López Obrador: o Populismo vence no México

Após perder as eleições presidenciais mexicanas em 2006 e 2012, Andrés Manuel López Obrador venceu este domingo (01). Sua posse está prevista para 1º de dezembro, data que marcará o final de um longo processo de transição de poder. O político da esquerda, que concorreu como o candidato antiestablishment, iniciará seu mandato de seis anos à frente da segunda maior economia latino-americana, em sucessão a Enrique Peña Nieto.

Andrés Manuel López Obrador no encerramento da campanha presidencial na Cidade do México, em 27 de junho de 2018.
Andrés Manuel López Obrador no encerramento da campanha presidencial na Cidade do México, em 27.06.20

Cerca de 89 milhões de cidadãos foram às urnas para eleger o presidente do país e outros 18 mil cargos públicos, entre eles governadores, prefeitos e deputados locais e federais.

No país não há segundo turno e, com a divulgação da pesquisa de boca de urna que projeta uma vitória com mais de 50% dos votos, seus principais concorrentes, José Antonio Meade (PRI), Ricardo Anaya (PAN) e Jaime Rodríguez Calderon, já reconheceram a vitória de López Obrador. O resultado oficial deve sair hoje (02).

Nas últimas nove décadas o México foi governado pela direita, quase sempre pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), afastado do poder por 12 anos, de 2000 a 2012, quando os também conservadores do Partido da Ação Nacional (PAN) assumiram a presidência do país. A vitória de López Obrador representa, então, uma inédita virada à esquerda na história democrática mexicana.

Apresentando-se ao eleitorado como o candidato mais à esquerda desde Lazaro Cardenas que, ao chegar no poder em 1934, distribuiu terras pelos camponeses e nacionalizou as indústrias estrangeiras, inclusive as petrolíferas, o candidato da coalizão de esquerda Movimento Regeneração Nacional (Morena) chega à presidência num movimento político que vai na contramão das soluções mais conservadoras que vêm crescendo na América Latina. Suas promessas são de combate a desigualdade, aumento dos salários e dos gastos com o Estado Social.

“O Estado deixará de ser um comitê a serviço de uma minoria: representará todos os mexicanos, ricos e pobres”, disse ele. “Ouviremos, atenderemos e respeitaremos todos, mas daremos preferência aos mais humildes e aos esquecidos”. Uma de suas frases mais representativas desde que começou a concorrer para presidência, há 12 anos, é: “Para o bem de todos, primeiro os pobres”.

López Obrador, que tem na luta contra a corrupção sua grande bandeira, afirmou que seu governo manterá a disciplina financeira e fiscal e que os compromissos assumidos com empresas e bancos nacionais e estrangeiros serão reconhecidos. Aposta no mercado interno, com preços controlados e na revisão da abertura do setor de petróleo ao capital privado, afirmando que os contratos do setor energético com empresas privadas “serão revisados para prevenir atos de corrupção ou ilegalidade: se encontrarmos anomalias que afetem o interesse nacional iremos ao Congresso da União [Legislativo] e aos Tribunais nacionais e Internacionais”.

Carlos Urzua, que comandará o Ministério das Finanças, em reunião com mais de 65 fundos de investimento, disse que Obrador, por outro lado, está comprometido em dar autonomia ao banco central, com uma livre flutuação de moeda, com o livre comércio e com a manutenção de um controle sobre gastos. Ainda, que lutará pela preservação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA).

A estratégia em relação aos cartéis de droga no país será a de menor confronto, abrangendo algumas hipóteses de anistia. Só na última década, os combates entre o Exército e os traficantes já resultaram em cerca de 230 mil mortes.  Sobre o crime organizado, disse: “não é possível viver num país em que morrem cerca de 89 pessoas por dia. Mas combateremos o crime sem desrespeitar os direitos humanos.”

Reunido com dezenas de milhares de apoiadores nesta madrugada (02) no centro histórico da capital mexicana, em seu primeiro discurso como presidente eleito do México durante a contagem rápida do Instituto Nacional Eleitoral, Obrador afirmou que este é um dia histórico, e convocou todos os mexicanos à reconciliação e a por acima dos interesses pessoais, por mais legítimos que sejam, o interesse superior. Anunciou que seu projeto de nação perseguirá uma autêntica democracia e que as mudanças serão profundas.

Afirmou que sua primeira medida será dobrar as pensões de reforma e que mudará a estratégia de combate à insegurança e à violência, uma vez que, segundo ele, “paz e tranquilidade são os frutos da justiça”. Anunciou que seu governo elaborará um “plano de reconciliação e paz para o México ” e, para tanto, convocará representantes de direitos humanos, líderes religiosos e a ONU, entre outros.

Apoiadores de López Obrador se reúnem na Praça Zócalo, na Cidade do México. Foto por Ronaldo Schemidt/AFP
Apoiadores de López Obrador se reúnem na Praça Zócalo, na Cidade do México. Foto por Ronaldo Schemidt/AFP

“Confesso que tenho uma ambição legítima: entrar para a história como um bom presidente do México”, disse ao final de seu discurso.

Populista

López Obrador é descrito pela imprensa internacional como um populista, diante de suas propostas de corte dos salários dos altos funcionários, de sua pretensão em viver numa casa de classe média e não na residência oficial, Los Pinos, que será transformada em um museu, e na intenção de vender aviões e helicópteros oficiais.

Ao populismo, o novo líder soma os ideais nacionalistas e a crítica implacável aos adversários políticos. Uma resposta apta a fazer frente à reviravolta política antiestablishment que tomou conta do ocidente, efeito da terra arrasada deixada para trás pelo neoliberalismo.

O teórico Ernesto Laclau, em sua obra A Razão Populista, extrai o populismo da marginalidade política e o insere como um modelo central apto a expandir as bases democráticas dentro da sociedade.

Diferentemente das visões mais propagadas sobre o tema, que consistem em afirmar a presença de um líder carismático e das massas em prol do enfraquecimento da democracia, Laclau sustenta que esse fenômeno é responsável por reunir o povo ao redor de demandas não atendidas pelas instituições formalmente constituídas.

O autor destaca que a presença do populismo na América Latina é um componente benéfico, uma vez que, ao garantir a participação do povo nas decisões políticas, termina por fortalecer a democracia e evitar que ela seja reduzida a um sistema tecnocrático influenciado por interesses econômicos de grupos dominantes.

Repercussões

Enrique Peña Nieto, presidente do México

Enrique Peña Nieto, reconheceu neste domingo (01) a vitória do líder de esquerda e declarou: “Faz uns minutos me comuniquei com o vencedor da eleição presidencial para expressar-lhe que ele e sua equipe de trabalho contarão com a colaboração do Governo da República para realizar uma transição ordenada e eficiente”, declarou o presidente.

Donald Trump, presidente dos EUA

O presidente norte-americano Donald Trump, em sua conta oficial no Twitter, deixou a seguinte mensagem: “Parabéns a Andrés Manuel Lopez Obrador por se tornar o próximo presidente do México. Estou muito ansioso para trabalhar com ele. Há muito a ser feito para beneficiar tanto os Estados Unidos quanto o México”.

Tweet de Donald Trump parabenizando Lopez Obrador

Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá

Justin Trudeau, emitiu declaração para parabenizar Obrador por sua vitória nas eleições mexicanas: “Estou ansioso para trabalhar estreitamente com o presidente eleito López Obrador, sua administração e o Congresso mexicano para construir uma parceria vibrante entre nossos dois países, criar um crescimento econômico que beneficie a todos e avançar nos direitos humanos e na igualdade”, afirmou, completando que “Juntos, podemos aprofundar nossas fortes relações e moldar um futuro melhor para os mexicanos e canadenses”.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

Nicolás Maduro, em sua conta no Twitter, também parabenizou Obrador, afirmando que a verdade triunfou sobre a mentira e que a esperança se renova no México.

Tweet de Nicolas Maduro parabenizando Lopez Obrador

Evo Morales, presidente da Bolívia

Evo Morales afirmou, em sua conta no Twitter, que está seguro que o governo de López Obrador escreverá uma nova página na história da dignidade e soberania da América Latina.

Tweet de Evo Morales parabenizando Lopez Obrador

Lenín Moreno, presidente do Equador

Lenín Moreno felicitou Obrador através de seu perfil no Twitter, afirmando que continuarão estreitando os laços e unindo as esperanças.

Tweet de Lenin Moreno parabenizando Lopez Obrador

Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia

Juan Manuel Santos também parabenizou López Obrador pelo Twitter, desejando a manitenção das excelentes relações entre Colômbia e México.

Tweet de Juan Manuel Santos parabenizando Lopez Obrador

Por Beatriz Miquelin e Isabella Lofrano.

Deixe uma resposta