Lula e a grande final

Em vias de uma decisão do Poder Judiciário brasileiro, a postura serena e aparentemente impenetrável de Lula se destacou em “A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam”, publicado pela Editora Boitempo, em 16 de março deste ano. O livro é resultado de uma entrevista realizada por Juca Kfouri (jornalista), Maria Inês Nassif (jornalista), Ivana Jinkings (fundadora e diretora da editora Boitempo, também autora do livro) e Gilberto Maringoni (professor de relações internacionais), no dia 7 de fevereiro de 2018, no Instituto Lula, em São Paulo.

Amigo íntimo do futebol, Lula inicialmente dá de costas para a perseguição que sofre por parte da operação Lava Jato. Tratou logo de quebrar o gelo mostrando que estava maravilhado com a leitura do livro “Futebol ao sol e à sombra” (1995), de Eduardo Galeano, que acabara de concluir. Curiosamente, nesse livro, o autor inicia falando do desejo de odiar Juan Alberto Schiaffino e Julio César Abbadie, craques do Peñarol, como bom torcedor do Nacional que era, e querendo provar ser ainda mais fanático. Nada feito. O futebol bem disputado e o jogo fluido puseram fim às suas pretensões de ódio, e Galeano se segurava para não aplaudir o adversário. No fim das contas, viu-se apenas como um torcedor do espetáculo ou, em suas palavras, “um mendigo do bom futebol”, quase que suplicando por grandes lances e jogadas geniais e inesquecíveis nos inúmeros estádios que visitou.

De que forma essa postura apaixonada de Galeano pode nos permitir entender a personalidade de Lula? Simples. O presidente se derrete ao falar de futebol, é uma enciclopédia ambulante de lances marcantes e datas eternizadas dentro das quatro linhas. Enche os olhos ao comentar especificamente o Corinthians, claro, prioridade indiscutível em dia de jogo, mesmo que simultaneamente esteja sendo votado algo que diga respeito ao seu futuro. O futebol só não é unanimidade em seu coração quando o assunto é política.

Há tanto desejo de retornar à presidência. Há tanta lucidez também. Lucidez que se perde um pouco nos momentos de exaltação quando lembra da “pilantragem” sofrida e das acusações infundadas e disseminadas pela mídia, mas que logo retoma seu lugar pela clareza que se tem das engrenagens por trás das frágeis justificativas de corrupção sustentadas contra ele. Nunca antes na história desse país, e de Lula, há tantas provas de uma trama para desarmá-lo politicamente. Mesmo alternando entre consciente do contexto em que está inserido e indignado pelo desenrolar dos acontecimentos (como um bom torcedor de futebol costuma alternar), a expressão “Lulinha paz e amor” sempre vem à tona. Utilizada por ele com certa frequência, a expressão denota uma necessidade de dizer que, se chegar ao poder sob algum cenário possível, não irá retrucar com vingança contra aqueles que hoje perseguem sua imagem. A insistência nesse governo conciliador parece incomodar os entrevistadores. “Mas será mesmo que ainda dá, Lula?”, “Dá!”. Será? A diferença crucial é que, apesar das incontáveis analogias que possamos fazer, não estamos falando de uma partida de futebol, mas de uma democracia ameaçada pela livre interpretação da Constituição de 1988, ao prender alguém sem o esgotamento dos recursos possíveis, configurando este num processo repleto de ilegalidades e sem qualquer credibilidade. Lula acalma, indica que a história punirá. Parece certo e tranquilo quanto a isso. A mesma tranquilidade que o fez consolar militantes entristecidos que choravam copiosamente na porta do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, no início do mês. “Fique tranquila, tá? Tudo vai dar certo”, disse ele para uma moça, naquela oportunidade.

Em conferência magna proferida na Universidade de Berkley, em 16 de abril, a presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff salienta que o cenário político brasileiro pode ser percebido da seguinte maneira: de 1964 em diante, com o desenrolar da ditadura militar, a árvore da democracia foi abruptamente cortada por um machado. Hoje, quase dois anos completos do golpe de 2016, a árvore foi infestada por parasitas que a corroem desde dentro, referindo-se ao golpe midiático que mantém plena relação com instâncias políticas e jurídicas fundamentais ao funcionamento do país. Em sua fala, diz ainda que se uma presidenta sofreu impeachment sem crime de responsabilidade — simplesmente pela revolta dos derrotados num legítimo processo democrático — tudo pode acontecer em seguida. Em seu livro, Lula já corroborava esse posicionamento ao falar que o golpe foi institucionalizado, sendo formalizado pela própria manipulação das leis, tramitando quase que sem resistência para combater uma forma de governar. “Não é o Lula”, ele disse, “É o modo de governar”. Sob que hipótese a elite brasileira permitiria passivamente a ascensão dos pobres?

Lula sabe lidar com esse tipo de pressão política e com as mentiras de que foi alvo, e não é de hoje. Inclusive, aponta esse aspecto como o calcanhar de Aquiles de Dilma em 2016. Na presidência, ela era inteligente, extremamente dedicada ao estudo técnico de suas ações à frente do governo, mas não teve “jogo de cintura” para dialogar, estabelecer relações de negociação, sendo, por fim, engolida num ataque descomunal desferido por todos os lados. Técnica, sim, mas sem habilidade para decidir a partida, sem o drible objetivo e decisivo.

Lula nos lembra que, na campanha para o governo de São Paulo, em 1982, o próprio Movimento Revolucionário 8 de Outubro — que participou da luta armada contra a ditadura e, posteriormente, tomou caminhos politicamente controversos — o acusou de ser dono de uma casa no Guarujá. Logo depois, eis que surge a verdade: a casa sequer ficava no Guarujá, mas sim numa praia de Pernambuco e, o mais importante, pertencia a Airton Soares, deputado federal pelo PT na época. Isso para não dizer das acusações sofridas por familiares, a exemplo do seu irmão Frei Chico, das constantes denúncias de receber propina, da posse de outros imóveis que não lhe pertenciam, da atribuição de postos de liderança em quadrilhas, e por aí vai. Depois do powerpoint do procurador Deltan Dallagnol colocando Lula como cabeça de um arrojado esquema de corrupção, o presidente percebeu, claro como o dia, que se tratava de uma trama para criminalizar seu partido e que, por sua posição de destaque, concentrou-se nele as ofensivas mais relevantes. Ao ser questionado: “Não tenho provas, tenho convicções”, disse Dallagnol sobre o powerpoint, num ato de extrema irresponsabilidade investigativa, para dizer o mínimo.

Em meio ao papo sobre os anos do PT na presidência do país, as lutas contra a pobreza, os programas educacionais, as viagens internacionais e diálogos com outros governos, as convergências e divergências com Dilma, os entrevistadores pareciam dar voz (uma voz inquieta) a uma súplica feita ao presidente: “Não se entregue! Busque refúgio noutros países!” Não teve jeito. Lula seguia na serenidade que caracteriza os grandes líderes, certo de sua estratégia e administrando aquele jogo. Numa nova analogia, era um jogador de futebol perdendo a partida de ida das finais do campeonato mais importante, mas tinha plena consciência que nada se definiria ali, nos primeiros 90 minutos. Tudo pode acontecer numa decisão de ida e volta.

Lula demonstrava ter uma responsabilidade muito maior, mais duradoura, com o amanhã, com a história que estava sendo escrita, assim como quando foi preso por 31 dias em 1980 ao liderar uma greve no ABC Paulista (mesmo palco que retornaria quase 40 anos depois para resistir por 2 dias até se entregar à Política Federal), lutando pelos direitos dos trabalhadores. “O preço que vai ser pago historicamente é a mentira contada agora. A Polícia Federal mentiu no inquérito, o Ministério Público mentiu na denúncia, e o Moro sabia que não era verdade e aceitou e transformou as mentiras num processo que me condenou.”, disse.

A jogada do adversário? Claríssima: segundo o presidente, caso Dilma não tivesse sofrido o impeachment em 2016 e Lula vencesse as eleições de 2018, o PT completaria 24 anos no poder do país, estabelecendo permanentemente uma forma de governar e dando continuidade aos programas que vinha desenvolvendo, melhorando a condição de vida dos brasileiros. Contra esse plano, a jogada foi traiçoeira, resultando na entrada firme e desleal que machucou o craque do time, com finalidade de tirá-lo da disputa. Até agora, nada de cartão vermelho para os adversários. Lula observa que jamais fez uso de sua posição política para gozar de facilidades ao lembrar que ele mesmo sancionou a Lei de Ficha Limpa, no ano de 2010, tornando inelegível por oito anos qualquer candidato que tiver o mandato cassado, renunciar para evitar uma possível cassação ou condenado por decisão de órgão colegiado, mesmo que ainda exista possibilidade de recorrer.

Lula entrou naquela sala do instituto disposto a falar. Instituto esse que capengava graças ao bloqueio milionário que lhe foi imposto, mais uma jogada que, para o presidente, tinha a intenção não apenas de impedi-lo de participar do processo eleitoral, mas destruí-lo, humilhá-lo. Mesmo sob constante ataque, em nenhum momento escondeu o jogo: sua condenação é política. Sua estratégia? Entregou de bandeja para quem se interesse: confiar na verdade e na justiça (“Se eu não acreditasse na justiça, não teria criado um partido político, mas ia propor uma revolução”), no clamor daqueles que o defendem, na clareza da manipulação midiática liderada pela Rede Globo e que tem no juiz Sérgio Moro a maior representação dos seus interesses. Sua convicção é que virará esse jogo, custe o que custar, pois, diferente de uma partida de futebol, Lula está no campo da história, que sempre se revela grandiosa às arbitrariedades dos homens. Nesse campo, não há jogo fora nem em casa, não há São Bernardo ou Curitiba. E nesse campo, o tempo é apenas um detalhe.

 

Por Wanderson J. F. Gomes.

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