Lula e os tenentes

Julho de 1922. Ocorre a primeira revolta do movimento tenentista.

Em uma República Velha, que se decompunha na mão de oligarquias que mantinham o país refém dos seus lucros na exportação de café, são realizadas eleições. Em 1º de março daquele ano, o candidato governista, Arthur Bernardes, havia derrotado Nilo Peçanha na eleição para presidente. Nilo encabeçava a Reação Republicana, movimento lançado para tentar se contrapor à força da máquina do governo nas eleições, que não foi forte o suficiente para se contrapor à fraude eleitoral: Bernardes venceu com 56% dos votos.

As contestações ao resultado foram seguidas de repressão por parte do governo, o que motivou um levante das unidades militares do Rio de Janeiro contra o presidente. No entanto, no momento combinado, apenas o Forte de Copacabana se insurgiu. Isolados e atacados pelas forças do governo, parte da tropa resolveu se entregar, restando apenas 17 que se recusaram a admitir a derrota. Sem chances de vitória militar, esse pequeno pelotão decidiu abandonar o Forte e enfrentar de peito aberto as tropas governistas. Diante da bravura dos combatentes, um civil resolveu se juntar a eles, formando o lendário grupo dos 18 do Forte de Copacabana. Após o tiroteio que se seguiu, 16 dos 18 heróis foram mortos. Esse foi o primeiro de uma série de eventos que, oito anos depois, levaram os tenentes à vitória, com a Revolução de 30. Incorporado às Forças Armadas, o tenentismo se tornou o núcleo de poder mais importante do país até 1985.

Agosto de 1961. Sete anos do suicídio de Getúlio Vargas no Catete, sete meses após a posse de Jânio Quadros na Presidência da República.

Com a renúncia de Jânio, os poderes constituídos se recusam a empossar o vice-presidente João Goulart. Os tenentes e seus sucessores continuavam perseguindo o projeto de país iniciado em 1922, mas agora se dividiam de forma clara em torno do getulismo. A parte contrária à posse do vice-presidente ordenou o bombardeio do Palácio do Piratini, onde o governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola, resistia lançando um apelo ao país pelas ondas do rádio, no movimento que ficou conhecido como a Campanha da Legalidade. Os tenentistas do Rio Grande ficaram do lado do governador e um acordo costurado pelo hábil ex-ministro de Getúlio, Tancredo Neves, evitou o derramamento de sangue, garantindo a posse de Jango mediante a mudança do regime político.

Maio de 1978. Metalúrgicos de uma multinacional que fabricava caminhões em São Bernardo do Campo cruzam os braços exigindo 20% de reajuste salarial.

Esse foi o primeiro evento político de relevo desde que o setor tenentista vitorioso em 1964 havia colocado seu projeto de desenvolvimento em curso. Com base em capitais externos e atração de multinacionais, o regime havia levado o país a crescer a taxas médias de 10% ao ano, entre 1969 e 1973, no período que ficou conhecido como milagre econômico. Com o esgotamento do capital externo a juros baixos, que se seguiu à crise do petróleo, o plano econômico dos tenentistas de 1964 foi ferido de morte. Fez-se necessário reorientar o modelo com a retomada do investimento do Estado Nacional, promovida pelo governo do General Ernesto Geisel.

Porém, o rápido processo de urbanização e industrialização, com a maior parte das bençãos do milagre sendo lançadas sobre o parque industrial paulista, mudou a correlação das forças internas, o que permitiu os setores civis ligados ao capital externo e às multinacionais, que articularam o golpe de Estado em 64, se voltarem contra os militares no fim dos anos 70. Aliado a isso, o arrocho salarial, que era parte integrante do modelo de industrialização, impondo competitividade ao setor em sacrifício do mercado interno, se tornou intolerável aos setores populares em um ambiente de volta da inflação pelo estouro das contas externas do país. Foi nesse contexto que se deu a retomada do movimento grevista no Brasil, tendo seu epicentro no ABC paulista. Da greve de 1978, que contou com a participação de 2000 metalúrgicos, emergiu um amplo movimento de massas, do qual se destacou o líder sindical Luís Inácio Lula da Silva.

As greves se agigantaram e se espalharam pelo país. Os trabalhadores se organizavam rápido para impedir que a conta do ajuste fosse feita sobre eles novamente. A pressão do governo se acentuou e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC se tornou o palco da resistência. As imagens de enormes comícios a céu aberto, enquanto os helicópteros da repressão sobrevoavam as manifestações, se tornaram o símbolo do heroísmo dos trabalhadores da época. Dois anos após a primeira greve, veio a prisão de Lula pelo DOPS. A comoção diante desse acontecimento transformou o líder sindical do ABC em um dos mais influentes líderes políticos do país.

A fração vencedora dos tenentes de 64, traídos pelos civis que articularam o golpe e espremidos pela mudança da conjuntura econômica mundial, foram derrotados de vez em 1985. Sem o tenentismo para fazer o contraponto, o sistema financeiro internacional, em conluio com a elite financista que se formou no Brasil durante a ditadura, alastrou seu controle pelo país e encontra, agora, naquele mesmo líder sindical dos anos 70, um obstáculo ao desmonte final da Nação.

Assim como fizeram os oligarcas da República Velha, um novo modelo de dominação está sendo construído pelos oligarcas das finanças. Em vez de um Partido do Café (com Leite), que submetia todo o país ao subdesenvolvimento para manter o domínio das oligarquias cafeeiras, constitui-se, hoje, o Partido da Lava Jato, para dar cabo das resistências e submeter todo o país aos interesses das finanças.

Abril de 2018. O Partido da Lava Jato condena Luís Inácio Lula da Silva a 12 anos de prisão pelo crime de cruzar o caminho dos novos oligarcas.

Na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, muitos apoiadores do ex-presidente compõem as imagens que estarão nos livros de História amanhã. Dessa vez, não há helicópteros sobrevoando os manifestantes. Apenas câmeras de TV.

1 Comentário

  • Uma aula de história!
    “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”

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