Lula traiu o Programa Democrático e Popular?

Quando um ciclo histórico chega ao seu fim carrega junto as bases que permitiram a sua consolidação. Entender a atual conjuntura brasileira passa, principalmente, por compreender o esgotamento da estratégia adotada pela social- democracia: O programa democrático e popular.

O Programa Democrático e Popular tem como o principal protagonista o Partido dos trabalhadores. As teses desse programa surgem com o objetivo de distanciar da antiga formulação etapista da Revolução Democrática Nacional, defendida pelo PCB. Predominava o entendimento de que não seria uma nova teoria das etapas, pois a implementação só poderia se realizar em um governo hegemonizado pelos trabalhadores. Basicamente as teses dessa estratégia se resumem da seguinte forma:

“1- O desenvolvimento do capitalismo brasileiro deixou de realizar tarefas da revolução burguesa (reforma agrária, desigualdades regionais e sociais, consolidação de uma ordem democrática, etc.);

2) Estas tarefas não podem ser enfrentadas em aliança com uma suposta burguesia nacional e tem por protagonistas as classes populares (trabalhadores do campo e da cidade e demais setores explorados pelo capitalismo);

3) O caminho de realização da estratégia (o que chamamos de via) seria o acumulo de forças que combinaria um forte movimento de massas com acúmulos institucionais que culminaria na chegada à Presidência da República para realizar um conjunto de reformas apresentadas no Programa Democrático-Popular (antimonopolista, antilatifundiário e anti-imperialista).”*

Em 2002, Lula o porta-voz do Partido dos Trabalhadores com amplo apoio de movimentos sociais, sindicatos e organizações políticas, vence as eleições, ou seja, as condições objetivas para implementação do programa estavam colocadas. Com Lula na gerência do Estado, basta incluir o “povo” na maquina, para realizar uma política antimonopolio, antilatifundio e anti-imperialista.

Como sabemos, em seu mandato e nas seguintes gerências do Partido dos Trabalhadores, as “tarefas em atraso” diagnosticadas em seu programa não foram “solucionadas”. Teria Lula traído o Programa Democrático e Popular? A resposta é não.

Com a chegada do Partido dos Trabalhadores a gerência do Estado, as teses centrais do seu programa tem agora que entrar em confronto com a materialidade. Um análise demonstra que a formulação sobre o caráter do Estado e a formação social brasileira, estavam erradas. Existe uma impossibilidade material da realização dessas medidas via Estado.

Primeiro, pois não compreenderam o caráter do Estado Burguês e a impossibilidade de uma “transformação por dentro” por meio de uma “hegemonia dos trabalhadores” sem a existência de uma via revolucionária.
Segundo, que o capital e a formação social brasileira não estava em atraso, mas completamente desenvolvidas. Não cabia aplicação de reformas para acelerar o desenvolvimento brasileiro.

Contrariando a realidade, o Programa Democrático e Popular ainda sim é aplicado, “do jeito que deu”. Refletindo no deslocamento das lutas dos trabalhadores/as e suas pautas para o interior da esfera institucional, criando uma representação burocrática, enfraquecendo e distanciando dos interesses reais de suas bases; A reforma agrária se transformou no “desenvolvimento da indústria agrária nacional” em parceria com os latifundiários; O programa anti-imperialista vira a concessão de empresas para o capital internacional.

Tendo em vista o aprofundamento da crise capitalista, diversos partidos se inscrevem para tentar ser o novo gerente do Capital. A social-democracia, negando a “análise concreta de situação concreta”, não aceita a falência desse projeto e suas consequências na derrota da classe trabalhadora e tentam recuperar o PDP, partindo do princípio que Lula não apresentou radicalidade suficiente para operar a aplicação do “verdadeiro programa”. Caberia então a tarefa de retomar a estratégia.

Porém não compreendem que Lula não traiu o Democrático Popular. Os governos petistas são na verdade a expressão real dos limites desta estratégia, bem como sua derrota. A própria análise que o traiu, por falta de rigor e vontade, seus criadores.

Assim, as análises sobre a conjuntura brasileira devem partir da compreensão do esgotamento da estratégia Democrático e Popular.

*https://medium.com/@Contrapoderbr/a-crise-de-uma-estrat%C3%A9gia-coluna-mauro-iasi-85f237807687

Por Ayrton Otoni

Deixe uma resposta