Não existe nova civilização, mas sim luta de classes e crise do capitalismo

Em meio às sucessivas crises do capitalismo, muitos ainda querem resumir o problema a uma guerra de narrativas e seus lugares de fala. Repita-se que decreto algum vai acabar com as lutas de classes e que a queda do muro de Berlim não significou a vitória da sociedade de mercado.

As crises e seus surtos não são iguais, tornam-se cada vez mais graves e só adiam o problema – 1929, 1973, 1979, 1999, 2008 e a atual, se não esqueci de alguma. Wolfgang Streeck mostra isso no seu livro “Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático” (Boitempo, 2008).

Quem tem mais poder político e econômico ganha tempo, aprovando políticas e determinando como devem ser as coisas. Adiam-se problemas também para mitigar outros, dependendo das forças em jogo. Mas a falácia capitalista vem recrudescendo com a voracidade neoliberal-financeira.

Lugar de fala, guerra de narrativas, geração 2.0, sociedade da informação, nova civilização midiática, pós-modernismo. A mixórdia de fetiches do senso comum, inclusive entre intelectuais e jornalistas, transformou-se numa salada vazia para fugir do cerne do problema.

Muitos perderam a noção (ou nunca tiveram) da nossa trajetória genética em termos sociais e econômicos. Quando não são religiosas, as explicações vêm fáceis com suas teorias adaptáveis ao discurso supostamente contemporâneo sem saber o que é contemporâneo.

Confundem o contemporâneo com a última moda no lazer, nas artes, na literatura, na política, nas tecnologias e nos comportamentos. Umberto Eco diria que a última moda é tão antiga como andar a pé. Nosso contemporâneo vem do século XIX. Sem olhar para ele, não conseguiremos olhar para o século XXI.

O paradoxo é esse: ficar excessivamente ligado no cotidiano, aqui e agora, sem olhar abstrato e perspectivo, sem compreender nosso momento de vida – sem compreender como chegamos até aqui.

Quem só fica na internet sem o precioso momento do silêncio e seu correspondente retorno a si mesmo, corre risco de nunca compreender a atualidade. E esse “si mesmo” não é subjetivismo lírico, mas sim o sujeito como fenômeno social, sujeito de ação, sujeito de direito etc. – sujeito que só pode existir com os outros sujeitos, não de forma isolada e fetichizada. Só somos sujeitos na divisão social do trabalho.

Essa geleia geral do contemporâneo é difícil, mesmo, de compreender no sentido sincrônico e diacrônico. Sem um pêndulo dedutivo-indutivo de pensamento sobre o passado e o presente, corre-se o risco de se acreditar no sujeito independente, privatizado, heroico, ignorando, porém, que só somos sujeitos num “assujeitamento” de entrelaçamento social.

Repito aqui, concordando com Marcos Risério: lugar de fala é o escambal, meu lugar de fala é o Brasil. Guerra de narrativas sempre houve, aqui e alhures, desde antes de Cristo, pois, na verdade, todo conflito humano é impregnado pela instância ideológica. O ser humano é um ser que responde, lembra Györky Lukács. No centro dos conflitos diversos (políticos, econômicos, sociais, religiosos etc.) está a ideologia inescapável.

Não escolhemos ideologia como se escolhe algo de uma prateleira à direita ou à esquerda. Fazemo-nos ideológicos ao longo da vida não como exatamente desejamos, mas como as circunstâncias determinam. Isso, ainda que essas circunstâncias possam ou não favorecer desejos pessoais e coincidir ou não nossos projetos e intenções originais do passado com seus resultados no futuro.

E que raio é essa tal geração 2.0? Seria a dos jovens antenados (antenados no quê?) e “tecnologizados”, ágeis, prontos para o futuro sem conhecer o passado? Sociedade da informação, por sua vez, é essa denominação bonita e pomposa, porém vazia, que pretende refletir o contexto das tecnologias de comunicação e informação – porém, no fetiche, um contexto sem história. Seus enunciadores esquecem que os séculos XV e XVI também podem ser considerados momentos de uma “sociedade da informação” com a invenção da imprensa. O século XIX, idem, com as ferrovias.

Perdeu-se a noção de que a revolução tecnológica não é um fenômeno “independente” e à frente da sociedade e seus conflitos. Como se governos, indivíduos, grupos, classes sociais corressem contra o tempo e estivessem sempre atrás das mudanças tecnológicas, estas impulsionadas por uma força “natural” sabe-se lá vindo de onde.

Daí também – exemplo – a acusação estapafúrdia de incompetência da esquerda e dos derrotados nas últimas eleições no Brasil diante da suposta habilidade midiática do esquema Bolsonaro. Ora, essa habilidade, todos agora sabemos, chama-se “fakenews”. Uma velha prática de corrupção, com nova roupagem, na ferramenta midiática do momento.

Há aqueles que acreditam que vivemos uma “nova civilização midiática”, a dos indivíduos atomizados, uberizados, crentes de que tudo será resolvido por uma meritocracia competente no teclado do computador ou do celular. Melhor dizendo: que as formas digitais fixas ou móveis de interação vão determinar, através de botões e alavancas, políticas públicas, sentimentos, afetos e pensamento humanos. A crença de que vão sobrepujar a política.

Não à toa tudo isso como legado da falácia pós-moderna do multiculturalismo, a partir dos anos 1970. Falácia que pretendeu substituir as classes sociais por tribos, as necessidades e interesses conflituosos por “narrativas” de grupos. Coincide com a emergência do neoliberalismo e a derrocada do estado de bem-estar social na Europa.

Produtividade, inovação e tecnologias são situações de um fenômeno contraditório de avanços e crises. As churumelas vão continuar existindo para tentar desviar a atenção dos problemas e do cerne da questão capitalista. Fazem parte da luta ideológica. Ou por ignorância e indigência intelectual ou por má fé mesmo de empresários querendo vender suas marcas de “última geração”, “pós-modernas”, “inovadoras”.

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