GUSTAVO CASTAÑON: Cronus continua devorando seus filhos

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes” – Albert Einstein

A visão de Lula, um senhor de 73 anos que era recebido com pompas em palácios e parlamentos, entrando pela porta de uma prisão para dar entrevistas, depois de meses silenciado inconstitucionalmente, causa revolta e comoção.

Causa revolta principalmente porque qualquer brasileiro que raciocine sabe que Lula está preso numa operação do Departamento de Estado Americano, uma nova operação Condor judicial que se espalha por toda América Latina. Não é por um triplex e um sítio que nunca foram dele. Causa comoção porque Lula foi um presidente que, embora mediano, fez muito mais bem do que mal ao Brasil, principalmente à parcela mais pobre da população.

E a revolta e comoção são péssimas lentes para a realidade.

Porque a realidade é que a montanha pariu um rato. Esperada como um grande evento messiânico por parte da militância petista e apocalíptico por parte do governo, a entrevista de Lula só mostrou um homem moído preso num tempo que não existe mais, sem conseguir mais pensar o país nem sair do labirinto interno de ódios que nega sentir de dois em dois segundos. Humano, demasiado humano.

Houve pontos altos, como a denúncia do imperialismo americano assaltando o país.

Mas a entrevista “chapa vermelha” cuidadosamente preparada e articulada com Florestan Fernandes Júnior e Mônica Bergamo não ofereceu qualquer saia justa ao ex-presidente, que deve ter proibido perguntas sobre suas manobras para chantagear o PCdoB e destruir Ciro e o PSB em 2018. As perguntas eram claramente anteriormente acertadas para que ele passasse os recados políticos que queria passar.

O primeiro recado é que ele despreza as outras forças políticas, particularmente de centro esquerda.

Com seu silêncio, trata o PSOL e o PSB como satélites, e com suas falas, manda recados ao PCdoB e PDT para que voltem a se enquadrar. Chegou a afirmar textualmente, com ênfase, logo de início, que “O PT provou que é o único partido que existe nesse país. O resto é sigla de interesses eleitorais em momentos certos.”

Um chocante nível de ódio, desprezo e arrogância com forças políticas aliadas de uma vida toda.

Ao afirmar o PT como dono de 30% do eleitorado, distorce a realidade de um partido que tem hoje somente 14% de preferência nacional. Distorce mais ainda ao omitir que o maior partido do país é o anti-PT, com 38% de preferência.

Mas o recado está dado e é claro. O campo progressista tem que voltar a posição de seu capanga e se recolher a sua insignificância.

O segundo recado é o ódio por Ciro Gomes.

É flagrante para um psicólogo a incongruência entre a comunicação verbal e não verbal de Lula quando fala de Ciro, sua indignação com o fato de ele manter suas críticas ao PT e não aceitar sua tutela, com sua petulância de desafiar a liderança de Lula no campo progressista.

Em sua relação com Ciro, Lula se comporta como assediador que não aceita o não de uma mulher como resposta. E não é não. Parece que aos 73 anos ele ainda não aprendeu uma lição elementar: é saber ouvir coisas que ele não gosta, suportar os contrários dentro daquilo que ele considera seu curral, o campo popular.

E projeta isso em Ciro.

Ao convidar Ciro para visitá-lo na prisão, Lula quer sair do terrível isolamento político ao qual está condenado e fagocitá-lo. Ao acreditar que o pedetista teria qualquer motivo, hoje em dia, para cometer um suicídio desses, se mostra fora da realidade. Antes das eleições, quando o Brasil precisava da conversa dos dois, Lula simplesmente se recusou a recebê-lo.

Agora, Inês é morta.

O terceiro recado foi para a elite brasileira.

Lula acena com mais do mesmo, uma bandeira de rendição na forma de “perdão”. Num lapso de inconformismo exige dela uma autocrítica por tê-lo abandonado como seu operador. Volta a, inacreditavelmente, depositar suas esperanças em “provar sua inocência”, o que, segundo ele, é ser absolvido pelo judiciário. Acena ao STJ e a todo mundo político dizendo que tem um único inimigo prioritário, a operação lava-jato.

Nisso, ao menos, acerta. Com anos de atraso, Lula descobriu que não há forças no Brasil que possam aceitar sua rendição em troca do fim da operação.

Acena inclusive a Mourão, reforçando as suspeitas de que de fato o PT esteja conversando sobre um país pós-Bolsonaro.

Mas o quarto recado, e o mais chocante, foi para o próprio PT.

Ignorou os quadros do partido e não deu nenhuma indicação de passagem de bastão e formação de novas lideranças. Ao contrário, afirma que viverá até os 120 anos e só pensa em voltar a correr o país em campanha. Que vai disputar as próximas eleições. Ele não está em estado de negação, provavelmente, mas enviando um recado enfático: quem manda sou eu e não abrirei caminho para ninguém.

Gleisi pode se preparar para o novo mandato à frente do partido.

Como disse o Cappelli, Lula aprisiona o PT com ele em Curitiba para não deixar que eles o abandonem. Eu diria mais. O que Lula gostaria mesmo é de aprisionar Ciro com ele, assim como também Dino e o PSB. O que lhe falta é poder para isso.

Porque ele sabe que abandonou um por um os companheiros que caíram pelo caminho, e que no PT real, poucos pestanejariam em abandoná-lo se seu capital político se esvaísse um pouco mais.

Então está dado. Lula quer repetir tudo o que destruiu o país. Não dá qualquer indicação de que considera ter culpa na situação atual. Quer imobilizar as forças de esquerda em torno dele, colocar na rua uma candidatura fictícia, acenar com a banana do apoio dele a três ou quatro ao mesmo tempo, impedir o surgimento de novas lideranças no PT e fora dele, desconstruir toda reorganização política mais ampla em que ele não seja protagonista.

Para quem, fora do PT, ainda acreditava que era possível uma reorganização do campo progressista com Lula, sua entrevista foi terminal.
Quem precisava de desenho está desenhado: Lula só pensa em seu jogo de poder pessoal.

O PT é seu refém.

Ele prefere perder as próximas três eleições para Bolsonaro, Mourão, Dória, Huck ou até o Carluxo, a ajudar alguém que não seja ele a vencer. O sofrimento do povo brasileiro e a destruição de nossa nação são para ele um detalhe.

Que saudades da grandeza que teve Brizola em 89 e 98. Perto dele, Lula é um anão. Não lhe falta sabedoria política, mas, sim, amor ao país.

Acredito particularmente que as principais lideranças dos demais partidos do campo, Ciro, Dino, Câmara e Freixo, deveriam momentaneamente dar passos atrás em suas pretensões eleitorais para articular a criação de uma nova esquerda, sem hegemonismos.

Temos que nos preparar para que as eleições municipais de 2020 coloquem o PT não na posição de único partido do país nem de partido cassado, mas de somente mais uma força política, que já teve sua chance e precisa abrir espaço.

Quanto a Lula, espero que possa voltar para casa em breve. Que não seja mais proibido de falar, mesmo porque já sabemos o script. A direita não precisa mais calá-lo.

Porque já sabemos que Lula não se arrepende de nada, não aprende nada e não muda nada.

12 Comentários

  • Esta visao nao é somente de quem nao e do PT, mas de um olhar apequenado, que mesmo reconhecendo que “Lula está preso numa operação do Departamento de Estado Americano, uma nova operação Condor judicial que se espalha por toda América Latina. Não é por um triplex e um sítio que nunca foram dele. Causa comoção porque Lula foi um presidente que, embora mediano, fez muito mais bem do que mal ao Brasil, principalmente à parcela mais pobre da população.” ainda assim encontra subterfúgios para acusa-lo de dar uma entrevista terminal. A eleição acabou, Ciro deu as costas ao povo que o elegeu e foi passear na Europa, nao articulou para compor com a oposição, dizer Lula ta preso, e fato, mas chamar de babaca e ofensa.

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  • Apequinada? Pequeno foi o Lula. Ele poderia ter feito muito, mas preferiu ficar de conversinha que é inocente. Inocente ele não é. A prisão ser arbitrária não faz dele um inocente. Se continuar assim a esquerda e o centro-esquerda vão deixar Bozo governar facil

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  • Comentei esse mesmo artigo numa outra página e, fui bloqueado. Acontece. Assim, comento aqui.

    Cada um faz as análises da entrevista do Lula, que melhor lhe convém. Vi toda a entrevista e vi um homem forte, resiliente, sábio, magoado sim e, com um poder incrível de mobilização!
    As falhas que apresentou na entrevista foram ofuscadas pelo seu brilhantismo. Afinal, ele é humano, demasiadamente humano.

    Falo agora desse artigo do Gustavo Castañon, do site portaldisparada: o artigo é cheio de achismos.

    Achar que começar com frase de efeito descontextualizada é sinal de … quê? Einstein foi um gênio da Física, sim. Erudito, tb foi.
    E… é isso. Nada mais.

    Ele prossegue com achismos, recados velados, silêncios, quis dizer isso. O que ele – o Lula – disse, tá na entrevista.
    O resto é opinião do articulista, só que a gente sabe ler, a gente tb tem senso crítico.

    Quanto ao papel da revolta e da comoção, foram justamente elas que elegeram o tosco do Bolsonaro. Sem nenhum chance num debate direto contra Haddad ou Ciro por exemplo, ele apelou. Não foi mais a nenhum debate, onde sabia-se que ele só tinha a perder. E a facada na hora exata foi mais do que providencial.
    Sem ela, ele jamais teria sido eleito. Bolsonaro deve o cargo ao Adelio. Fato inconteste..

    Sigamos em frente. Ao falar do Lula, o articulista segue com achismos – insisto no termo, pois ele usa isso fartamente, o tempo todo – pois quem viu a entrevista viu exatamente o contrário.
    Um Lula antenado, firme, senhor de seu tempo e espaço, ainda que restritos.

    Ao dizer que o Lula tratou partidos de esquerda como satélites do PT, mentira deslavada. Em nenhum momento da entrevista Lula cita partidos dessa forma. A frase mencionada estava no contexto de uma leitura do momento atual, não o que o articulista quis enfatizar – artificialmente. Mais: falou que o Lula é autoritário, que Disse isso e aquilo, etc. Esse cara comeu bosta de cigano, pra ler a mente do Lula?

    Na entrevista dele, não ouvi nada disso. O que ouvi, foi uma aula de geopolítica, de preocupação com o emprego, a sobrevivência das famílias brasileiras.
    O articulista pinta um Lula não com as cores dele, mas com as suas: sem conexão com a realidade.

    Finalmente, ele passa a impressão de um ressentimento com o Lula, o tempo todo ele fala que o PT é refém do Lula, o que não vemos na prática, o PT está lá, atuando como sempre.
    O que vejo é o desespero em dizer o que o Lula não disse, em desvirtuar o recado de Lula, do cárcere.

    A lucidez do Lula, a de sempre. A desfaçatez do articulista, também a de sempre, de uma mídia que nunca esteve a seu serviço.

    Apenas e como sempre, fatos.
    Espero ter ajudado.

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  • só isso explica: [ Que saudades da grandeza que teve Brizola em 89 e 98. Perto dele, Lula é um anão] Brizola fez o que fez e se foder, é isso que a bosozolândia acha ser política que o petismo deveria praticar. Pois sabe que sem o petismo, as demais ditas esquerdas são mais direita até que a própria, é só uma questão de agrado com cargos

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  • Quanto à negação do ódio a cada dois segundos, parece ter razão, o autor do texto. Não sou psicóloga, mas a dinâmica é essa mesmo, nega-se em demasia o que é real dentro de si. Sim, é humano. No tocante à fala sobre Ciro, não creio q exista ódio de parte do ex-presidente, apenas acho que não havia razão de ser para referenciá-lo, ele não tem toda essa importância para o cenário político do país. Ademais, quem discorda de que Ciro não faz mal à ninguém, mas sim a ele próprio com jeito intempestivo de ser? Não citar lideranças dentro do PT foi um vácuo que me chamou a atenção. A causa pode mesmo ser essa: o partido está aprisionado junto com Lula e este não abre mão do seu protagonismo. Contudo, parece-me justo, considerando que o partido nasceu das entranhas de Lula nos anos 80e ele está preso por ter levado a efeito um projeto de o partido se perpetuar no poder. Isso dito pelo próprio Moro, que sempre deixou claro que não achava tão grave o desvio de recursos para uso próprio quanto para um partido. Portanto, corretíssimo que o partido esteja ao lado de Lula neste momento. Quanto ao anti-petismo, de fato, em 2018 foi maior que o partido, mas nada que 100 dias do governo seguinte não altere esse índice para baixo. Depois de quatro anos, então… Por fim, creio que o jornalista possa refletir sobre a exata noção do significado da palavra fortaleza, pois foi o que se viu na entrevista do septuagenário, em que este se mostrou vivo, forte e preparado para enfrentar todas as forças contrárias, mesmo depois de tantas circunstâncias extremamente desfavoráveis. Minha humilde opinião.

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  • O olhar vesgo do escritor da matéria, só enxergou na esquerda nomes que interessam, mas esqueceu que nasce na Bahia, a maior liderança do PT , na era pôs Lula! Governador Rui Costa! Observem ele crescer.

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  • Pois é. O articulista passa a impressão que já sabia o que iria escrever mesmo antes da entrevista ter acontecido, … e que apenas escreveu o desabafo de alguém envilecido pelo rancor.

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  • Chomsky tem razão: o Lula é o maior líder politico da America latina…Ciro é um Marina de cuecas…

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  • Quem Lula ainda consegue mobilizar se não 30% de um eleitorado que tem medo de apostar, o lulislmo e petismo não entenderam o recado de uma nação, preferem votar no Bolsonaro , tentar a certar na escuridão do que se entregar a luz do dia ao PT, todo mundo entendeu só não o PT. 30% nunca elegeu nenhum presidente! Arrogancia, ignorância, petulância, ingratidão foi o que se viu i ouviu na entrevista do ex presidente. ” Se 10% ganhar a eleição vai lá e ganha no primeiro turno” esqueceu que nunca ganhou uma eleição no primeiro turno que suas vitórias foram galgadas em um esforço conjunto de toda esquerda incluindo o próprio Ciro que quando melhor prefeito do Brasil, melhor governador do ceará o apoiou com espólio próprio de voto no ceará, e quem era Lula em 1989? ninguém! foi nesse momento que todas as forças de esquerda juntas o elegeram em 2003 ! Mas agora para a divindade Lula são só siglas sem importância! Reza a Bíblia que Deus endureceu o coração do Faraó para que fosse até as últimas consequência do seu orgulho para então rastejar no pó da sua real condição. #CIRO 2022 COM CERTEZA. PT NUNCA MAIS.

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  • “As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam.”
    Políticos inteligentes não fazem Politica (especialmente, partidária) com ódio. Emoções destrutivas/incapacitantes não cabem em espaços e/ou circunstâncias onde o pragmatismo impera – porque Política é principalmente isso (embora eivada de idealismos, lógico), pelo simples fato de que tem como objetivo a conquista de proposituras humanas coletivas. O interessante é que, excluindo o previsto nos 2 patamares base da pirâmide de Maslow, coletividades humanas modificam a forma do alcance da necessidade dos 3 restantes. Mas há políticos que insistem em tutelar a coletividade, como se não fosse possível outra acepção diferente da sua. É por essas e outras razões que não pauto Lula ou PT: obscuridade é destino de tudo que está superado, e eu, como pragmática que sou, tendo a colaborar com o inevitável.

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  • Pelo jeito alguém comeu a alfafa ideológica que estão jogando nos currais da militância esquerdista. Insinuar que um julgamento em três instâncias, envolvendo calhamaços de provas documentais, num processo penal que resultou em mais de 150 presos por corrupção e lavagem de dinheiro, teve papel do governo americano, só pode vir da cabeça de um perigoso e esclerosado doente mental. Infelizmente, nosso ambiente político está mesmo patético: de um lado olavistas enfezados vendo conspirações comunistas até nas folhas das plantas, de outro sociopatas de esquerda dançando em torno da piroca lulista e se portando como estatólatras miseráveis.

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