o Céu”, tampouco sobreviveu intacta ao surto exportador britânico ativado pela Revolução Industrial.

Na verdade, o exato oposto ocorreu. Três missões diplomáticas britânicas entre 1793 e 1834, interrompidas pelas Guerras Napoleônicas durante a primeira quinzena do século XIX, fracassaram em obter dos chineses a plena liberdade de comércio. O mercado chinês era extremamente regulado pela burocracia imperial, e somente um porto chinês, sob dadas condições, era acessível sazonalmente aos comerciantes estrangeiros.

Em 1839, após uma série de tensões envolvendo o tráfico de ópio por parte dos britânicos e diversas humilhações diplomáticas do Imperador da dinastia Qing sobre os emissários da Rainha Vitória, Inglaterra e China travaram a Guerra do Ópio, vencida facilmente pelos primeiros.

Com a derrota, os chineses se viram obrigados a assinar o fortemente desfavorável Tratado de Nanquim, que assegurava a cessão do território de Hong Kong aos britânicos, a abertura de cinco portos ao comércio externo (Ningbo, Xangai, Xiamen, Fuzhou, além do já aberto Guangzhou), e direitos de jurisdição dos britânicos sobre os seus cidadãos que residissem nos portos liberados pelo tratado.

De acordo com Kissinger, isso operacionalmente significava que os traficantes de ópio em território chinês estariam submetidos às leis britânicas, não às chinesas. O resultado foi um enfraquecimento do poder imperial e o desencadeamento de rebeliões internas.

A ofensiva estrangeira sobre a soberania chinesa, então, mostrou-se avassaladora. Cercada pelo poderio britânico na Índia e pela supremacia naval britânica em seu litoral, a China deparou-se com a expansão russa ao norte e com as pretensões japonesas no leste.

Qualquer outro país, nas mesmas condições, poderia ter sua unidade territorial devastadoramente fragmentada sob zonas de influência e presença direta de potências estrangeiras. Não foi o caso chinês.

Em dado momento, a própria burocracia chinesa passou a fomentar uma série de “tratados desiguais”, desvantajosos para a China, com outras potências ocidentais. Wei Yuan (1794-1856), funcionário do Império, mapeou potenciais adversários geopolíticos dos britânicos, como a França, os Estados Unidos e a Rússia, e convidou-os a usufruir das mesmas vantagens adquiridas pela Inglaterra. O princípio da “Nação mais favorecida”, nivelava as pretensões estrangeiras sobre a China.

O função desta estratégia era “jogar bárbaros contra bárbaros”, colocar as  potências externas para brigar entre si e fazer a China emergir como mediadora. Dessa forma, a posição relativa de Londres na política internacional poderia ser enfraquecida enquanto os chineses utilizavam o escasso tempo para recuperar e modernizar suas forças.

Num fantástico exercício de comparação, Kissinger diferencia a noção de estratégia chinesa da estratégia ocidental, a partir dos jogos de intelecto prediletos na China e no Ocidente.

Enquanto, para os ocidentais, o Xadrez é o jogo mais popular, para os chineses trata-se do Wei Qi. O Xadrez é um jogo de batalhas definitivas, onde o objetivo é buscar a destruição do inimigo em sua derrota total, literalmente eliminando o seu Rei. Já no Wei Qi, o objetivo é vencer a partida evitando um conflito direto e generalizado. É um jogo de cercos estratégicos e confrontos múltiplos.

Essa dimensão de cerco estratégico foi incorporada pela estratégia militar chinesa, mas também pela própria atividade de governar. Sun Tzu, autor do famoso A Arte da Guerra, foi o grande aglutinador de toda essa filosofia em termos de estratégia: o contexto geral é sempre mais amplo do que a situação particular, logo, o próprio conflito depende de sentidos evolutivos mais amplos do que as meras peças já postas em combate. O estrategista é responsável por captar as tendências das forças em transformação, fazendo da política e da guerra um campo unificado.

Clausewitz, o clássico ocidental em teoria da guerra, considera a guerra como uma continuação da política por outros meios.  Para o militar prussiano, o conflito pelo poder atinge a soma zero com a deflagração da violência entre adversários cujos objetivos são fundamentalmente excludentes.

Em sentido contrário, Sun Tzu considera como vitória aquela para a qual a própria batalha tornou-se desnecessária. A razão militar não exclui a razão política.

No caso da Guerra do Ópio, o que parecia uma imposição insuperável de força da parte britânica, o Tratado de Nanquim, foi visto pelos chineses como um movimento particular dentro de uma vasta paisagem estratégica. O Império chinês assumiu a posição surpreendente de defender em tom positivista o conteúdo do Tratado, com todas as desvantagens que ele trazia. Em consequência, o limite para as progressivas demandas do inimigo já estaria dado de antemão.

Naturalmente, o século XIX foi catastrófico para o povo chinês. Com sensibilidade e capacidade para lidar com questões tão complexas, a burocracia chinesa se viu assolada por turbulências populares que contestavam a autoridade palaciana e repetidos conflitos externos portando os imperativos de uma abertura econômica cada vez maior.

Em fins do século, a elite chinesa, comandada pela insurgente Imperadora Cixi, abandonaria as formulações de Wei Yuan e outros que apontavam para a mesma direção estratégica e reformadora de fortalecimento da nação. Ao optar pela guerra simultânea contra todas as potências inimigas, a vitória estrangeira definitivamente chegou, vindo até mesmo a capital chinesa a ser ocupada militarmente pelos europeus.

Com poucas exceções, a unidade territorial da China se manteve e o país sobreviveu ao século XIX, condição indispensável para os feitos que se seguiram um século mais tarde e que nos trazem ao cenário atual.

CAMINHOS DO BRASIL

A partir da experiência chinesa e da teoria e ação geopolítica dos Estados Unidos, maior potência econômica e militar do mundo desde 1945, podemos avaliar que a estratégia nacionalista brasileira não necessariamente deverá se dar em termos de rivalidade explícita com as grandes potências.

O Brasil vive uma situação drasticamente diferente da situação chinesa no século XIX. Ao contrário da China, que se encontrava “protegida” por uma distância enorme da grande potência britânica, o Brasil encontra-se na primeira linha de defesa da hegemonia global dos Estados Unidos. Sob termos de competição e rivalidade sistêmica, este é um fator desafiador ao nosso desenvolvimento autônomo.

Exatamente por isso, a política externa brasileira deve cuidar para que jamais haja um conflito aberto entre o país e o poder hegemônico mundial. Não se trata de um argumento de inferioridade natural, mas de um cálculo que deve ser feito a partir da experiência histórica com a qual já podemos contar.

Não é do interesse nacional, por exemplo, que a crise atual na Venezuela desemboque em qualquer espécie de intervenção externa, fato que fragilizaria ainda mais a nossa posição geográfica em relação aos enclaves de poder dos Estados Unidos e seus aliados fundamentais.

Tampouco é necessário tratar os Estados Unidos como inimigo natural e incondicional do Brasil, o que boa parte de espectros políticos catastrofistas fazem. Ainda que as vozes de Spykman e Kissinger ecoem com força em nossos ouvidos, congelar este elemento constitutivo da nossa história e da geopolítica da América do Sul seria abrir mão do sentido evolutivo da paisagem estratégica em constante transformação. Não foi o alinhamento sino-americano contra a URSS um dos mais inesperados e definidores movimentos da Guerra Fria?

Mais que o triunfo militar, podemos aprender com os chineses que a verdadeira vitória é a “realização dos objetivos políticos supremos que o conflito militar pretendia assegurar”, na leitura do próprio Kissinger.

Retornando a Sun Tzu:

O Estrategista habilidoso

Derrota o inimigo

Sem batalhar.

(…)

O exército vitorioso

É vitorioso primeiro

E busca a batalha depois;

O exército derrotado

Realiza a batalha primeiro

E busca a vitória depois.

 

*Um ótimo texto sobre o tema é “Henry Kissinger e a América do Sul”, de José Luis Fiori.

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