Ataques de Laura Carvalho e Duvivier a Ciro são um erro

Ontem pela manhã abri naturalmente meu Twitter depois de tomar um bom café (lembro do café porque realmente estava muito bom) e eis a surpresa: do nada pinga na minha TL um tuíte atacando Ciro Gomes vindo da economista progressista Laura Carvalho, professora da FEA, colunista do jornal Folha de São Paulo e que ajudou em parte do programa do ex-candidato à Presidência Guilherme Boulos do PSOL. A crítica muito fora do tom foi reproduzida com entusiasmo na blogosfera petista, que já procura um culpado pelo possível fracasso eleitoral. Reproduzo-a abaixo:

“Quer dizer que o projeto de país do Ciro Gomes é deixar o caos prevalecer pra chegar em 2022 dizendo que avisou? Corre o risco de acabar como Marina Silva. Isso se tiver eleição em 2022.”

Entendo o momento tenso e de raiva com o cenário desfavorável, de fato as circunstâncias são bastante complicadas para as forças progressistas, contudo é preciso não deixarmos que a verdade pereça ante ânimos acirrados: é um erro muito grande atacar Ciro Gomes dessa forma. E mais: insinuar que seu projeto de país é deixar o caos prevalecer como se onipotente fosse é atribuir-lhe um poder e uma culpa que ele não possui e ignorar todo o contexto que nos trouxe até aqui.

Ciro Gomes há mais de duas décadas tem denunciado os equívocos da política econômica neoliberal e desmandos políticos, à esquerda e à direita, de forma indistinta, e tem, com o seu talento, indiscutivelmente uma das cabeças mais inteligentes do País, buscado propor saídas. Há mais de seis anos ele vem percorrendo universidades e o Brasil inteiro a mostrar suas idéias e a defender um projeto nacional-desenvolvimentista. Suas propostas são claras, estão bem dispostas no seu programa de governo, bem amarradas e foram muito elogiadas – até por quem ideologicamente é antagônico a ele, inclusive economistas ortodoxos de enorme gabarito. É desonesto asseverar que seu projeto de país é deixar o caos prevalecer só porque sua adesão à candidatura de Fernando Haddad é crítica (e como se houvesse opção de um apoio acrítico ante a eterna negação de autocrítica do PT).

É por exemplo ignorar o que o Partido dos Trabalhadores fez durante a sua campanha, quando agiu para isolar Ciro e quando sabidamente resolveu apostar numa tática suicida – e que todo mundo com dois neurônios sabia que era arriscada. E é mais do que isso: é tratar o povo e a esquerda como gados, que devem seguir e obedecer cegamente seus donos – ou então o chicote. O que me impede de criticar o PT, seus governos anteriores, sua tática eleitoral de altíssimo risco e mesmo assim dar apoio crítico para o Haddad e lhe pedir votos? Não são coisas contraditórias. Pelo contrário: é uma atitude madura em um momento que exige maturidade.

A interdição da crítica, ora alegando perigo de fazer o jogo da direita, ora o perigo golpista ou ora evocando o medo de um governo fascista, não tem se mostrado a postura mais sensata. A esquerda progressista da qual a estimada economista faz parte com contribuições importantes precisa repensar esse adesionismo cego aos ditames petistas – por mais bem intencionados que esses movimentos sejam. Essa tática não tem nos ajudado a construir nada. Apenas diante do pânico, seja lá por qual motivo, a busca instintiva pelo lugar supostamente mais seguro – e que sempre acaba sendo o PT. E a cúpula petista, sabendo disso, aposta reiteradas vezes na mesma tática. Alguns compram. Poderíamos ser melhores do que isso e o Ciro Gomes mostrou, como disse o jornalista Leandro Sarubo em resposta a esse mesmo tuíte que reproduzi acima, existir a possibilidade de uma nova via, tendo Ciro um projeto bem articulado e autônomo ao petismo e ao lulismo – e daí porque  ferido de morte por aqueles que não admitem autonomia e a possibilidade de um novo discurso e rosto no campo progressista. Um projeto para hoje, 2018, e não para 2022, como alega Carvalho muito equivocadamente.

Ainda na esteira do comentário da Carvalho, o ator e comediante Gregório Duvivier tuitou que Ciro estaria a se igualar a Marina e insinuou que seu apoio a Haddad era covarde. Aqui novamente algo que julgo um grande equívoco. E em dose dupla: primeiro ignorar o apoio do Ciro, que existe, foi dado e expressado já antes do fim do primeiro turno (Ciro disse que entre Haddad e Bolsonaro, que votaria no Haddad), no dia mesmo da eleição (rechaçou qualquer possibilidade de apoiar Bolsonaro e soltou o famoso “aí dento”) e posteriormente através de reunião do PDT (que anunciou apoio oficial a Haddad); e também ao negar tacitamente o que o PT fez à Marina Silva na eleição passada – o que, aliás, ajudou a elevar o nível de radicalização do pleito e da política brasileira, isolando uma terceira via moderada, e que, vejam só, arrebentou a possibilidade da construção de pontes que hoje seriam fundamentais. De novo temos aqui nas palavras de Duvivier a defesa de uma adesão acrítica. E de novo: podemos nos postar de forma melhor do que isso. Muito melhor.

Para encerrar, é fundamental melhorarmos na qualidade das críticas nesses últimos dias de campanha antes de ficarmos procurando bodes expiatórios inexistentes. É claro que há culpados, mas eles não são Ciro, Marina, nem Laura Carvalho e nem Gregório Duvivier – que erraram, erram e vão errar, humanos que são, mas em outras questões e que não têm absolutamente nada a ver com a dança à beira do precipício que pode nos levar para o desastre. Precisamos ser razoáveis nesse momento. E precisamos inverter urgentemente a máxima que diz que na guerra a primeira vítima é sempre a verdade. Devemos ter a verdade e a honestidade ao nosso lado. Porque são elas os últimos bastiões que nos separam da barbárie.

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