JONES MANOEL: A importância da longa duração na análise histórica

Uma das maiores discordâncias que eu tinha com Domenico Losurdo era a importância que ele atribuia a longa duração na análise histórica. Eu achava até 2017 que esse tipo de análise – especialmente devido ao meu contato com a teoria do sistema-mundo – tende a esquecer a luta de classe nas mais diversas conjunturas e tomar o resultado das lutas como o único possível, racionalizando o “que foi” como o único que “poderia ter sido” dentro de uma explicação sistêmica que termina se configurando como um processo sem sujeito(s).

Acompanhando o debate sobre a nova ascensão da extrema-direita e do fascismo no mundo, mudei um pouco de posição. Nesse tema, em especial, sem a perspectiva da longa duração, a tendência é cair em banalidades teóricas totalmente míopes na análise histórica.

Por exemplo. Imagine que estamos em 1910. Qual era a situação do mundo?

– 3/4 do mundo eram colônias onde vigorava diversas formas de apartheid, formas de exploração análogas à escravidão, campos de concentração, políticas de extermínio etc.

– A maioria das democracias burguesas nos países centrais do capitalismo se configuravam como sistemas políticos constitucionais aristocráticos com diversas cláusulas de exclusão para mulheres, trabalhadores, povos de origem colonial, imigrantes etc.

– Não existiam direitos sociais, econômicos e trabalhistas para a maioria dos trabalhadores do mundo. A lei geral da acumulação capitalista, a máxima concentração de riqueza em um polo e a máxima concentração de pobreza em outro, estava funcionando sem contratendências significativas.

Quando esse quadro mundial passa a mudar? Com a Revolução de Outubro, o nascimento do movimento comunista, o posterior campo socialista e o movimento anticolonial mundial.

Entre 1920 e 1980, foi a primeira vez na história do capitalismo, uma exceção histórica e não regra, que relações de trabalho análogas às escravidão passaram a ser combatidas na maioria do mundo; direitos sociais, econômicos e trabalhistas foram criados em massa, a descolonização varreu o globo (lembre: entre o século XIV e XX, o colonialismo só cresceu, o pós-Segunda Guerra Mundial, nessa temática, mostra uma virada na curva histórica); os sistemas constitucionais da burguesia incorporam juridicamente a soberania popular fragilizando o componente aristocrático desses sistemas etc. etc. etc.

Mas tudo isso, se bem olhado, foi uma curva histórica contrária a tendência geral da história do capitalismo. Foi uma contratendência civilizatória de mais ou menos 60 ou 70 anos que, concretamente, tomou o mundo menos odioso para se viver.

Todas essas contratendências sumiram. O impulso da Revolução de Outubro sumiu do mundo enquanto força política real.

O que impede de traficar pessoas como escravas em Trípoli? Destruir todos os direitos trabalhistas no Brasil? Matar imigrantes no Mediterrâneo? Aprovar um regime de Apartheid aberto em Israel? Nada, um grande, nada.

Como eu disse em um artigo de 2016: esse é o mundo pós-soviético. O mundo sem qualquer ameaça aberta e forte ao capitalismo. Assim como no século XIX.

Qualquer análise da “nova direita global” que desconsidera essa longa duração histórica, tende a cair em erros.

Por Jones Manoel

Deixe uma resposta